29.04.2019 / Moda / por

Ponto Firme: projeto de Gustavo Silvestre volta a emocionar com coleção criada por reeducandos do sistema penitenciário

Projeto Ponto Firme / Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite
Projeto Ponto Firme / Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

Por Guilherme Meneghetti

Um minuto de silêncio em memória ao modelo Tales Cotta fora feito antes do desfile do Projeto Ponto Firme, capitaneado pelo estilista Gustavo Silvestre, como vinha acontecendo nos desfiles pós-Ocksa, no último dia de SPFW N47. A comoção fulgurava sala adentro. Uma carga de emoção um tanto pesarosa precedia a apresentação de um projeto tão lindo e emocionante como o Ponto Firme. Essa é a segunda vez que o projeto desfila na semana de moda – a primeira foi na 45ª edição. Trata-se de uma iniciativa de Silvestre vigente desde 2015, em que técnicas artesanais, como crochê, são usadas como ferramenta de educação para reeducandos da Penitenciária Adriano Marrey, em Guarulhos.

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Segundo Silvestre, esta coleção, diferente da primeira, foi também construída por detentos em liberdade. Foram cinco, frente a apenas um na temporada anterior, juntamente com 27 alunos do regime fechado e mais um grupo de crocheteiros voluntários – o trabalho a múltiplas mãos fez os 39 looks ficarem prontos em apenas três meses. “O projeto está ganhando essa extensão, de quando os meninos saem, que é o momento mais delicado da ressocialização, os 100 primeiros dias de liberdade”, conta ele horas antes do desfile. “Os índices de reincidência no crime chegam a 75%, então um em cada quatro ex-detentos volta pro crime nesses 100 primeiros dias”.

Daí vem o tema da coleção: oportunidade, ideia que os próprios alunos tiveram. “A gente tem que entender a falta de oportunidade que esses caras tiveram. Como é esse caminho para chegar até o cárcere? O que que faltou? Essa coleção fala disso, de como isso vai construindo um caminho para a criminalidade, para o cárcere, e como a gente tem que criar oportunidades a partir daí”. O tema foi aplicado no próprio processo de construção da coleção. Cada aluno teve a liberdade de mostrar o melhor do seu trabalho. “Eles me perguntavam: ’Professor, que cor eu uso?’. ‘Essa é a oportunidade de você mostrar que cor usar!’. Eu fui provocando isso o tempo inteiro, para eles mostrarem o que têm de melhor. A coleção foi criada com essa liberdade, sem amarra nenhuma, super solta, cada peça tem sua história”.

Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite
Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

John Barros entra com o primeiro look: jaqueta e calça jeans doadas pela Levi’s – todos os jeans da coleção foram doados pela marca – com um máxi cachecol de tricô e acabamento com franjas. Na parte de trás da jaqueta, franjas vermelhas aplicadas de braço a braço e intervenções de crochê, como mostra a imagem que abra esta matéria, o que deixou a peça bastante interessante – algo que se estendeu ao longo da coleção, numa tentativa de quebrar a imagem “crochê da vovó”. Falas da deputada Érica Malunguinho, do ator Lázaro Ramos e do rapper Mano Brow, entre outros, ecoam – e arrepiam – na trilha sonora.

Variadas técnicas de crochê e tricô foram vistas em capas, vestidos, calças, tops e saias multicoloridas. Os fios vieram da parceira Círculo. O destaque fica por conta das franjas, que pontuaram toda a coleção, incluindo as bolsas, esbanjando movimento. “Ser humano”, “Não esquece de mim” e “União para todos” liam-se em camisas jeans, calças e moletons, resultado do projeto Estamparia Social, de um ex-presidiário que só emprega egressos do sistema penitenciário. Nos pés, os calçados oferecidos pela Melissa. De repente, um modelo entra com um vestido de patchwork de crochê sobreposto ao moletom que tem franjas aplicadas no capuz, este que tampa seu rosto. No meio da passarela, ele o revela. Era o rapper Edgar, que teve um momento no meio do desfile soltar sua rima. “Vocês querem nos civilizar, ao invés de humanizar. Parem de matar o nosso povo, parem de prender o nosso povo”.

Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite
Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

Ao final do show, Silvestre aparece para agradecer ao lado de Anderson Figueiredo, em liberdade há dois anos e participante do projeto desde 2015. No camarim, Figueiredo estava mais tranquilo dessa vez, pois não precisou desfilar, como na temporada anterior. “Estou mantendo a minha vida através do crochê”, diz. “Hoje só vim apreciar!”. Silvestre diz que outro aluno, por conta do projeto, conseguiu tirar sua carta para ser motorista. Para além da participação no SPFW, as peças produzidas por eles já foram usadas por Anitta e Pabllo Vittar.

Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite
Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

Como pôde se ouvir na trilha do desfile, a voz da filósofa Djamila Ribeiro provocava em alto e bom som: “Pensa o que você pode fazer pra mudar essa realidade em vez de achar que o problema é meu de te trazer essa verdade. Lide com isso porque essa é a realidade. Muitas vezes você sequer tem o conhecimento de que vive numa bolha privilegiada. Você precisa conhecer essa realidade pra te afetar e fazer perceber”.

Em breve, a coleção estará à venda na multimarcas de produtos que seguem a agenda da sustentabilidade Bemglô, de Glória Pires, que abrirá as portas em breve em São Paulo. A renda será revertida para os alunos participantes do projeto.


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