15.02.2019 / Moda / por

Do Ceará para o mundo: conheça mais sobre o jovem estilista David Lee

Foto: Thais Mesquita
Foto: Thais Mesquita

O jovem estilista cearence David Lee está agora em Londres como um dos 16 designers selecionados do Internacional Fashion Showcase, uma iniciativa do British Fashion Council que dá suporte a novas marcas vindas de vários cantos do mundo. O programa é uma mentoria com duração de um ano que encerra com a exposição das instalações dos participantes na Somerset House durante a London Fashion Week. Foram 200 inscritos que iam sendo eliminados em quatro meses de etapas, entre elas entrevistas em inglês por Skype (David ainda está aprendendo a língua). “Na última conversa estávamos em 20 e quatro iriam sair. Foi bem tensa e tinha certeza de que não iria conseguir”, conta David em uma conversa por telefone Londres – Ilhabela.

Aos 27 anos, o estilista celebra seu ótimo momento e começa a colher os frutos do trabalho que começou há cinco anos. Em 2018 Lee também ganhou (junto com a Senplo) o concurso criado pela Reserva em parceria com a revista GQ. Suas roupas estão sendo vendidas através do site da marca e em quatro lojas selecionadas. Ele também desfila no Dragão Fashion há quatro anos, praticamente desde que começou sua marca.

O que tem conquistado as pessoas no trabalho de David é justamente seu olhar para o masculino a partir de opostos como, por exemplo, força x fragilidade, movimento x repouso. Ele sempre se interessou muito por questões da masculinidade e pela construção do vestuário. Assim, juntou a alfaiataria com o funcional do militar e o dinamismo do sportswear e a isso tudo acrescentou o crochê, que acabou por se tornar uma parte importante de seu trabalho.

Instalação de David Lee no Internacional Fashion Showcase, em Londres / Cortesia
Instalação de David Lee no Internacional Fashion Showcase, em Londres / Cortesia

De fato, é a inserção do crochê que se tornou o diferencial de David enquanto criador. Além de ser um elemento que representa a cultura de sua região, é também algo incomum no universo masculino.

Mas o caminho até aqui não foi fácil. David nasceu em Fortaleza, filho de um pai motorista particular e de mãe cabeleireira. Sempre foi bom aluno na escola e seus pais achavam que, por isso, ele iria para um caminho mais tradicional em termos de profissão, como medicina. Mas foi justo no vestibular que ele descobriu sua vocação. “Sempre gostei de desenhar e na hora de procurar por uma faculdade, pesquisei que profissões poderiam atender a esse meu talento”. Ficou entre moda e arquitetura. Mas como não entrou na Federal, teve que se virar por conta própria, participando de concursos de novos talentos, estudando sozinho, indo a palestras, lendo e pesquisando muito. E, aos poucos, seus pais foram entendendo sua escolha. “Eles sempre tiveram muitas restrições, mas hoje já compreendem. Até foram na loja da Reserva ver a minha coleção!”.

Autodidata, David lançou sua marca em 2014 após passar um ano e meio no ateliê de duas costureiras aprendendo costura e modelagem. Sua avó, costureira de mão cheia e super exigente, é quem dá o aval das criações de David. “Ela é cri cri com roupa e me fala tudo o que preciso melhorar”.

David Lee / Foto: Igor de Melo
David Lee / Foto: Igor de Melo

David enfrentou as agruras que todo jovem designer enfrenta. “É duro começar independente e não ter grana pra fazer a coisa acontecer”. Lee então alugou um espaço no centro de Fortaleza e é lá onde cria, produz e vende. Tudo é feito em baixa escala, cerca de 12 peças por modelo, que é a maneira que ele até então conseguia trabalhar uma rotatividade.

Seu maior desafio – desafios de todos os criadores – é gerenciar sua marca como uma empresa. Ele aproveitou as mentorias que ganhou, tanto no concurso da Reserva quanto na experiência com o British Fashion Council, para entender mais sobre esse lado do trabalho.

Hoje ele tem quatro pessoas trabalhando em sua marca (um financeiro, dois assistentes e uma artesã). Entre seus planos de crescimento, estão a construção de um site com e-commerce, que deve acontecer nesse semestre, e a venda em multimarcas, para a qual ele está se organizando para o semestre que vem. Por enquanto, ele concentra suas vendas no ateliê em Fortaleza e através de seu perfil no Instagram (a maior parte das vendas vem de São Paulo e do Rio).

Sobre o bom momento pelo qual passa a moda masculina, ele diz: “acredito que é uma questão mesmo do homem lidando mais com a estética, os bloggers de moda masculina, homens públicos falando sobre o assunto… E tem a presença dos jogadores também. O futebol foi uma parte bastante importante nessa transformação pois são referenciais de masculinidade falando de roupa e beleza”.

Com pouco tempo de carreira e ainda muito jovem em idade, a vida de David é um exercício de pequenas superações, seja uma língua que tem que aprender às pressas, a aceitação dos pais para continuar seu caminho ou a falta de recursos para evoluir em sua profissão. Mas é também um exemplo de uma pessoa que coloca sua energia em soluções em vez de ficar preso aos problemas. Vida longa ao David!

 

 

 


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