28.09.2020 / Moda / por

O Estado da Moda, 6 Meses Depois: Cris Barros

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Este conteúdo é parte da serie de entrevistas “O Estado da Moda, 6 Meses Depois”. Durante o mês de setembro vamos conversar com os personagens da moda brasileira (diretores criativos, estilistas, criadores de imagem, empresários) para entender a visão de cada um sobre o momento atual e sobre o futuro da moda, seu passado recente e o que funciona e o que não funciona mais. Que essas conversas possam apontar caminhos.

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A estilista Cris Barros fundou em 2002 a marca que leva o seu nome e desde então imprimiu uma assinatura de estilo que é reconhecida pela contemporaneidade e feminilidade. Atualmente a marca faz parte do portifólio do grupo Soma, que tem as marcas Animale e Farm.

 

Quando a pandemia começou, em março…

Tínhamos acabado de lançar o primeiro capítulo da coleção AW20 em fevereiro, nunca imaginamos passar por isso. Em nosso calendário tinham todos os lançamentos programados para as próximas semanas, fomos nos adaptando e aprendendo novos hábitos e ritmos de comunicação com o nosso publico.

O que mudou nesses 6 meses

O momento que estamos vivendo nos fez repensar a nossa filosofia de vida com um todo. União, paciência, perseverança, doçura, gratidão, leveza, espontaneidade, simplicidade, fé – aproveitamos esses últimos meses para nos lembrar das coisas que realmente importam procurando ainda mais sentido e significado em tudo que criamos como marca.

Em paralelo, o digital cresceu muito. É surpreendente como muita coisa evoluiu em tão pouco tempo, como marcas que não tinham a opção de e-commerce, por exemplo, sentiram a necessidade e a obrigação da inovação. Então nós fomos nos adaptando da melhor forma possível, felizmente já estávamos muito estruturados para conseguirmos operar online, trabalhamos muito com atendimentos por whatsapp e temos feito um atendimento online ainda mais personalizado para as nossas clientes. Quando se fala de luxo, pode ser difícil sem ter a ajuda da experiência off-line, na loja, mas conseguimos super bem a evolução. Tem sido uma curva de aprendizado incrível para todo time.

Sobre pensar em desistir ou mudar completamente tudo

Não, pelo contrário. Eu fiquei ainda mais próxima das minhas equipes para repensar o nosso dia a dia, a marca se adaptou com o novo formato do mercado e acredito que conseguimos sair ainda mais criativos deste momento.

“A cada coleção temos mais peças sustentáveis, desenvolvidas com processos de criação e matérias ecológicas, estudamos sempre novas formas de fazer recycling e upcycling com os tecidos dos nossos arquivos por exemplo.”

Sobre os impactos das questões raciais, socioambientais e socioculturais mais urgentes 

A CRIS BARROS sempre teve muito cuidado com essas questões, acreditamos que estamos em um momento onde a moda tem que ser muito mais inclusiva, os trabalhadores respeitados e que o meio ambiente seja uma das partes mais importante desse processo. Durante a quarentena, foi muito rico e bonito ver tantas marcas e pessoas se sensibilizando e apoiando de diversas formas quem mais precisa, inclusive ajudando outras marcas pequenas e outras comunidades. É um tempo difícil e complicado, mas por um lado é inspirador ver esse lado tão humano e necessário na moda. Hoje em dia, um dos meus focos mais importantes é justamente o engajamento social da marca: é uma parceria de longa data que começou através do trabalho com a Teçume, marca social que a Casa do Rio idealizou para mulheres artesãs maravilhosas da região do Careiro, no Amazonas. Unida às mulheres apoiadas pelo projeto, nos já desenvolvemos co-criações de peças exclusivas como bolsa, sapato, pulseiras e tiara com renda revertida para a instituição reforçando a parceria a cada ano. Em novembro passado, até viajamos para a sede da ONG na Amazônia para trocarmos entre nós e nos engajarmos ainda mais. Foi incrível poder apoiar não somente financeiramente um projeto que nós acreditamos, mas também sair do nosso cotidiano para entender de perto as problemáticas e pensarmos juntas em ações que realmente vão fazer a diferença. A ideia é divulgá-las cada vez mais, capacitá-las e levar outras marcas para trabalhar com elas, ajudando a criar esta ponte para estimular esse trabalho gerando uma cadeia de produção.

Na urgência do cenário atual em que iniciativas para ajudar são ainda mais importantes para a comunidade, nós conseguimos viabilizar uma outra forma de apoiar antecipando a venda de algumas das peças da coleção revertendo 100% do lucro para a Casa do Rio. A primeira ação que fizemos com o nosso moletom sustentável feito com algodão cultivado colorido, esgotou em quatro horas! Foi muito emocionante ver o quanto as pessoas estão engajadas em ajudar em causas com tanta verdade. Recomeçamos com outras peças muito especiais da nossa coleção e a doação feita desde o início da pandemia até agora já possibilitou à Casa do Rio a compra de 8 toneladas de alimentos e outros recursos que foram distribuídos para três comunidades. Manter esse apoio durante momentos mais difíceis, é primordial!


Sobre os planos de curto prazo

A moda tem mostrado que é um reflexo do que acontece na sociedade e no mundo, e vem se adaptando a estes novos tempos. Assim acontece na CRIS BARROS. Não paramos em nenhum momento, continuei com o meu processo criativo de casa, reuniões, treinamentos e mesmo testando um novo formato de live de pré-venda online que deu super certo! Aos poucos vamos voltando, priorizando sempre o distanciamento social e a segurança das pessoas.

Como você vê o futuro da criação de moda?

Como falei, acredito que depois deste momento que estamos vivendo, terá um movimento natural de um consumo mais consciente e isso já faz parte do DNA da marca. As pessoas estão cada vez mais procurando produtos com significado. A cada coleção temos mais peças sustentáveis, desenvolvidas com processos de criação e matérias ecológicas, estudamos sempre novas formas de fazer recycling e upcycling com os tecidos dos nossos arquivos por exemplo. Então, espero que todos procurem formas mais sustentáveis para criar e vamos tentar enxergar tudo da forma mais positiva possível, aprendendo com a situação e ao mesmo tempo repensar sempre a nossa noção do coletivo. 

 

 


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