03.09.2020 / Moda / por

O Estado da Moda, 6 Meses Depois: Paulo Borges, da SPFW

paulo borges em seu refúgio fotografado pelo seu filho Henrique Borges
paulo borges em seu refúgio fotografado pelo seu filho Henrique Borges

Desde março, há exatos seis meses desde a oficialização da pandemia, estamos em uma espécie de suspensão. Para marcar esse período tão emblemático em que o mundo parou, inauguramos neste mês a serie de entrevistas “O Estado da Moda, 6 Meses Depois” onde vamos conversar com os personagens da moda brasileira (diretores criativos, estilistas, criadores de imagem, empresários) para entender a visão de cada um sobre o momento atual e sobre o futuro da moda, seu passado recente e o que funciona e o que não funciona mais. Que essas conversas possam apontar caminhos.

Na estreia da serie conversamos por email com Paulo Borges, fundador e diretor criativo da São Paulo Fashion Week, evento seminal da moda nacional que nasceu em 1996 e que celebraria seus 25 anos em duas edições presenciais do evento neste ano. A edição de abril (N49) foi totalmente cancelada e a edição do segundo semestre (N50) acaba de ser confirmada em formato essencialmente digital, com conteúdos inéditos e históricos devido a perspectiva ainda incerta de solução para o quadro de emergência sanitária. A prioridade da decisão foi a segurança das pessoas.

Em que momento você e o SPFW se encontravam no início da pandemia?

Estávamos exatamente na reta final de preparação da edição N49 que seria em abril (a quarentena no Estado de São Paulo foi decretada pelo governador João Doria no dia 22.03). Fizemos um grande planejamento, com estudos de mercado, novos caminhos. Nestes 25 anos de SPFW sempre procuramos trazer para a discussão questões para nós consideradas fundamentais para a construção e consolidação do mercado de moda criativo. Apresentamos um plano anual, um formato amplo, um grande Festival de Criatividade. Convidamos Marcelo Dantas para a curadoria do que chamamos de Ocupações Artísticas – encontros entre pensamentos de moda com diversas áreas criativas. Seminários, interatividade, abertura e acesso a diversas manifestações e núcleos criativos. Enfim, estávamos com o ano todo já desenhado e pensado.

O que mudou nesses 6 meses entre o fechamento, quarentena e retomada das atividades? 

Nesses 6 meses começamos a ouvir muito. Desde o momento em que comunicamos o cancelamento total da edição N49, por entender naquele momento que ninguém sabia ao certo a dimensão em que tudo isto se encontrava. Nosso pensamento imediato foram as pessoas. Cancelar era a única resposta. A partir deste momento abriu se um canal de escuta muito importante, que na verdade foi construído ao longo destes mais de 30 anos de trabalho. Muitas conversas, muitas questões e temas desde fluxo dos negócios, soluções compartilhadas , futuro de curto prazo, modelo de negócio, novas oportunidades para cada negócio.

Muita coisa aconteceu nesse período. De crise econômica à crises de identidade, diversidade, racialidade. E esse canal de escuta só foi crescendo, o que nos fez ampliar muito nossa vontade e necessidade de entender cada processo. O momento de cada um, as questões, propósitos. 

Não paramos na verdade um só dia desde então. Trabalhando de forma remota, cada um na sua casa, desde o dia 15 de março, e utilizando os canais e ferramentas digitais para todas estas conversas, que às vezes eram duas ou três pessoas, e às vezes chegava a mais de 50 pessoas. Devo dizer que neste sentido, houve um grande ganho de  comunicação e integração.

As discussões sociais em torno do racismo, apropriação cultural, o impacto sócio-ambiental da moda foram assuntos que ficaram mais urgentes durante a pandemia. Qual o impacto de tudo isso no que você faz?

Desde o princípio já na primeira edição em 96, criar um ambiente de transformação criativa considerando a diversidade, a inclusão, a sustentabilidade, as relações sociais e de impactos econômicos, o protagonismo de uma cadeia produtiva muito rica no país, mas totalmente sem protagonismo seria um projeto de longo prazo. Uma percepção clara do tamanho do desafio e do tempo que levaria.

“Sempre falamos em pelo menos 30 anos, para poder criar esse ambiente e deixar um legado efetivo de transformação. “

Somos conectores de toda uma cadeia produtiva, criativa e econômica. Nosso papel será sempre propor e assegurar que estas conquistas estejam cada vez mais presentes no desenvolvimento.

 

O que você tem feito para dar continuidade em suas atividades e quais são os planos a curto prazo?

Continuamos diariamente no papel de escuta e conexão. Pensando e propondo caminhos que sejam seguros do ponto vista humano, afetivo e colaborativo, assegurando o desenvolvimento do setor criativo da moda no país. Isto se dá pela força e verdade da história construída, das parceiras públicas e privadas neste fomento, e na capacidade de resiliência de todos os envolvidos.

Digo desde sempre que entrei na moda por causa das pessoas. Talvez este seja o momento mais importante para cuidar e transformar.


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