29.09.2020 / Moda / por

O Estado da Moda, 6 Meses Depois: Rafaella Caniello, da Neriage

Rafaella Caniello / Cortesia
Rafaella Caniello / Cortesia

Este conteúdo é parte da serie de entrevistas “O Estado da Moda, 6 Meses Depois”. Durante o mês de setembro vamos conversar com os personagens da moda brasileira (diretores criativos, estilistas, criadores de imagem, empresários) para entender a visão de cada um sobre o momento atual e sobre o futuro da moda, seu passado recente e o que funciona e o que não funciona mais. Que essas conversas possam apontar caminhos.

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A estilista Rafaella Caniello fundou em 2017 a Neriage como uma evolução do projeto de conclusão de curso na faculdade Santa Marcelina.  Sua marca é conhecida ela construção de roupas femininas, contemporênas e atemporais. A Neriage faz parte do calendário do SPFW.

Quando a pandemia começou, em março…

A gente estava num crescimento orgânico ótimo. Nunca tive grandes investimentos pra fazer, tudo aqui é muito feito na raça e a venda de uma coleção é o dinheiro que uso pra fazer a próxima. Tudo depende da venda de uma coleção. Eu tinha acabado de abrir o ateliê e nossa coleção nova chegou em março, então você imagina… Já tinha umas quatro multimarcas novas comprando com a gente e lembro da gente falar: “2020 vai ser o nosso ano!”. A pandemia veio poucos dias depois que lancei a coleção. Fiquei com um prejuízo enorme, estoque grande. Foi um baque pra gente, estávamos com muitos planos.

O que mudou nesses 6 meses?

O que mudou nesses meses é que fiquei trabalhando sozinha. Foi retomar minha empresa pra mim. Comecei a entender muito melhor o todo da minha empresa porque fiquei cuidando de tudo, o que nao é ruim porque comecei a ver tudo o que fazia errado e o que podia melhorar, entender que tipo de pessoa preciso ter ao meu lado. Cheguei num ponto que perguntava se eu acabava ou não com a Neriage.

Sobre pensar em desistir ou mudar completamente tudo:

Teve de tudo isso. A gente depende de uma coleção pra fazer a outra. A minha vida é isso. Pra mim não é uma coleção, é um capítulo da minha história. Acredito na atemporalidade das minhas roupas, para mim não existe coleção passada. A questão é como manter esse fluxo. No começo me sentia muito mal sem nem vontade de trabalhar com moda. Hoje estamos mais animadas e procuro pensar que diferença eu faço com o que eu faço.

“A venda de uma coleção é o dinheiro que uso pra fazer a próxima. Eu tinha acabado de abrir o ateliê e nossa coleção nova chegou em março. Já tinha umas quatro multimacas novas comprando a marca e lembro da gente falar: “2020 vai ser o nosso ano!”

Sobre os impactos das questões raciais, socioambientais e socioculturais mais urgentes 

Na verdade, todas essas questões sempre foram pilares no pensamento da criação e produção das minhas roupas. Acho que tem um lado bom de eu ter criado a Neriage a partir do meu trabalho de conclusão de curso, que é o pensamento mais como um projeto do que como um negócio em si. E esse projeto visa primeiramente o impacto e a mudança, o lugar que ocupa na sociedade e a história que está construindo.
Acho que todo criador deve se preocupar com o espaço que está ocupando e com a voz que ele tem. E usar isso para além do benefício próprio, levando algo para as outras pessoas e dando visibilidade para causas urgentes da sociedade. Constantemente me questiono e me cerco de profissionais que também se questionam como podemos melhorar e mostrar como nosso ofício pode e deve fazer parte de um movimento de mudança – e como a moda não é sinônimo de superficialidade, mas da união de histórias e pessoas, muitas pessoas que fazem parte desse processo.

Sobre os planos de curto prazo:

Continuo minhas atividades com uma nova equipe. Vamos particiar do SPFW digital em formato de video com uma equipe maravilhosa de parceiros. Entre outubro e novembro vamos lançar uma coleção cápsula com peças pensadas para o dia a dia e para o momento em que a gente está. Vamos trabalhar mais a identidade da Neriage sobre outros produtos.

Como você vê futuro da criação de moda?

Vejo o propósito. Tenho observado muitas grandes marcas e veículos e o que mais sinto falta é quando não tem propósito. Quando ela é transparente e fiel ao seu propósito, esse é o futuro. Você não dizer uma coisa e fazer outra, não pregar uma coisa por marketing. Os profissionais que eu mais admiro são aqueles que defendem os seus propósitos. Meu projeto pros próximso tempos é trabalhar com cada vez mais transparência ao mostrar o que eu faço e por que eu faço.

 


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