Cacá Garcia: “Quero criar uma ponte sólida para o futuro da Schutz”

A diretora criativa conversou com o FFW sobre o desafio de criar uma marca de moda do zero

 

a estilista da schutz, cacá garcia. foto: cortesia
a estilista da schutz, cacá garcia. foto: cortesia

Na noite da última terça (12/04), a Schutz, uma das marcas mais bem sucedidas do grupo Arezzo&Co, lançou sua primeira coleção de roupas com pompa e circunstância. Um salão coberto pela cor azul no Masp, na Avenida Paulista, cartão postal de São Paulo, recebeu os principais nomes da indústria da moda e parceiros da marca para brindar a nova fase da Schutz full look. Ao lado do CEO do grupo, Alexandre Birman, a diretora criativa da marca Cacá Garcia recebia cada um dos convidados. A designer de 38 anos pode ser um rosto pouco conhecido do grande público mas tem uma trajetória bastante respeitada dentro da indústria, que ela conhece desde a adolescência “desde que me conheço por gente, eu desenhava roupas no meu diário. Aos 15 anos eu já era camareira no SPFW, achava aquilo o máximo, os desfiles do Reinaldo, da Gloria, admirava muito o que o Paulo Borges tava fazendo. Desde que entrei na faculdade de moda e já fui atrás de trabalho” me conta Caca, em conversa pelo Zoom, do seu home-office, numa quinta-feira, véspera de feriado.

Caca começou sua carreira como estagiária na extinta Raia de Goeye, desenhando botões e o interior das calças. Sua experiência na marca a levou à Pelú, marca da qual se tornou sócia e que durou oito anos. Antes de assumir a direção criativa da Schutz, a designer trabalhou ao lado de Cris Barros por nove anos. “Eu e Cris tivemos uma conexão criativa muito forte, só de se olhar a gente já sabia o que uma e a outra queria ou não”. Em 2021 chegou o convite de Alexandre Birman e de Milena Penteado, diretora executiva do grupo, que significaria um grande passo na carreira da estilista. “Eu saí de uma marca de nicho e tive que mergulhar no universo da cliente Schutz. Eu já cheguei com o pé na porta, dizendo como eu acreditava que deveria ser a coleção, a loja…” me conta ela, ao mesmo tempo em que tem a plena consciência que seu papel dentro de uma empresa do porte da Schutz não é mudá-la, mas sim criar uma ponte sólida para o futuro da marca.

Leia abaixo nossa conversa sobre carreira, processo criativo e o que significa criar uma marca de roupas do zero.

Cacá em que momento você percebeu que se tornar uma designer de moda era uma carreira real?

Eu sempre sempre amei moda e enxerguei isso como uma carreira e eu sou muito movida a paixão. No jantar (de lançamento) eu via todos aqueles profissionais que sempre admirei nesse mercado, que estão aí há anos e que fizeram o mercado da moda ser o que é hoje e eles confirmam isso.

looks da primeira coleção schutz. foto: nicole heineger
looks da primeira coleção schutz. foto: nicole heineger

Como é seu processo criativo? Onde ele começa quando você tem que criar uma nova coleção? 

Muito louco porque no caso da Schutz, depois da primeira conversa que tive com o Alexandre eu voltei pra casa já enxergando tudo dentro da minha cabeça, as estampas, todas as cores. As vezes tô andando na rua, eu vejo a cor de uma lixeira e aquilo fica na minha cabeça, eu ia pras festas, tinha um momento na pista e tudo fazia sentido. E eu junto isso com o que eu acredito que as mulheres querem, o que elas desejam, onde ela quer estar, se ela estiver na casa dela, numa festa…Mas meu processo criativo é muito movido pelo desejo e pelo novo. Já existe de tudo, mas aquela calça naquela combinação, naquela forma não. Eu até evito ver desfiles porque aquilo vai me influenciar de alguma maneira e como eu fico muito nesse questionamento do que é novo eu evito olhar.

Na Cris era um questionamento muito maior, mas aqui na Schutz eu preciso criar peças atemporais chaves e que vou conseguir criar uma história com essa cliente. Por exemplo, investi muito num jeans com corte bacana, uma camisa com corte legal, uma lavagem legal, peças que possam acompanhar a mulher da feira ao baile, que seja uma moda descomplicada. Eu to numa marca de calçado, e o acessório pauta a roupa. Eu vi uma palestra do Virgil que ele falava dos 3%. Que já existe a calça jeans, a t-shirt e o que ele faz é colocar seus 3%. Acredito muito nisso.

O que mais inspira seus designs de moda?

Eu amo arte, me traz muitas referências. A história do vestuário também me inspira, contar histórias através da roupa. A roupa é uma forma de expressar nossa identidade e pra mim, estar nesse lugar de poder dar essa ferramenta para essa mulher se expressar me emociona, é um privilégio. 

“A roupa é uma forma de expressar nossa identidade e pra mim, estar nesse lugar de poder dar essa ferramenta para essa mulher se expressar me emociona”

Você é mais intuitiva ou mais analítica quando está criando? Qual das duas formas é melhor?

Sou mais intuitiva, eu olho a coisa e eu sei se é, se não é. Ainda mais na Schutz que tem muita gente envolvida, eu fecho meu olho e vou onde acredito. Mas também tenho que olhar os números, analisar o que o cliente gosta afinal são eles que vão dizer se o que você criou é bom ou não.

Muitos designers escolhem abrir sua própria marca. Já você sempre trabalhou como estilista para marcas. Por que a escolha por esse caminho?

Eu sou uma cabeça criativa, me coloca pra fazer conta, me dá um bug (risos). E eu sempre acreditei em fazer um currículo, conhecer a indústria, o mercado fabril, os fornecedores, os desafios, os processos de nossa indústria. A moda tem muitas possibilidades, desde a produção têxtil até direção de arte. Eu tive a Pelú, não me arrependo, mas eu acredito que a experiência do chão de fábrica é essencial. Tudo o que aconteceu na minha vida foi para chegar a esse momento. As pessoas vem me falar ‘que sorte você tem’, sim eu tenho mas eu trabalhei para ter sorte. Nada foi fácil.

Você acha que as redes sociais também contribuíram para a forma como as pessoas percebem a moda?

Cada um vive na bolha do que gosta. Você acaba sempre sendo impactado pelo que sua bolha gosta, ainda mais com o algoritmo. Mas é muito incrível dar voz pra muita gente e tem esse leque de você poder estar conectado com diversas pessoas com suas visões diferentes de moda. Antes era assim ‘agora vai usar amarelo’ mas hoje não, um ama o amarelo, o outro odeia, o outro prefere o laranja. É muito legal essa afirmação de identidade e ver as pessoas usando algo que você criou do jeito delas.

Caca, Alexandre Birman e Milena Penteado no lançamento da Schutz full look no Masp
Caca, Alexandre Birman e Milena Penteado no lançamento da Schutz full look no Masp

A marca de roupas da Schutz nasceu pós a revolução causada pelas redes sociais. De alguma forma, essas mudanças levaram a Schutz a lançar roupas nesse momento?

A marca tem 26 anos, e está num momento muito bom, de consolidação, de ótimos números e eu acho que as marcas não podem esperar elas caírem para daí se preocuparem com isso. Eu acho o Alexandre bem visionário, ele é muito bom, se estamos nesse momento vamos trazer mais uma novidade, ele é essa máquina que quer sempre mais, quer fazer…e ter uma pessoa que fomenta o mercado desse jeito é maravilhoso. A Schutz é forte nas redes sociais, atinge muita gente, são 80 lojas, no Brasil, nos Estados Unidos. Eu acho que eles esperaram o momento certo pra fazer isso. Tudo veio a calhar. 

Como você definiria a roupa da Schutz?

Primeiro é um privilégio você ter esse papel em branco. Acho que nem nos meus melhores sonhos achei que fosse ter essa oportunidade de estar onde estou e poder pautar o que vai ser isso. Foram nove meses intensos e me questionei muito sobre quem é essa mulher, olhei muito para a história da Schutz. O Alexandre (Birman) também me perguntava quem era essa mulher e eu falei ‘essa mulher não é uma mulher, sexy, romântica ou descolada, ela é todas em uma, ela é livre para ser quem ela quer ser’. Ela acorda de um jeito um dia, no outro de outro, são várias mulheres, então fiquei pensando em uma coleção que pudesse conversar com todas as mulheres, eu não a ter uma proposta só. E eu não me propus a fazer peças muito elaboradas mas sim peças com informação de moda, com ícones chaves, como um trench coat, uma t-shirt branca, um moletom que todas mulheres tem armário, mas será que elas tem a que eu estou propondo pra elas? 

A Schutz tem um público muito amplo…

Sim, eu acho que é a primeira vez que eu to criando para a brasileira mesmo, porque a Schutz está presente no Brasil inteiro, em todas as capitais, tem um e-commerce forte. 

E o Azul Cobalto que está na campanha, na loja e cobria todo o espaço do jantar no Masp, será a cor de identidade da marca?

O azul é a minha cor e eu to com esse azul bic na cabeça, é uma cor muito feliz, que deixa a mulher muito bonita. Eu queria trazer uma cor nova pra marca. Pra loja temporária eu falei pros arquitetos que eu queria algo que apontasse pro futuro, que tinha que ter esse azul e prata, que fosse o Desvio Para o Vermelho do Cildo Meireles mas azul. Pro jantar eu queria que as pessoas entrassem numa caixa azul. E a turma da Schutz adorou o azul e agora eu to achando que vai virar a identidade da marca. 

Como será o calendário e timing de lançamentos das coleções da Schutz?

Como criação, eu desenho uma coleção, uma estação inteira de uma única vez, mas a coleção de Inverno vai ter quatro drops mais ou menos a cada 25 dias. No verão também, mas serão 6 entradas nas lojas  entre preview, lançamento, alto verão, resort… Eu acredito que a nova coleção tem que conversar com o que você comprou no mês passado. E para fazer roupa é preciso planejamento, muita antecipação e eu preciso ter parceiros que acreditem nesse projeto pois também temos um problema de cadeia de fornecedores complicadíssimo no Brasil hoje e eu tenho a preocupação de comprar o máximo que posso de fornecedores daqui. 

look estampado schutz. foto: nicole heineger
look estampado schutz. foto: nicole heineger

Como você lida com essa pressão e aceleração da moda atual?

É por isso que sou contra olhar o que os outros estão fazendo, porque isso vai envelhecer rápido. Eu peço pra minha equipe evitar isso, se alguém já usou uma cor a gente não vai usar. Pelo lado da criação e produção de novos produtos, eu acredito num crescimento sustentável, temos que achar um meio termo. 

Como você vê o futuro da criação de moda diante de tantos desafios que essa indústria tem pela frente?

Eu acredito que as pessoas estão mais conscientes, elas estão mais informadas. E eu sei que a partir do momento que eu estou fazendo uma peça a mais eu não to sendo sustentável, mas eu quero gerar menos impacto possível, trabalhar com tecidos reciclados, minha fábrica de jeans usa água de reuso, tem todos os selos. É uma questão que me preocupa muito e eu tento fazer a minha parte.

“Eu sei que a partir do momento que eu estou fazendo uma peça a mais eu não to sendo sustentável, mas eu quero gerar menos impacto possível”

O que você diria para um jovem designer que está começando na moda agora?

Acreditar e trabalhar, se dedicar, não é um mercado fácil. Enfia a cara, trabalhe com quem tiver que trabalhar, estude, seja fazendo faculdade, cursos mas também estudar os processos de uma roupa, de como ela sai da fábrica e chega nas lojas. Quando somos jovens, somos ansiosos, queremos as coisas rápidas, mas na moda elas não são. E acreditar no que tem dentro de você, brigue pelas suas ideias.

A loja da schutz na rua Oscar Freire, em São Paulo
A loja da schutz na rua Oscar Freire, em São Paulo

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