O que estaria por trás da saída da Bottega Veneta das redes sociais

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Foi com surpresa que o mercado recebeu a novidade de que a Bottega Veneta, uma das marcas mais faladas da atualidade, apagou suas contas no Instagram, Twitter e Facebook sem dar maiores explicações. E foi exatamente nas redes que o assunto ganhou espaço e o perfil dos principais veículos e fãs de moda que se puseram a debater o que teria feito a marca tomar essa atitude exatamente no momento em que parece impossível qualquer um de nós existir fora do ambiente digital das redes sociais.

O ano de 2020 foi marcado pela acelerada digitalização dos negócios e uma grande transformação em como os designers e marcas passariam a mostrar suas novas criações. Os desfiles digitais se tornaram a realidade da moda e até mesmo daquelas que sempre se recusaram por anos a trocar a experiência presencial e exclusiva de um desfile físico e fechado para convidados pela sua transmissão aberta ao alcance de qualquer pessoa com acesso a internet em qualquer canto do mundo.

Por outro lado, o ritmo de criação e disseminação de conteúdo ditado pelos algoritmos das plataformas sociais para alcançar engajamento e resultados vai na contramão do que sempre pregou o mercado de luxo, colocando seus times de design sob um ritmo quase industrial de criação de novas coleções, drops semanais, colaborações com outras marcas para alimentar esse sistema frenético de novidades no nosso feed. Um padrão que força os criativos a criar obras pouco inspiradoras e se desconectar do que realmente faz essas marcas e seus produtos especiais.

O estilista da Bottega, Daniel Lee já havia revelado à jornalista Nicole Phelps em dezembro que ele não é era fã dos desfiles digitais na ocasião da apresentação que ele promoveu em outubro e sob embargo só foi revelada no final do ano. Num formato que lembrava os desfiles dos primórdios da Alta Costura, a marca revelou sua nova coleção para pouco mais de 30 nomes da imprensa de moda e alguns clientes VIPs, em Londres. “Eu acredito que a força do que nós fazemos está no produto e realmente focada nos objetos físicos que nós fazemos” disse Lee à jornalista da Vogue online indicando com esse movimento de apagão nas redes que talvez o novo luxo seja se desconectar e se focar em viver a vida real e tridimensional, onde o toque, o abraço, as conversas ao vivo possam nos reconectar ao que realmente importa.

“Foi um pouco como voltar pra trás e pensar em como os desfiles de moda começaram. Essa ideia de desfile de salão. Parecia extremamente íntimo e muito mais pessoal.” Daniel Lee

Não deveríamos reagir com tanta surpresa, se considerarmos que Daniel Lee foi discípulo da estilista Phoebe Philo na Céline, também avessa ao excesso de exposição digital, e sob o comando dela a marca se quer tinha loja online ou era vendida em marketplaces. A única forma de consumir uma peça da Céline era indo a uma das lojas da marca e vivenciar a experiência ao vivo ao ter contato com a arquitetura do espaço, poder tocar cada peça e sentir a textura, o toque e a qualidade do tecido usado em cada produto.

kylie jenner com vestido bottega venta by daniel lee
kylie jenner com vestido bottega veneta by daniel lee

Logicamente essa decisão não parece ter sido tomada de forma arbitrária ou não racional. Segundo o relatório de varejo da consultoria Mark Holgate, a Bottega Veneta foi citada por sete de 10 varejistas entre suas marcas mais vendidas.

Daniel Lee tornou suas criações para a Bottega Veneta tão desejadas que já não precisa fazer grande esforço para converter vendas, deixando seus fãs e clientes fazerem o boca boca digital por ela. Só no Instagram a #bottegaveneta já tem quase dois milhões de citações e ao menos três perfis de fãs da marca, que somam quase 500 mil seguidores e promovem diariamente tudo o que a Bottega lança e o que influenciadores postam usando em suas redes. Quem de nós passou imune a algum post do modelo Puddle, aquelas botas com solado chunck em várias cores estridentes ou do vestido vermelho coberto de paetês e costas nuas usado (e postado) por Kylie Jenner no Natal das Kardashians?

Resta saber se esse apagão se trata de apenas uma estratégia de marketing do momento ou uma decisão definitiva que poderia até mesmo influenciar outros designers e marcas a fazerem o mesmo, indicando outros caminhos menos dependentes das plataformas digitais e seus algorítmos para criar novas conexões com seu público.


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