Oscar 2021: prêmio de melhor figurino tem disputa entre trabalhos marcantes

croquis da figurinista Trish Summerville para Mank
croquis da figurinista Trish Summerville para Mank

Por Luiz Henrique Costa

Em uma disputa acirrada pela estatueta de Melhor Figurino no Oscar 2021, figurinistas experientes reafirmam a importância do desenvolvimento de um figurino bem construído para a narrativa e o sucesso de um filme. Destacamos aqui cada um deles e o trabalho dos figurinistas em cada um dos indicados ao Oscar, que acontecerá no domingo, dia 25.04.

A VOZ SUPREMA DO BLUES

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Quem assina o figurino é a lenda viva de Hollywood: Ann Roth. 

Aos 89 anos, Ann segue na ativa e cada vez mais minuciosa no seu trabalho de pesquisa, reconstrução de época e é uma profissional altamente versátil. Ela já assinou figurinos de filmes tão distantes entre si que vão desde comédias clássicas como “A Gaiola das Loucas” à “O Paciente Inglês”, pelo qual ganhou um Oscar em 1997.

Em “A voz suprema do Blues” ela recria a imagem da exuberante cantora vivida por Viola Davis, a lendária Ma Rainey, literalmente carregada de joias até nos dentes de ouro, muita maquiagem, estola de pele e peruca. Ela usa vestidos retos em veludo, se joga nos brilhos, bordados, plumas, franjas. O filme se passa em 1927 e o estilo cabaré de Ma a ajudou a difundir o Blues em um país ainda segregado.

Enfrentando uma onda de forte calor em Chicago, cidade que Ma parece detestar, acompanhamos a Mãe do Blues suada e trancada em um estúdio de gravação em dia interminável. Ela é uma mulher de meia idade, negra, assumidamente lésbica, chegando do estado da Georgia em uma cidade onde os conflitos raciais seguem latentes – Em 1919 um jovem negro, Eugene Willians, foi apedrejado e se afogou tentando chegar a nado na praia considerada exclusiva de brancos. 

foto: an roth e divulgação netflix.
foto: Ann Roth e divulgação Netflix.

Ann Roth compreende com muita sensibilidade o sentido do Blues como muito mais que um estilo de música visceral marcado pela sequência de 12 compassos e que influenciou fortemente outros estilos como o rock, o jazz e o country. Ele nasceu entoado nas vozes dos escravos nos campos do Mississipi em uma combinação única que evocava canções de raiz africanas misturadas ao folk, hinos europeus e canções de trabalho que falavam sobre a dura rotina no plantio e colheita, as chagas da opressão, da exploração e do racismo. Esses fatores tornam o Blues um canto de sofrimento que nasceu através de vozes que muitos quiseram calar, mas que resistiram e se tornaram o símbolo do retrato de uma época. Para compreender o Blues é preciso sentir intensamente a alma que compõe a sua estrutura e por esse motivo, além da estrondosa atuação de Viola Davis, o figurino funciona para expressar a força e a personalidade que certamente ajudaram a atriz na composição da personagem. “Normalmente Ma Rainey e sua aparência têm sido muito estereotipadas na história do cinema e na vida. A mulher negra é sempre morena, gorda, engraçada, pode cantar e realmente não é sexualizada de qualquer maneira que seja perigosa. Mas mulheres gostam disso.”disse Roth ao site Fashionista.

Conclui-se com muito estilo o figurino dos componentes da banda, de modo particular o trompetista vivido pelo personagem de Chadwick Boseman usando um terno bem cortado e colorido, misturando estampas com detalhes de listras ao clássico xadrez. 

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Quem assina o figurino do live-action da heroína empoderada é a alemã Bina Daigeler, que já trabalhou com Pedro Almodóvar em filmes importantes como ‘Tudo Sobre Minha Mãe’ e ‘Volver’ e em alguns episódios da série ‘Narcos’, que foi muito bem recebida pelo público brasileiro.

Em ‘Mulan’, a figurinista resgata peças tradicionais da indumentária da cultura chinesa e se preocupa em inserir poucos itens de fantasia que se conectam com o imaginário criado pela animação da Disney de 1998. Vale contextualizar que Hua Mulan foi uma guerreira lendária que se voluntariou para lutar no lugar do pai, um senhor idoso e doente, na guerra contra a invasão de um grupo nômade na China do século IV. Ela precisou se passar por homem para então ser aceita na batalha onde lutou por dez anos consecutivos. Existem controvérsias sobre Mulan ter de fato existido ou não, mas a sua lenda é muito respeitada e serve de inspiração para quebras de tabu importantes até os dias de hoje. 

As cores tem um papel muito importante na cultura popular chinesa e carregam diversos simbolismos e por isso Bina capricha nos tons de vermelho que surgem com bastante frequência e representam a boa sorte, a prosperidade e a felicidade.

Merece destaque o trabalho de cabelo e maquiagem assinados por Denise Kum, que enriquece com precisão os visuais por vezes intencionalmente decorativos e que representam o status dos personagens dentro na sociedade chinesa. Os cabelos ornamentais e a maquiagem em tons primários como azul, amarelo e branco, que além de possuírem significados próprios, também funcionam como uma sutil homenagem às cores usadas nos primeiros personagens criados por Walt Disney. 

MANK

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Trish Summerville encarou um desafio duplo em Mank: A) Retratar a era de ouro de Hollywood, onde reinavam absolutas as grandes divas do cinema em looks glamorosíssimos e que desempenhavam sobretudo o papel de escapismo para o período nebuloso do entre guerras e do pós crash da Bolsa de NYC em 1929. B) Trabalhar com todos os riscos e as limitações que um filme gravado diretamente em preto e branco pode oferecer. Embora o resultado seja um visual lindo, o trabalho sem cores exige esforço redobrado para que tecidos e texturas sejam percebidos em detalhes. 

A figurinista parece ter agradado o exigente diretor David Fincher, com quem já trabalhou em “Garota Exemplar” e aqui ela reproduz a alfaiataria clássica usada para os personagens masculinos, como do protagonista Gary Oldman e brinca com todas as possibilidades do luxo e opulência que a personagem de Amanda Seyfried exige. 

Recordista nas indicações ao prêmio, o filme é um ode aos entusiastas dos bastidores de “Cidadão Kane” e das grandes musas do cinema antigo. Em vários momentos a execução de figurino e maquiagem, especialmente na personagem de Amanda, é tão convincente que quase nos esquecemos da atriz, voando através do tempo e recordando das inesquecíveis Fay Wray, Jean Harlow e Marlene Dietrich deslumbrantes com suas estolas, sobrancelhas arqueadas e piteiras na mão quase cem antes. 

EMMA

Johnny Flynn e Anya Taylor-Joy. foto: Autumm De Wilde
Johnny Flynn e Anya Taylor-Joy. foto: Autumm De Wilde

A figurinista de “Emma” é um Ás dos filmes de época: a britânica Alexandra Byrne já foi indicadas cinco vezes e venceu o prêmio merecidamente em 2008 por “Elizabeth: a Era de ouro”, que fala sobre o turbulento ano de 1585 em que a rainha da Inglaterra enfrenta um poderoso inimigo na Espanha após vinte anos no trono da Monarquia. 

Em seu novo trabalho ao lado da diretora Autumn De Wilde, Alexandra revisita o clássico livro homônimo escrito por Jane Austen no século XIX, em que a própria autora do livro descreveu sua protagonista como uma personagem difícil de gostar. Inteligente, articulada, rica e nada interessada em casamento, Emma lembra muito outra personagem que Anya Taylor-Joy viveu recentemente, a jogadora de xadrez profissional em “O Gambito da Rainha” e vem se consolidando como uma das grandes revelações do momento. 

A figurinista rejeita convenções mais conservadoras que se espera de um trabalho de época como as saias em formato de trombeta, espartilhos rígidos. Alexandra aposta em cores vibrantes, ousadas, reforçando a personalidade livre e a frente do seu tempo na silhueta de Emma, mas mantendo um olhar preciso e técnico através do uso de chapéus, luvas, lenços e na joalheria. A figurinista domina bem esse território e possui um vasto conhecimento dos acervos de museus. O resultado é trabalho sutil, divertido e muito interessante. Uma forte candidata. 

PINÓQUIO

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Esqueça o boneco de madeira que sonha em virar menino do desenho da Disney de 1940. Na versão cinematográfica de Matteo Garrone, nome por trás do excelente “Gomorra” o diretor resgata o clássico original da literatura italiana “Le aventure di Pinocchio”, escrito por Carlo Collodi em 1881 e a criação do figurino se baseia nas ilustrações feitas por Enrico Mazzanti, logo após o lançamento do livro. Trata-se de uma representação mais sombria, tal como o texto original, e que serviram como base para o figurinista Massimo Cantini Parrin construir a imagem dos personagens, usando roupas originais do próprio acervo dos séculos 18 e 19.  Vale destacar o trabalho impecável da maquiagem na texturização de madeira rústica do pequeno mentiroso e os cenários assustadores em um contexto realista da pobreza na região da Toscana no período em que o livro-base foi escrito.  

figurino de Geppetto por Massimo Cantini Parrini
figurino de Geppetto por Massimo Cantini Parrini

 


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