15.06.2020 / Moda / por

Isaac Silva fala sobre racismo, identidade brasileira na moda e seus sonhos

o estilista isaac silva fotografado remotamente
o estilista isaac silva fotografado remotamente

Conversei com Isaac Silva numa quinta-feira de manhã, entrando no quarto mês de quarentena e escalada do coronavírus no Brasil ao mesmo tempo em que acontecia a reabertura do comércio. Isaac estava em sua casa, no bairro de Santa Cecília em São Paulo acompanhado de sua gata Pina e rodeado por vasos de plantas. Ele também estava com uma rinite, causada pela ansiedade. Fora toda a questão de como sua marca tem sido impactada pela epidemia do novo coronavírus, ele também foi sensibilizado pelos recentes acontecimentos que atrelam a moda ao racismo e que estão nos mostrando que essa indústria ainda tem um longo caminho para percorrer no que diz respeito à justiça e igualdade racial e de gênero.

Mas bastou eu colocar a primeira pergunta para que ele deixasse momentaneamente suas preocupações de lado e, no lugar da feição preocupada, surge aquela luz que quem convive com Isaac já é familiarizado.

Conversamos por duas horas – com algumas interrupções dos gatos e crianças – sobre trabalho em tempos de pandemia, racismo e identidade brasileira na moda. 

Como você tem vivido e trabalhado em meio a pandemia?

Hoje tê em casa, trabalhando daqui. O comércio reabriu e estou nesse processo, pensando se abro a loja ou não. Vou esperar até a semana que vem. Ficamos muito vulneráveis com a falta de planejamento governamental. Morando em SP, tô morrendo de vergonha. A cidade tinha que ser um exemplo de como combater a pandemia. Estou decepcionado mesmo. É um caos político e de saúde pública. A periferia pegou corona por conta dos patrões que sujeitam as pessoas a irem trabalhar. Até quando as pessoas vão querer esses privilégios? O mesmo está acontecendo na moda. É muito importante que as pessoas que passaram por isso falem. Tem que ter alguém pra dizer: você tá fazendo algo errado, vamos mudar?

O que te deixa ansioso agora?

Principalmente a vida profissional. Saber o que vai acontecer com a marca, onde eu posso recorrer pra essa marca sobreviver. Manter ela viva, manter a produção no site que tá tendo venda. Eu dependo do correio pra fazer as entregas e tá demorando um pouco. Os correios não fizeram um plano pra quem vende online, de diminuir o valor, criar linha de financiamento pra pagar depois. Tive que falar com a imobiliária pra dizer que estamos numa pandemia, foi uma luta de dois meses pra conseguir uma negociação.

“Quando a gente combate o preconceito racial estamos combatendo todas as estruturas juntas, para mulheres, mulheres trans, para gays. “

 

Vamos falar sobre o que está acontecendo agora com os protestos anti-racistas pelo mundo e que teve reflexos por aqui. Esse levante da comunidade negra também acabou fazendo um levante na moda.

Sim, esse boom a partir do que aconteceu com o (George) Floyd e que rebate com um soco no estômago aqui no Brasil. Quando a gente combate o preconceito racial estamos combatendo todas as estruturas juntas, para mulheres, mulheres trans, para gays. Quando levantamos uma bandeira anti racista, levantamos todas as bandeiras. Eu ainda consigo tratar minha angustia, faço meus banhos, minhas orações e tento ser uma pessoa positiva.

Você concorda que existe um apartheid no Brasil?

Concordo. Salvador é um dos lugares mais gritantes onde existe esse apartheid. No começo do meu trabalho com a marca recebi uma proposta de uma feira de Salvador. Quando vi os expositores, eu ia ser o primeiro negro a expor no lugar. Tive o beneficio de estar em lugares onde eu era o única negro. Quando você vai a um restaurante e vê que é a única pessoa negra que pode consumir ali e que os outros estão em posição só de servir… As pessoas falam que não tem preconceito racial. Todos os dias temos que nos policiar e perguntar nas empresas. Temos que perguntar se a equipe dela é diversa. Na hora de contratar, é nítido que eles empregam um padrão.

Como você vê essa questão da moda relacionada ao racismo?

O ego do estilista inflama tanto que ele acha que vira Deus. Isso que eu nunca entendi. Eu me vejo muito nesses relatos que estamos ouvindo e a bandeira que eu tinha pra me defender era: eu não quero trabalhar mais aqui. Trabalhei no Bom Retiro, trabalhei em uma grande empresa que prestava serviço pra Carina Duek e Le Lis Blanc. Quando eu ia em reunião, as pessoas não esperavam chegar um negro. Queriam a bicha padrão ou a mulher branca. Eu tô adorando todas essas pessoas que estão contando como é o mercado da moda. O mercado (da moda) adoeceu muitas pessoas. Acredito que todo mundo vai sentar nessa mesa e vai ter que pensar. Reinaldo Lourenço e Gloria Coelho foram pro lado errado. Tem que ver o que vai acontecer, se eles vão ficar com vergonha do que fizeram ou se vão fingir que não aconteceu.

O que você acredita que vai resultar desse momento?

Neste momento estamos tendo a informação. O que vamos fazer com ela? A gente quer reparação histórica. Queremos comprometimento. Eu me comprometo a partir de hoje a trabalhar pelas mudanças necessárias. As grandes empresas podem ter um núcleo de diversidade e empregar essas pessoas. Mas a resposta está no consumidor final. 

“A mudança efetiva mesmo é não comprar de marcas que têm atitudes racistas e preconceituosas.”

 

Você vê o mercado disposto a mudança, a se comprometer a combater o racismo?

Nesse momento não. Tá na mídia ainda. Vai refletir no mercado quando as pessoas pararem de comprar. Aí sim vai impactar no mercado e começar a mudança. A mudança efetiva mesmo é não comprar de marcas que têm atitudes racistas e preconceituosas.

Em seu desfile de estreia no SPFW no ano passado você aprofundou ainda mais seu trabalho em torno das referências às religiões afro-brasileiras e à ancestralidade africana. Ao mesmo tempo a coleção era composta por peças muito usáveis, para as brasileiras da vida real, estética não muito comum nas passarelas que buscam por imagens mais conceituais.

Eu me intitulo um estilista comercial, mas com um DNA forte de conceito de marca. E o produto que gosto de fazer é comercial. Não faço grandes campanhas ou ações de marketing. O desfile é onde eu posso mostrar esse produto, que as pessoas podem comprar e usar. Admiro muito quem faz coleções conceituais, mas não consigo sobreviver assim, a marca acaba se endividando. Não tenho a intenção de ser o estilista do momento e acho que temos que respeitar quem está ali antes. Eu tô chegando agora e tenho muito a aprender. Quero chegar no nível da alfaiataria do Luiz Claudio (da Apartamento 03). Estou estudando pra isso, pra fazer essa alfaiataria de extrema qualidade. Eu respeito meu tempo pra não ficar louco e falir.

O desfile abriu com looks em crochê criados em colaboração com a modelo Samira Carvalho. Collabs se tornaram uma das mais fortes tendências na moda. Colaboração tem que sentido para você e seu trabalho?

A marca sempre foi colaborativa. Tenho uma rede de amigos que colaboram. A Samira Carvalho ia abrir o desfile e queria que ela usasse uma roupa produzida por ela também, com sua marca SamBento, que faz tricôs e crochês maravilhosos. 

O que as pessoas brancas não sabem sobre suas roupas que elas deveriam saber?

Que elas podem usar. As pessoas acham que é um tipo de apropriação cultural. Isso é algo que o racismo faz. Pessoas brancas têm que consumir produtos de afro empreendedores.

“Quantas marcas não se inspiraram em Maria Antonieta, Joana d’Arc? Não temos a nossa própria Joana d’Arc? E assim vamos perdendo nossa história.”

 

Muito se fala sobre uma identidade brasileira de moda. Críticos dizem que as marcas e designers olham muito para fora, para o que é feito principalmente na Europa, mas também temos estilistas muito originais. Como você vê essa questão da identidade na moda brasileira?

Ela tem que se olhar mais. As marcas querem tanto ter essa imagem eurocentrada que elas acabam até, economicamente, beneficiando a Europa. As equipes fazem viagens de pesquisa pra lá, paga por serviços de lá. Os europeus nunca vão dar mérito a moda brasileira enquanto acharem que somos uma cópia barata.  Gosto de dar o exemplo da moda italiana, que se nacionalizou. A moda é globalizada pra empresas grandes. O Brasil tem muito a aprender com a moda italiana. A parisiense é o grande lançador do sonho, Londres é a modernidade. Amei o dia que a rainha Elizabeth foi no desfile de um jovem estilista em Londres. É como se ela tivesse ido no evento da Santa Marcelina, ela sabe da representatividade disso, de ser nacional. A gente pode fazer um bom tecido, um bom couro, temos ótimos artistas e designers de estampas. Mas todos os grandes estilistas dizem que moda brasileira não existe porque moda é global. Como você quer fazer uma moda global se você não vende pro mundo? Minha marca não é global, é afrobrasileira. Me preocupo com as necessidades do corpo da minha cliente, as necessidades climáticas da minha cliente. Quantas marcas se inspiraram em Maria Antonieta, Joana d’Arc? Não temos a nossa própria Joana d’Arc? E assim vamos perdendo nossa história.

Em pesquisas que faço, vejo muitas marcas de estilistas negros trazerem uma forte identidade com referências africanas. É importante reverenciar as raízes e ao mesmo tempo construir uma linguagem própria?

Falo muito com os designers dentro do movimento negro. Chegou o momento da gente fazer estampas exclusivas. Os tecidos africanos que uso vêm de uma parceria com a Mama Nossa Cultura, uma senegalesa que mora no Brasil há 15 anos. Ela era refugiada e hoje é imigrante com documentação. Mas o que acontece é que os produtos acabam muito parecidos, então não tem uma identidade de marca. Hoje eu trabalho muito mais com a estampa exclusiva da minha marca e um pouco com tecidos africanos porque ele é um símbolo de resistência.

Em meio a tempos tão atribulados, de tanto sofrimento e incertezas sonhar com dias melhores nunca pareceu tão importante. Você tem sonhado com que?

Não podemos parar de sonhar. Sonho em desbravar o Brasil, que é lindo, e conhecer pessoas inspiradoras.

Você pensa no seu próximo desfile? Como você imagina que ele vai acontecer?

Quero que seja sonho, com energia boa, de dizer: estamos vivos e vai dar tudo certo.

Você pode compartilhar com a gente  vozes e talentos negros que você está admira?

Tem muita gente que o grande mercado não conhece.

Goya Lopes: tem um trabalho de arte e estamparia muito lindo;

Nadia Taquary: grande artista que faz coisas maravilhosas;

Neyzona: influenciadora maravilhosa;

Magá Moura: uma pessoa incrível. Fechou um desfile meu com uma imagem icônica;

Damata: maquiadora e empresária com grande conhecimento de pele, especialmente a negras. Ela tem uma linha chamada Damata MakeUp;

E as militantes Erika Malunguinho, Erika Hilton e Neon Cunha, grande ativista, mulher trans, maravilhosa.

>>Ouça o episódio 07 do podcast Fashion Weekly com Isaac Silva


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