O Estado da Moda, 6 Meses Depois: Weider Silveiro

Weider Silveiro / Cortesia
Weider Silveiro / Cortesia

Este conteúdo é parte da série de entrevistas “O Estado da Moda, 6 Meses Depois”. Durante o mês de setembro vamos conversar com os personagens da moda brasileira (diretores criativos, estilistas, criadores de imagem, empresários) para entender a visão de cada um sobre o momento atual e sobre o futuro da moda, seu passado recente e o que funciona e o que não funciona mais. Que essas conversas possam apontar caminhos.

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O estilista Weider Silveiro fundou sua marca em 2002 com o propósito de preencher uma lacuna existente no mercado de moda nacional no segmento de feminino jovem e, desde então, vem apresentando coleções sazonais onde tem como principal característica a junção de design contemporâneo com matéria prima experimental, sempre privilegiando o artesanato. Silveiro integra o line-up da Casa de Criadores e faz parte do coletivo Célula Preta.

Quando a pandemia começou, em março…

No início da pandemia eu estava trabalhando no meu verão 2020 e a idéia era fazer uma coleção muito suntuosa. Idéia logo abortada pelo contexto que vivíamos naquele momento

O que mudou nesses 6 meses?

Tudo mudou nesse meio tempo. Mudou inclusive a forma como vejo a legislação trabalhista no Brasil! Cheguei a conclusão que, ao contrário do que se acredita, o trabalhador não tem segurança nenhuma! Eu tenho quatro colaboradores há 10 anos, eles não têm carteira assinada, ganham por projetos, que graças a Deus são constantes e rendem mais que um salário, caso eles ganhassem assim. Contudo, com o advento da pandemia esses projetos foram interrompidos, o que me deixou muito preocupado, mas também com algo muito claro na minha cabeça: essas pessoas não poderiam ser prejudicadas. E assim foi, conseguí pagá las 70 % do que elas recebiam por mês. Para isso, sacrifiquei meus rendimentos. Reduzí gastos pessoais, o que sinceramente não foi muito difícil por conta do isolamento. Porém vi muitos calaboradores clt de outras empresas totalmente abandonados. Por isso falo que mudei meu ponto de vista sobre isso.

Mudou também a minha ideia de sucesso, de ser bem sucedido na profissão. Pra mim essas questões se relacionam muito mais com poder cuidar dos outros do que propriamente com resultado de vendas. Se você pode parar por algum tempo pra proteger o outro, você é bem sucedido. Quanto a estrutura operacional da empresa, ela voltou a funcionar há 35 dias com apenas 40% da capacidade. Antes disso estava totalmente parada no que diz respeito a execução de peças.

Sobre pensar em desistir ou mudar completamente tudo:

Nunca pensei em abandonar a moda, nem imagino. Não saberia fazer outra coisa, sou apaixonado por ela, e olha que posso falar que às vezes ela foi bem madrasta comigo, ainda é rsrsrs. Trabalho com moda desde os 16 anos. Além de ter minha marca, presto consultoria pra confecções e pra indústria têxtil.

Sobre os impactos das questões raciais, socioambientais e socioculturais mais urgentes 

Acho que todas essas questões já eram urgentes, creio que a pandemia, num primeiro momento, só nos deixou mais sensíveis. Por consciência e empatia tudo isso já norteava o meu trabalho há algum tempo. Sou negro, gay e nordestino, descriminação sempre foi algo muito comum pra mim e estou num mercado de brancos ricos e, de preferência, magros e sulistas há 20 anos. Isso sempre foi uma reflexão pra mim, então posso dizer que, talvez nesse momento eu esteja mais notado e, claro, mais cobrado sobre esses temas, contudo sempre fiz um exercício de inclusão dessas minorias na minha marca, seja na passarela, no staff e até como elemento inspiracional.

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“Espero que no futuro a moda dê espaço às minorias que ela negligenciou até aqui. Acho que a moda está tendo uma nova chance de voltar a ser relevante com esses movimentos. Essa ideia de algo inacessível não dialoga com o agora”.

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Sobre os planos de curto prazo:

Nesse momento estou trabalhando na minha apresentação da próxima edição da Casa de Criadores. Tenho feito isso de forma responsável e sem me afobar. Creio que o momento é de profunda reflexão e de cuidado com o outro. Num primeiro momento pensei em pular a edição, mas senti que se passasse mais tempo sem os meus laboratórios de imagem eu não ficaria bem – explico, o isolamento mexeu muito com o meu psicológico. Moro só no edifício Esther, na praça da República. Aqui deu pra visualizar a pandemia mais que em qualquer outro lugar, seja pelo fechamento de estabelecimentos que geralmente funcionavam 24 horas por dia, seja pela tristeza do abandono social das pessoas em situação de rua que se aglomeram nessa região. E pra não entrar nessa vibe resolvi criar, me exercitar, de certa forma só, ainda.

A curto e médio prazo penso em ampliar minhas vendas, já pensei numa loja física também. Hoje atendo sob medida e quero democratizar minha roupa. Tenho um convite pra vender em Londres, o que pra mim é um sonho, pois gosto da relação dos ingleses com a moda.

Como você vê futuro da criação de moda?

Espero que no futuro a moda dê espaço às minorias que ela negligenciou até aqui. Acho que a moda está tendo uma nova chance de voltar a ser relevante com esses movimentos. Esse ideal branco, magro e burguês não fala mais com o mundo. Essa ideia de algo inacessível não dialoga com o agora. A criação precisa ser, antes de tudo, verdadeira, parte da essência do criador. Mas sem esse individualismo narcisista. A criação tem e deve ser coletiva. Os designers precisam trocar referências entre si e com profissionais de outras áreas. Pra que a coisa tenha uma relevância maior.


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