12.12.2018 / Moda / por

Entenda o caso absurdo entre a Supreme New York e a Supreme Italia

Jovens italianos usando peças da Supreme falsa / Reprodução
Jovens italianos usando peças da Supreme falsa / Reprodução

Algumas histórias são tão absurdas que, se não fossem verdade, pareceriam mentira. O caso abaixo vem acontecendo há três anos com reviravoltas inesperadas que nos pegam perguntando: como isso pode acontecer ainda em 2018?

Uma colaboração da Samsung com a Supreme foi anunciada recentemente pela gigante coreana para o lançamento do Galaxy A8s. No anúncio, a empresa levou ao palco executivos da Supreme para falar sobre a nova colaboração, tendo ao fundo, um backdrop com os dois logos lado a lado. O produto chega exclusivamente às lojas da Supreme na China em 2019. Loja da Supreme na China? Peraí, a Supreme não tem lojas na China. E também não está colaborando com a Samsung.

Quem está por trás dessa negociação é outra empresa. Conheça a Supreme Italia, marca que há três anos produz e vende legalmente peças idênticas da Supreme New York em mais de 50 países onde a original ainda não chegou.

Apresentação da parceria Samsung x Supreme / Reprodução
Apresentação da parceria Samsung x Supreme / Reprodução

Leo Lau, gerente de marketing digital da Samsung, esclareceu: “A marca com a qual estamos colaborando é a Supreme Italia. A Supreme New York não tem autorização para vender na China, enquanto a marca italiana tem autorização de produção, marketing e venda na região Ásia-Pacífico (exceto Japão)”.

Vale lembrar um pouco da história da Supreme original: a marca de streetwear foi fundada em 1994 por James Jebbia e nesses mais de 20 anos de atividade, fez um trabalho super consistente de produto e marketing, tornando-se uma das marcas mais cultuadas do mundo. Se hoje, segundo o site The Fashion Law, ela vale US$ 1 bilhão, até há pouco tempo, operava em escala intencionalmente pequena e controlada. A Supreme tem atualmente 11 lojas próprias (Manhattan, Brooklyn, Los Angeles, Londres, Paris e em seus cidades no Japão) e só entrou com pedido de registro de logo nos Estados Unidos em 2011. De 2013 a 2017, entraram com o processo na Inglaterra, Alemanha, Chile, Brasil, México, Finlândia, Noruega, Romênia, Polônia, Costa Rica e Peru, entre outros.

Já a Supreme Italia foi lançada em 2015 pela International Brand Firm (IBF), holding britânica que “licencia” outras marcas (Off-White e North Face entre elas) e detém os direitos da marca registrada Supreme para uso em roupas e acessórios em 54 países. A Supreme Italia teve a ousadia de se lançar na Pitti Uomo em 2015, a principal feira masculina do mundo, sob os olhares incrédulos do público bem informado.

Os produtos vendidos pelas duas são idênticos, só que o fake é mais barato. Consumidores e revendedores podem ser (e são) facilmente enganados achando que estão comprando a marca real. A Trade Direct, empresa parceira da IBF que entrou com pedido de registro, tem “conquistado fãs de streetwear menos informados e convencido varejistas e lojas de que estavam comprando o original”, segundo a advogada italiana Silvia Grazioli.

O que ajudou isso a acontecer foi um termo conhecido como “legal fakes” em que “legal” indica que a marca falsa é registrada em um país onde a original ainda não foi lançada. E segundo a advogada, essa prática é “enganosa e tecnicamente errada”.

Site da Supreme falsa com produtos idênticos / Reprodução
Site da Supreme falsa com produtos idênticos / Reprodução

Mas enquanto em 2015, James Jebbia parecia satisfeito com sua operação nos EUA e em outras poucas metrópoles, a IBF, sob a supervisão do empresário italiano Michele di Pierro, agiu rápido e saiu atrás dos direitos de marca registrada primeiramente na Itália e, depois, ao redor do mundo. Essa prática, por mais absurda que seja, é legal em muitos lugares. Isso ocorre porque, ao contrário dos Estados Unidos, em que os direitos pertencem à parte que primeiro usou a marca registrada, em países como a China, os direitos vão para a parte que primeiro registra um pedido de uso.

Foi quando a Supreme New York, tratada no tribunal como Chapter 4 Corp., se viu forçado a agir legalmente em uma tentativa de reivindicar propriedade intelectual, alegando falsificação, violação de marca registrada e competição injusta, entre outras reclamações.

A Divisão de Negócios do Tribunal de Milão ficou ao lado da Supreme americana, afirmando que “o uso pela Trade Direct de um logo idêntico em produtos idênticos dá origem a falsificação e atividade ilegal de concorrência parasita injusta”.

Então, em janeiro de 2017 o tribunal ordenou que a empresa cessasse “qualquer produção, exportação e comercialização de roupas e qualquer outro produto que tivesse a marca Supreme”. O tribunal também exigiu que “fosse retirado do mercado quaisquer produtos que ostentassem a marca Supreme assim como publicidade relacionada ou materiais promocionais” e proibiu a Trade Direct de usar o nome do domínio supremeitalia.com.

A Trade Direct recusa-se e entra com recurso. Mas felizmente, em abril de 2017, o tribunal decide-se a favor da Chapter 4 (Supreme original) mais uma vez. De acordo com os juízes, além da conduta ilícita de atividade parasita, a Trade Direct chegou ao ponto de “explorar sistematicamente o trabalho e a criatividade”, bem como “os investimentos publicitários feitos pela Supreme”.

Armada para enfrentar essa guerra até o fim, a IBF respondeu ao tribunal que não apenas eles não estão errados, mas que é a Chapter 4 quem está se engajando em concorrência desleal. A empresa ainda argumentou que o caso deveria ser rejeitado por completo, uma vez que mantém registros uso da marca para Supreme em locais onde a Chapter 4 não tem autorização para operar.

Tudo parecia estar correndo bem para o lado da Supreme New York até que houve uma reviravolta e a marca recebeu seu primeiro baque, uma cortesia do European Union Intellectual Property Office (EUIPO).  À pedido de terceiros, o órgão reexaminou o pedido de registro do logo da Supreme e, em abril deste ano, negou a solicitação. “Descritivo, laudatório e carente de caráter distintivo e, portanto, inelegível para proteção de marcas”, de acordo com o artigo publicado pelo The Fashion Law. A decisão não é definitiva e cabe recurso por parte da Supreme.

Rir pra não chorar
Rir pra não chorar

O caso ainda está em trâmite, mas o estrago dessa decisão já foi feito. Assim que o pedido foi negado pela EUIPO, vários outros tribunais que haviam protegido a Supreme antes, anularam suas ordens que obrigavam a Trade Direct e a IBF a parar de vender e produzir seus produtos.

O domínio www.supremeitalia.com foi devolvido à empresa, que voltou a funcionar a todo vapor – o site que hoje abre para os consumidores brasileiros é o global supreme streetwear. Em uma entrevista ao site italiano nss, um porta-voz da Supreme Italia disse: “A Supreme Italia não vende falsificações. Nós temos um projeto completamente diferente da Supreme New York”. Quando perguntado sobre o que eles copiaram da marca original, ele responde: “absolutamente nada”.

É um caso tão incoerente e fantástico, mas que se a gente pensar, nasceu no mesmo mundo paralelo de onde vieram as fake news. Um mundo onde tudo é permitido, onde leis existentes não se aplicam, onde há milhões de brechas e muito dinheiro aplicado na lavagem cerebral. Tudo isso faz com que a verdade se transforme em mentira e a mentira em verdade. Vamos aguardar os desdobramentos e esperar que a ética vença ou veremos cada vez mais casos como este acontecer com centenas de outras marcas.

Update: após ser massacrada por fãs da Supreme New York ao redor do mundo, a Samsung disse esta semana que está reavaliando a parceria com a Supreme Italia e se arrepende de qualquer inconveniência causada.


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