23.09.2020 / Moda / por

O Estado Atual da Moda, 6 Meses Depois: Isaac Silva

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Este conteúdo é parte da serie de entrevistas “O Estado da Moda, 6 Meses Depois”. Durante o mês de setembro vamos conversar com os personagens da moda brasileira (diretores criativos, estilistas, criadores de imagem, empresários) para entender a visão de cada um sobre o momento atual e sobre o futuro da moda, seu passado recente e o que funciona e o que não funciona mais. Que essas conversas possam apontar caminhos.

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Tudo o que o estilista Isaac Silva faz parece envolver muito afeto. Sua delicadeza torna seu discurso ainda mais poderoso e eficaz ao defender a representatividade dos negros na moda. Com essa missão ele estreou no SPFW em 2019 com um dos desfiles mais celebrados da edição N48. Falamos com ele por email para refletir sobre os últimos seis meses.

 

Quando a pandemia começou, em março…

Estávamos finalizando a coleção que seria apresentada na SPFW de abril e voltando de uma viagem de pesquisa, já com todo gás para lançamento e uma divulgação bem grande, parcerias e collabs para acontecer e com planos da abertura de duas lojas colaborativas, uma no Rio de Janeiro e outra em Salvador mais eventos como exposição de fotos e ações aos domingos na loja, uma plataforma ensino também sobre cultura de moda e design afro brasileiro e dos primeiros povos do Brasil.

Muitos planos que tivemos que reorganizar para se adaptar ao momento de pandemia.

O que mudou nesses 6 meses

Mudou tudo! A forma de viver, de lidar com um momento tão delicado. Mudou o pensamento de sobreviver tanto como pessoa física, jurídica, economicamente falando.  Ainda estamos em pandemia vivendo uma quarentena mais folgada, eu sempre trabalhei durante a pandemia pois não tive como ficar direto em casa e escolhi morar ao lado do ateliê e loja para pode estar trabalhando e não ter que demitir a equipe que está junto comigo e suprir o desejo de compra dos clientes mostrando que a marca está além da roupa. Retomar as atividades agora é lidar com essa folga de quarentena, comércio, maior número de pessoas circulando…se adaptando ainda. Fui uma das primeiras lojas a fechar mas continuei trabalhando e a equipe ficou em casa 18 dias. Retomamos as atividades de maneira cautelosa, com alternância de dias, de horário, higiene e o distanciamento rigoroso. Como tenho uma equipe pequena fizemos esse acordo para tentar manter a saúde física e mental de casa e trabalho. Temos a sorte de morarmos próximos de onde trabalhamos, sempre tomamos café juntos e isso não acontecia mais, os abraços, apertos de mãos. Fica o distanciamento, mas como amamos o que fazemos entrou na linha de produção as máscaras para doação, a produção de algumas peças de roupas, as camisetas com a frase do Acredite no seu Axé junto com a jaqueta que com a venda está fazendo a marca sobreviver estes 6 meses, com a equipe sadia e os clientes felizes. A loja também virou ponto de arrecadação de alimentos, distribuímos muitas cestas e palavras de carinho e afeto.

Sobre pensar em desistir ou mudar completamente tudo

Nunca pensei em mudar ou desistir, sempre penso em como lidar e viver nesse momento sem se desesperar e refletir sobre o que somos e o que podemos fazer.

“Tenho planejado muito mais, tenho mais cautela em tudo que faço, ainda mais sendo uma marca pequena tenho uma fragilidade grande. E mantendo a crença no axé!”

Sobre os impactos das questões raciais, socioambientais e socioculturais mais urgentes 

Falar e fazer já é algo que faço na minha vida e na marca há muito tempo. Fico feliz por que essa consciência chegando em mais pessoas a pandemia está nos fazendo tornar mais humanos, em todos os meios de comunicação se fala sobre. Quanto mais informação chegar às pessoas mais elas terão senso crítico e argumentos para colocar em prática. Eu já criava e crio com base sobre questões raciais, ambientais e humanitárias.   Crio e faço roupas que refletem sobre.

Sobre os planos de curto prazo

Trabalhando, tentando viver. Uma grande amiga, Juliana Borges, diz que somos os sonhos dos nossos ancestrais. Nós, pessoas afros indígenas brasileiras estamos vivos por conta dos ancestrais que aqui viveram e estamos aqui tornando real o que eles plantaram.

Estou fazendo tudo sem pressão como sempre fiz, porém com mais cautela. Por conta do distanciamento social e por estamos em pandemia me adaptei ao momento. O plano é acreditar que vai dar certo, e que o distanciamento e a quarentena mesmo folgada é a maneira de amenizar o momento. Tenho planejado muito mais, tenho mais cautela em tudo que faço, ainda mais sendo uma marca pequena tenho uma fragilidade grande. E mantendo a crença no axé!

Como você vê futuro da criação de moda? 

A moda sendo mais humanitária. Vejo a diversidade como o modo de viver. E a tecnologia presente em todas áreas da moda, desde a parte da agricultura, do plantio do algodão e da criação do fio, às tecnologias têxteis de roupas anti bactérias, roupas que precisam de menos lavagens e que são adaptáveis, como apresentar as coleções e vender com as ferramentas digitais. Esse é o futuro da moda.


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