Moda e música: Luisa Sonza e Victor Miranda conversam com o FFW

ALGUMAS DAS IMAGENS DE MODA DE LUISA SONZA CRIADOS POR VICTOR MIRANDA
ALGUMAS DAS IMAGENS DE MODA DE LUISA SONZA CRIADOS POR VICTOR MIRANDA

Com uma determinação ímpar, Luisa Sonza se tornou rapidamente uma das maiores popstars brasileiras, integrando o círculo das principais artistas do pop nacional com apenas dois álbuns de estúdio, incluindo o sucesso absoluto DOCE 22, lançado em julho do ano passado. 

Em meio à críticas, polêmicas e muito sucesso, a vida de Luisa Sonza tem sido vivida sob uma lupa e olhos do público e até hoje ela ainda lida com críticos e haters, mas de forma mais saudável. De Barbie Girl e looks rosa, à ‘Boa Menina’ e finalmente ‘Puta, Vagabunda, Interesseira’ – como entoa na letra do sucesso Intere$$eira, de seu mais recente álbum – Luisa passou por diferentes fases em sua carreira, tanto musical quanto esteticamente, fruto do trabalho com o stylist Victor Miranda. Ele já está ao lado da cantora há 3 anos, desde o final de seu primeiro álbum. 

Victor Ferreira é brasiliense, formado em comunicação social pela UNB. Depois de se mudar para São Paulo, o stylist logo despontou no universo da moda e posteriormente da música iniciando em trabalhos com Mateus Carrilho – ainda na Banda Uó – e posteriormente com Pabllo Vittar, até quando se conectou à Luisa Sonza, como nos conta. 

Luisa Sonza e Victor Ferreira conversam com o FFW sobre o estilo da cantora, sua estética e como a dupla cria as eras musicais e a imagem da cantora, de acordo com seus álbuns e clipes. Confira: 

Luisa, em primeiro lugar, como você define seu estilo nos palcos e fora deles?

Luisa: Eu diria que eu tenho vários estilos, e eles variam muito de acordo com a Era que eu estou dentro e fora dos palcos. A forma como eu estou me sentindo reflete em todas as áreas da minha vida, na maneira que eu escrevo, na minha identidade visual… Então o que eu estou vestindo geralmente é um reflexo desses sentimentos ou do momento que eu estou vivendo. Essa é a maneira que eu encontrei para me expressar, e acontece tanto nos palcos como fora dele.

E quais são suas maiores inspirações nesse sentido?

Luisa: Eu não tenho uma inspiração específica, as minhas referências de moda são aquilo que eu vejo, gosto e me identifico no geral…

No início da sua carreira, ainda com styling do João, você tinha uma estética Barbie, Boa Menina, com mais rosa, e isso é um grande contraste para a estética do DOCE 22, como foi essa trajetória de estilo?

Luisa: A forma que eu me visto está totalmente conectada ao momento que estou vivendo,e as emoções que eu estou sentindo. Quando eu escrevi o DOCE 22, eu não estava em um momento bom, por conta de todo o hate e de tudo que eu estava enfrentando. E isso impactou também na forma que eu me vestia, eu não me sentia mais confortável usando aquelas roupas rosas e alegres, sendo que aquilo não refletia o meu interno. A identidade visual do álbum era reflexo da maneira do que eu estava sentindo. Mas foi uma era muito especial, que representava bem a Luísa naquele momento… Uma jovem de uma cidade pequena que estava começando a conhecer o mundo, que estava entrando no mercado da música, e que estava começando a aprender com os novos desafios.

Victor, quando foi que você começou a trabalhar com a Luisa?

Com a Luisa em específico, foi há quase 3 anos (em novembro). Ela estava fechando o ciclo do álbum Pandora e começando a ter um novo momento. Ela gostou do meu trabalho e resolveu me chamar, tivemos uma longa conversa de entendimento de vibe e começamos a trabalhar juntos no final de 2019. Aí começamos a encontrar o que era ela, que estava em um momento de se entender, entender suas referências e tudo mais. 

O stylist Victor Miranda
O stylist Victor Miranda

Antes você já trabalhava como personal stylist ou só com editoriais? 

Victor: Eu comecei no mercado editorial, meu primeiro trabalho com moda em São Paulo foi na Vogue. Fui assistente de outros stylists, ainda fazendo revista e quando eu tive uma oportunidade de vestir a Pabllo foi quando me entendi como stylist e não mais assistente e aí comecei a vestir as pessoas dentro do meio artístico, mais porque meus amigos eram músicos também. Daí comecei a conhecer as pessoas e acabei caindo em um lado que não tava planejando, mas que junta música e moda que são duas coisas que amo.

Não largo o lado editorial, gosto mais e ainda faço, mas meu foco atual é vestir pessoas mesmo.

Luisa como é o seu trabalho com o Victor para a decisão das peças, de como a moda vai refletir suas Eras e sua música?

Luisa: Nosso trabalho é muito em conjunto. Eu sempre converso com ele sobre como eu estou me sentindo, e em como eu quero guiar a minha carreira, trago itens que eu gostaria de tentar experimentar, e a partir disso o Victor vai me mostrando diversas ideias, e também apresentando o melhor caminho para fazer isso acontecer. A gente vai construindo isso juntos com muito significado. Às vezes nós trabalhamos para dar algum spoiler do que está por vir, outras nós tentamos intensificar por meio da moda a própria Era em si. Enfim, as decisões são feitas através de muitas conversas, muitas trocas de referências, e isso nós fazemos sempre juntos.

Qual o maior desafio de criar imagens para uma pessoa pública e física versus para editoriais e marcas?

Victor: Eu acho que a principal diferença é que você tá lidando com uma pessoa que tem uma bagagem, uma mensagem e que representa mais para muita gente. Além de ser algo mais público, é um olho maior sobre o seu trabalho. Qualquer coisa que a gente faz toma uma proporção grande mais rápido. E a pessoa gera identificação também, as vezes uma pessoa vai ver uma roupa em um editorial e na Luisa e vai se identificar mais com a Luisa e não com a da revista, que é uma imagem mais estetizada. Mas também de acessos, o mercado editorial acaba tendo um acesso maior à moda e arquivos de moda que nós, trabalhando vestindo pessoas e artistas. 

Nós também temos um planejamento maior de antes e depois, todo um trabalho de imagem.. tem diversos fatores! 

Luisa você se preocupa muito com a coesão estética das suas Eras musicais. Isso é bastante marcante, como nas divas pop dos anos 2000. A moda para você é uma forma de ajudar a contar essas narrativas dos álbuns, clipes e eras?

Luisa: Super! Eu uso a moda como um dos itens principais na construção das minhas eras. Ela é um complemento do álbum, porque é também através dela que eu reafirmo e transmito aquelas emoções que queria trazer para todas as músicas. Eu me inspiro muito nas divas do pop dos anos 2000, e sei a importância e o peso que a moda tem, ela muitas vezes se torna um marco na carreira do artista, e é isso que eu busco trazer também.

A Luisa é uma artista que entrega eras mais coesas esteticamente falando. Como é esse trabalho de criar essas Eras da música pop? 

Victor: Com a Luisa em específico é uma coisa que vem mais dela. Eu tinha essa vontade de fazer isso com alguém e a Luisa ama isso! Ela é mais fã de pop, de divas, ela engole tudo quanto é referência, ela sabe tudo o que está acontecendo e é super filhinha de Lady Gaga (risos). Ficamos horas trocando figurinhas sobre isso. Ela ama essas eras e ama contar essas histórias da vida dela. São coisas que a gente ama fazer e é isso: as gays adoram isso! Na época de Anaconda, as pessoas usavam mais as roupas da Luisa, as peças com recortes, todo mundo de preto, e isso é mais doido! A própria Luisa adora isso e se assusta, ela acha o máximo e eu falo: ‘é amor, você é uma diva pop’.

Como é o seu processo criativo com a Luisa?

Victor: Ela sempre vem com uma ideia do que ela tá sentindo, eu preciso entender o mood dela, o mood das músicas pra gente criar essas visuais ao longo da era. A gente senta com nosso time, não só de moda e a gente conversa sobre o álbum. Depois temos conversas mais íntimas para trocar mais sobre a estética em si!  

Ela traz as sensações, às vezes ela fala “ah essa música é algo me dá uma ideia de sufoco” e a gente traz isso visualmente pra narrativa, mas trocamos muitas referências para criar as histórias que a gente quer passar! A ideia de fazer ela só usar preto no DOCE 22 foi dela, por exemplo, e a gente foi trabalhando os diferentes tipos de referências e tons dentro desse universo. O Preto de Anaconda é mais diferente do preto de Fugitivos

Luisa, falando então mais sobre o DOCE 22, ele mostrou uma popstar que era queridinha do Brasil se revoltando e mostrando uma outra faceta, retomando o controle do seu corpo e da sua própria narrativa depois de tudo que aconteceu na sua vida pessoal. Você consegue traçar um paralelo disso, por exemplo com o comeback da Britney Spears pós 2007 com Womanizer? Um clipe também bastante sensual em que a Britney retoma o controle do seu corpo (que estava sendo escrutinizado na mídia)? 

Luisa: Eu amo a Britney! Ela com certeza é uma das minhas principais referências no cenário pop, e eu tenho ela como uma das minhas maiores inspirações. Sobre esse paralelo, eu consigo sim enxergar, e não só com a música Womanizer em si, mas também com tudo que ela passou. É claro que as nossas situações foram completamente diferentes, mas no fim do dia nós duas somos mulheres dentro desta indústria de entretenimento, em um mundo completamente machista e que persegue aquelas que vão contra os padrões impostos pela mídia e pela sociedade. 

E Victor quais são as diferenças de produzir para um clipe, para uma performance, ou para um editorial?

Victor: Tudo é mais pensado, o look de clipe é mais diferente de um look de show, ou de um programa ou de uma revista. No show a gente precisa focar na performance dela, flexibilidade, dança e acrescentar no que ela está cantando. Já no clipe tem que ser o mais bonito possível para contar aquela história, são coisas que as pessoas vão assimilar bem, tentar reproduzir em casa, então é importante criar imagens bastante icônicas. Já nos programas a gente adapta bastante para o público, família brasileira, jovens e também depende do que ela vai cantar. 

Luisa, de Balenciaga no Prêmio Multishow 2021
Luisa, de Balenciaga no Prêmio Multishow 2021

Tem alguma produção que você lembra que foi mais desafiadora?

Victor: Uma das mais difíceis, que ela tem trauma até hoje, é a do Avatar de Modo Turbo. É uma das roupas que eu mais amo, mas ela é toda de metal. É uma criação do Caio Vinicius, cheia de detalhes, e a Luisa é mais ansiosa com essas coisas, ela quer logo gravar, e a gente demorou uns 45 minutos só vestindo a roupa e foi tudo criado em menos de uma semana! Mas foi um dos resultados mais bonitos que temos até hoje. 

Teve um também que era uma peça custom que estava vindo de fora para a Luisa, mas a peça chegou e era muito feia (risos), ainda bem que a gente tinha um plano B e ficou ótimo. 

E o seu preferido?

Victor: Eu amo quando ela foi de Balenciaga pro Prêmio Multishow, trouxemos o vestido de Nova Iorque e foi também uma saga para trazer esse vestido. Amo mais os looks de Café da Manhã com a Ludmilla, também. 

Fiquei assustado também com o top de tênis e com a repercussão que isso tomou, foi tudo meio inesperado essa gravação do clipe de Sentadona. Mas um detalhe legal, que eu acho que nunca contamos, é que o top da Luisa e o top do balé são todos feitos de meias, com 80 meias costuradas, para combinar com o top de tênis. 

Victor qual conselho você daria para um stylist que quer entrar nesse mercado?

Victor: A primeira etapa é ser cara de pau, falar com as pessoas, se mostrar disponível e não pular etapas. Acho que faz mais sentido aprender todas as etapas para chegar no lugar que você quer chegar, aprender, ouvir e entender todo o processo e funcionamento. 

E sair e fazer amigos! Se você quer trabalhar com moda em São Paulo, vá em festas, conheça as pessoas, alguém vai trabalhar com moda e no fim você ganha um amigo e quem sabe uma oferta de trabalho (risos).

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