João Ribeiro, stylist de Pabllo Vittar, fala ao FFW sobre sua profissão, desafios e criação de imagem

O stylist João França Ribeiro / Cortesia
O stylist João França Ribeiro / Cortesia

João França Ribeiro é o stylist de 24 anos que tem chamado atenção por seu trabalho com artistas como Pabllo Vittar e Jão. Nome da nova geração do styling nacional, antes de focar em seu trabalho solo, João foi assistente de profissionais como Paulo Martinez, Heleno Manoel e Marcell Maia. Foi com esses profissionais que o stylist teve a oportunidade de atuar em campanhas e editoriais em revistas vestindo atrizes como Taís Araujo e Bruna Marquezine.

João é criativo em quem temos prestado muita atenção, então resolvemos conversar com ele sobre o desafio de criar uma imagem para pessoas públicas em tempos de redes sociais, processo criativo, estética e responsabilidade que vem com a influência.

João para começar, conta um pouco de você? Onde nasceu? Onde mora atualmente. Qual foi a sua formação? Sempre quis trabalhar como stylist?

Sou o João França Ribeiro, stylist, tenho 24 anos e vivo na capital paulista há mais ou menos 10 anos. Com 14 anos eu saí de casa, da cidade de Lorena, no interior de São Paulo, para cursar ensino técnico de vestuário na UTFPR (Universidade Federal Tecnológica do Paraná). Eu nem sempre pensei que seria stylist, mas desde quando cheguei em São Paulo trabalhei com moda, fui convidado por uma amiga para fazer um editorial o que despertou uma vontade em mim de criar imagens. 

Como que começou o trabalho como stylist de celebridades? 

Conforme o tempo passou eu busquei conhecer o trabalho de outros stylists pela internet e conheci pessoas maravilhosas – foi assim que consegui meu primeiro emprego, minha primeira assistência. A partir daí comecei a trabalhar com revistas, publicidades, celebridades como Taís Araújo, Paolla Oliveira, Bruna Marquezine, Grazi Massafera e outras atrizes e modelos. Tive a oportunidade de trabalhar com grandes nomes do estilo como Heleno Manoel, Marcell Maia, Paulo Martinez que também contribuíram não só profissionalmente, mas também na minha paixão por criar projeções da imagem que as pessoas querem ter.

Daí tive o insight de trazer essa magia dos tapetes vermelhos de evento para o Brasil e trabalhar isso com meus clientes. Eu amo eventos de redcarpets e essa coisa das celebridades bem maquiadas, com cabelos lindos e looks incríveis.

Pabllo Vittar / Reprodução
Pabllo Vittar / Reprodução

Na sua opinião, o que mais é desafiador ao criar a imagem de uma pessoa pública, se compararmos com criar a imagem para uma marca?

É muito desafiador criar uma imagem para uma pessoa pública e é totalmente diferente do que criar pra revista, publicidade. Porque as pessoas têm sentimentos, vontades, gostos, humores, é preciso entender que pessoas se expressam/querem se expressar também por roupas. É preciso ter uma sintonia, eu preciso conhecer bem minha cliente.

Vestir celebridades é muito divertido, é interessante ver esse “quê” comercial ao vesti-las. Porque elas são vendedoras, são influenciadoras e referências para muitas pessoas. E é divertido ver quando o público reproduz uma ideia sua, é um sentimento de dever cumprido.

O mais desafiador ao comparar marca com uma pessoa é que além de vestir uma celeb, eu estou vestindo alguém com opiniões. Meu papel é sempre mostrar o novo, eu concílio meu gosto com os dos meus clientes com informações, pesquisas, referências, muitas opções de looks (risos).

Meu trabalho é tirar também as pessoas da caixinha para que elas sejam vistas pelo que elas são. Eu sempre quero que meus clientes se sintam bem, confortáveis e fiéis a si mesmos.

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“É desafiador criar uma imagem para uma pessoa pública e totalmente diferente do que criar pra revista, publicidade. Porque as pessoas têm sentimentos, vontades, gostos, humores, é preciso entender que pessoas se expressam/querem se expressar também por roupas”.

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Seu trabalho com a Pabllo é muito observado, criticado e analisado. Como funciona o processo criativo com ela? O dia a dia…

Sim, realmente meu trabalho com a Pabllo é muito observado, criticado, analisado. Mas eu acho que é preciso saber lidar com essa super exposição. No começo foi difícil, mas depois eu entendi que estava ao lado de uma pessoa com muitos fãs, seguidores e que essas pessoas vão criticar. Nem sempre essas críticas vão ser ruins, existem também críticas muito boas. O que me incomoda é o fato de que na internet as pessoas não medem o jeito que elas falam, é uma “terra sem dono” onde existem muitas ofensas. É preciso saber separar o que relevar.

É claro que ao vestir uma das maiores artistas do Brasil, eu também quero agradar os fãs, quero que eles olhem a artista que eles gostam e fiquem felizes. Mas eu também quero que eles entendam que meus clientes tem gostos, sentimentos e eu respeito isso, meu trabalho é deixar quem eu visto confortável e feliz.

Meu processo criativo com a Pabllo é muito livre, nós somos amigos, somos da mesma família praticamente, estamos juntos há cinco anos, tenho uma sintonia muito grande com ela. Temos as mesmas referências, compartilhamos gostos, posts, matérias… Nós tiramos muitas referências da internet, a gente surgiu dali, estamos sempre trocando figurinha.

Pabllo Vittar / Reprodução
Pabllo Vittar / Reprodução

Trabalhar com a Pabllo nesse sentido é fácil, porque eu já conheço os gostos dela, o que ela nunca usaria, qual cor, o que ela vai gostar… Nós nos respeitamos muito, então essa troca é muito prazerosa, nosso trabalho flui muito bem criativamente também porque somos íntimos.

É importante lembrar que as pessoas vão amar e odiar as coisas que você faz, mas também é importante as pessoas entenderem que é o trabalho de várias pessoas ali, que se a Pabllo vestiu tal peça foi porque ela quis, e é preciso respeitar o gosto dela e de qualquer outro cliente.

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“O que me incomoda é o fato de que na internet as pessoas não medem o jeito que elas falam, é uma “terra sem dono” onde existem muitas ofensas. É preciso saber separar o que relevar”.

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Emendando isso que você comentou, quais os maiores prazeres e os maiores desafios de estar por trás de um nome tão grande?

O maior prazer com certeza é o carinho dos fãs, o feedback positivo, é o que me deixa mais feliz. Uma matéria, um evento, um look, essa fase internacional antes da pandemia em que haviam trocas entre diferentes artistas, isso com certeza me dá um gás, o que me faz continuar e acreditar no meu trabalho.

Já os maiores desafios é estar inserido politicamente no Brasil, meus maiores clientes são LGBTQIA+ e precisamos nos desdobrar para sermos vistos. O que também me dá tesão, porque é a minha comunidade, são as pessoas que eu amo e convivo lutando por espaço, nós quebramos barreiras, nadamos contra a maré para um futuro mais justo.    

As pessoas discutem muito sobre padrões e problematizam muitas questões. Isso influencia na hora de você criar? Ao criar uma imagem, você também pensa sobre a sua responsabilidade como um criador que influencia pessoas? 

Eu acredito que ao falarmos sobre padrões, não padrões, temos que pensar muito. Mas especificamente no meu trabalho com a Pabllo, a gente sai do padrão. Afinal a Pabllo é um menino que performa como drag, não é uma mulher cis, então existem muitas questões que a gente deixa de fazer, de vestir, por exemplo, porque ela é uma drag – então sempre temos isso em mente.

Acredito que não só quem trabalha com celebridade, mas todos que trabalham com pessoas, especialmente na internet, precisam ter esse cuidado. Sempre gosto de lembrar o quão visado  meu trabalho é, lembrar que as pessoas estão ali me acompanhando, me vendo, e essas pessoas vão levar em consideração o que eu estou falando ou fazendo.

Tem também a questão que o nosso público é em sua maioria muito jovem, então me sinto muito responsável sobre isso. Sempre penso como, de que forma essas pessoas serão influenciadas, e sempre tento achar alternativas positivas para fazer isso. Ao criar uma imagem não quero que aquilo machuque ninguém, não quero que as pessoas se sintam desconfortáveis ao ver o que crio.

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“Acredito que não só quem trabalha com celebridade, mas todos que trabalham com pessoas, especialmente na internet, precisam ter cuidado. Sempre gosto de lembrar o quão visado  meu trabalho é, lembrar que as pessoas estão ali me acompanhando e essas pessoas vão levar em consideração o que estou falando ou fazendo”.

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Além da Pabllo, quais seus outros clientes hoje?

Além da Pabllo, hoje eu visto Chameleo, Jão, Alva e alguns outros artistas, mas fixo mesmo com a Pabllo, Chameleo e Jão.

João com Pabllo e Charlie CXC / Reprodução
João com Pabllo e Charli XCX / Reprodução

Sua estética é bem marcante, sempre muita cor, texturas, um quê de anime e outras referências pop. Como você define o estilo das imagens que cria?

Sim, minha estética é bem pessoal, tem muita cor, textura, anime, internet, como você disse. Eu crio muito a partir de pesquisas na internet, estou sempre de olho. Tiro muitas referências de lá, mas também minhas criações vem dos meus sentimentos, sonhos, filmes que vejo, músicas que ouço. É engraçado porque eu sempre quero passar algum sentimento com meus looks, sempre me pergunto: ‘o que você quer passar hoje?’. Por exemplo, para a Pabllo eu crio uma imagem de uma mulher forte, muito feminina, 100% sexy com o mood em que ela está no momento. Então para vestir qualquer cliente eu quero conhecer a personalidade, o jeito,  daí mostrar coisas novas, atuais, novos designers.

Estou sempre de olho na nova geração da moda, a gente precisa cada vez mais dessa galera que está ligada no mundo e que não é só mais uma marca. Enfim, eu acredito muito no colorido, mas também amo preto, amo trazer uma imagem sexy e forte nas minhas imagens.

E, para finalizar, o que você aconselharia para jovens que querem começar a trabalhar com styling?

Bem, primeiro é entender o que é a profissão. Para chegarmos a um lugar nós temos que trilhar um caminho, não acontece do nada. ‘Assistenciar’ é o primeiro passo e o mais importante; é a oportunidade que a gente tem para aprender. Minha profissão não é glamour todo tempo. Não é sobre esse lifestyle, mas sobre o que te leva até a ele. A prática é o que vai te levar a trocas maravilhosas. Acordar cedo, carregar mala, se dispor de domingo a domingo… tudo isso está no caminho. Obviamente acreditar, se esforçar, ter suas próprias referências, entender sua própria imagem e sempre lembrar que você está lidando com uma outra pessoa e que o gosto do seu cliente prevalece. No fim é muito prazeroso, mas também é árduo. É preciso pensar sempre no novo, novos artistas, designers e nunca esquecer o poder do coletivo, ensinar e aprender com o próximo para que no fim fique tudo maravilhoso. 


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