24.11.2015 / Moda / por

FFWMAG: O olhar, o estilo e os ideais por trás de cinco marcas da nova geração

Bobby Kolade
Bobby Kolade

A nova geração de estilistas que desponta no mercado merece observação. Essa é a geração que está iniciando uma transição importante e que vai conseguir se desvincular de certos vícios da moda e deixar como ensino para quem vier depois referências de um modo de trabalhar mais colaborativo e uma preocupação forte com o trabalho humano: como a roupa é feita, por quem e onde.

Para esses jovens designers, ter uma loja no bairro mais chique da cidade não é o principal desejo. Eles tampouco querem viver de aparência e hype, mas, sim, de forma sustentável e de acordo com sua realidade e princípios.

Eles têm equipes enxutas e organizadas por talentos, muitas vezes entre amigos, de forma que a organização da marca é mais horizontal que vertical, cada um compartilhando seu saber, unidos por uma mesma forma de enxergar o mundo atual.

Aqui, ser pequeno e crescer com moderação, sem pular etapas, são uma vantagem e uma opção de vida. Da escolha dos fornecedores à distribuição, a atenção aos detalhes permeia todo o caminho. Por serem marcas com estrutura pequena, os designers têm maior controle sobre todo o processo e conseguem atender os revendedores – já que pouquíssimos possuem lojas próprias – respeitando os prazos de entrega.

Sim, ainda são sonhadores, como muitos dos estilistas que vieram antes e muito antes deles, mas são realistas e totalmente conectados e globalizados. Eles buscam qualidade em vez de quantidade e querem ser vistos e usados pelas pessoas certas – aquelas que compartilham e compreendem sua visão, criando uma nova comunidade.

A internet é o mundo deles, por onde inspiram e se comunicam por meio de sites, Tumblr e Instagram, e também onde vendem, em multimarcas online localizadas em diversas partes do globo.

Se eles compartilham de uma mesma visão de negócios, o diferencial está na criação. Os novos estilistas têm um universo particular que vive além das tendências globais e sabem da importância de enfatizar um olhar próprio nas criações.

Nós conhecemos e apresentamos aqui o trabalho de cinco marcas relativamente novas, vindas de cinco partes do mundo: Minas Gerais, Antuérpia, Londres, Berlim e Paris.

Jan-Jan Van Essche

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Jan-Jan Van Essche

Nacionalidade: belga

Existe desde: 2010

Background: Jan-Jan se formou na Royal Academy of Fine Arts, na Antuérpia, e chegou a trabalhar por um período com o pai, que é diretor de arte de cinema. Sempre foi autodidata e começou a carreira na moda fazendo projetos especiais com camisetas – no início, apenas como uma maneira de ficar longe do computador.

Estilo: a marca é unissex e trabalhada sob o conceito do upcycling. Jan-Jan fez a primeira prova de roupa usando a mãe e um vizinho como modelos, para desenvolver um projeto one size fits all. “É uma marca com perspectiva masculina, mas a maior parte das roupas é unissex”, diz. As coleções são numeradas e lançadas uma vez ao ano. “É um guarda-roupa anual, com alguns lançamentos entre as estações.”

No que acredita: “Fico triste quando vejo toda a injustiça e falta de igualdade no mundo, e isso influencia a maneira como penso e também meu processo criativo. Entretanto, eu não traduzo isso literalmente, mas há uma influência na filosofia sob a qual trabalho. Nos negócios, acredito que ter respeito pelas pessoas com as quais trabalhamos é a chave: pelo nosso time, que faz o melhor para ajudar a realizar nosso sonho; pelos clientes, que acreditam no nosso trabalho e são quem o traduzem para o público; pelos costureiros, que investem tempo e sabedoria para que as ideias se tornem realidade. Se todos receberem o respeito que merecem, irão trabalhar com mais dedicação, orgulho e zelo, o que só vai beneficiar o produto e todos os envolvidos”.

janjanvanessche.com

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Modem

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André Boffano e Sam Santos

Nacionalidade: brasileira

Existe desde: janeiro de 2015

Estilistas: André Boffano e Sam Santos

Background: André é graduado em estilismo/modelismo pela École de la Chambre Syndicale de la Couture Parisienne, de Paris, e Samuel se formou em design de moda, em Belo Horizonte. André estagiou com Giambattista Valli e Reinaldo Lourenço e foi assistente de estilo de Barnabé Hardy, atualmente na Carven, além de ter trabalhado com desenvolvimento de produto na Givenchy. Samuel estagiou como designer gráfico em Nova York e durante os estudos trabalhou com confecções de uniformes.

Estilo: a marca trabalha com uma estética clean e digital, e esse DNA é reforçado nas estampas feitas por meio de fotografias e desenvolvidas a partir de técnicas manuais e/ou com intervenções digitais. A modelagem também é importante, com cortes visualmente simples e volumes estratégicos, que a dupla chama de “organic clean“.

No que acreditam: “Nós, como profissionais, somos simplesmente um reflexo do que somos como seres humanos. Desde as primeiras ideias sobre a criação da Modem, um dos valores mais importantes da nossa futura empresa seria a honestidade. Levamos isso adiante, não somente na ética empresarial como também na precificação de nossas peças. Acreditamos em uma moda sustentável e justa. Apesar do centro de interesse criativo da marca ser o universo digital, o que torna nossa roupa especial é a união desse universo com o afeto que a equipe vivencia durante o processo de desenvolvimento e fabricação das peças. Nossa produção é terceirizada, o que torna as relações humanas de grande importância. A valorização, o reconhecimento e o bom relacionamento com fabricantes e fornecedores são fundamentais para a boa execução das peças. Nosso processo de desenvolvimento e criação é diretamente ligado aos fatores econômicos e ecológicos; para nós, um produto bem pensado desde o desenho pode ser feito com o mínimo de perdas, o que é primordial para conseguir roupas de qualidade com um preço honesto”.

modemstudio.com

@modemstudio

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Bobby Kolade

O estilista Bobby Kolade (foto: William Minkepb / Divulgação)
Bobby Kolade (foto: William Minkepb / Divulgação)

Existe desde: abril de 2013

Nacionalidade: alemã

Background: formado pela Academy of Arts, em Berlim, logo começou a trabalhar em marcas importantes, como Maison Martin Margiela e Balenciaga.

Estilo: Bobby cresceu em Uganda e traz de lá as composições com cores vivas características da região. Foca também na alfaiataria, com bons cortes em casacos e jaquetas, e há sempre um elemento surpresa nas coleções. Para o estilista, a estética é uma questão de atitude. Para o verão 2016, olhou para o fim dos anos 1990 e início dos 2000 e resgatou a ideia “de não dar bola, de ter uma estética bold”, preconizada por Lil’ Kim e Missy Elliott. “Você não vê muito disso hoje, os estilos são fabricados.”

No que acredita: “Espontaneidade e criatividade, design intuitivo, consumo responsável e produção consciente. Eu gosto da palavra leidenschaft, que, em alemão, significa paixão. É exatamente isso o que eu sinto e aplico em tudo, especialmente no que diz respeito ao design”.

bobbykolade.com

@bobbykolade

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Bobby Abley

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Bobby Abley

Nacionalidade: britânica

Background: estudou Design e Comunicação na universidade Ravensbourne, em Londres. Antes de abrir a própria marca, trabalhou com Jeremy Scott em Los Angeles.

Estilo: “Faço roupas que eu mesmo tenho vontade de usar. Sempre amei animação e encontrar um jeito de trazer um toque dessa nostalgia divertida para o dia a dia está no centro do meu trabalho. São formas fáceis de vestir, que qualquer um pode usar em qualquer lugar, com um toque lúdico. A moda não precisa ser entediante. Eu levo meu trabalho totalmente a sério, mas as pessoas não precisam ser sérias com a maneira como se vestem o tempo todo”.

No que acredita: “As pessoas ficam presas tentando fazer o que é certo e o que esperam que elas façam, ouvindo conselhos de todo mundo e tentando adivinhar o que é que agrada a todos e vai trazer sucesso. Você tem que defender no que acredita e fazer o que acha correto. Os clientes e as lojas que têm me apoiado desde o primeiro dia não me apoiaram com base no que as outras pessoas acham. Eles estão ao meu lado porque compartilham da minha visão. E é minha responsabilidade fazer com que cada item que crio reflita essa visão.

bobbyabley.co.uk

@bobbyabley

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Études Studio

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Aurélien Arbet e Jérémie Egry, fundadores do Études Studio

Nacionalidade: francesa

Estilistas: Aurélien Arbet e Jérémie Egry são diretores criativos, José Lamali cuida do design e da produção e Nicolas Poillot é editor de foto responsável pelos lançamentos de livros que o grupo faz.

Existe desde: 2012

Background: Em termos de moda, o grupo é autodidata, já que são todos formados em arte e design gráfico. Por mais de dez anos, o coletivo tem conduzido projetos autorais nos campos no campo da moda, da direção criativa e de publicações.

Estilo: “Nós acreditamos em um modelo de estúdio multidisciplinar, onde todas as áreas nas quais operamos estão constantemente se cruzando. Para as roupas, apesar de tecnicamente sermos uma marca masculina, temos a tendência de focar em uma silhueta internacional, que serve para homens ou mulheres. A estética das roupas vem de um streetwear contemporâneo e do casamento entre moda e arte.

Onde produz: Portugal e Itália.

No que acreditam: “Nós trabalhamos sob uma mentalidade de ‘autoverdade’. O que escolhemos produzir vem de dentro, e nosso desejo de criação e produção é um reflexo de quem somos e no que cremos. Nós também acreditamos em criar um lifestyle específico por meio de uma existência holística nas cidades em que moramos”.

etudes-studio.com

@etudesstudio

Veja na galeria abaixo imagens de cada uma das marcas.

* Matéria originalmente publicada na FFWMAG 41, já nas bancas


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