05.08.2020 / Moda / por

REIF ACT NON: projeto social e colaborativo reúne Telfar, Estileras e Yves Tumor

Enquanto se via quarentenado no Brasil por causa do coronavírus, o português Marcelo Alcaide, que vive entre Lisboa, Berlim e Paris começou a pensar de que forma poderia criar algo que pudesse ter um impacto positivo e gerar renda para alguns setores da cadeia de moda local gravemente afetada pela pandemia. Foi daí que teve a ideia para criar o “Reif Act Non”, projeto colaborativo que envolve uma serie de artistas nacionais e internacionais, entre eles Telfar Clemens, Estileras, AVAF e Yves Tumor entre outros nomes da cena criativa não-mainstream.

Marcelo, que já realizou outros projeto ligados à arte e à cena noturna, volta agora a se ligar à moda num projeto de upcyling onde roupas de doação foram recriadas por esses artistas e costuradas por 3 costureiras de São Paulo que receberão parte da renda da venda de cada peça. A transparência no processo é outro pilar importante do projeto e 40% das vendas serão doadas à Casa Branca, FOIRN – Nós Cuidamos – Rio Negro, Casa 1 e Projeto Existimos para ajudá-los a distribuir ajuda à populações carentes em algumas das regiões mais afetadas de São Paulo e da região do Amazonas.

Marcelo conversou conosco por email e contou sobre sua relação com o Brasil, como o projeto aconteceu e o que ele pretende alcançar com a ação.

Você é português, morou em Paris e Berlim e passou uma temporada em SP. O que te atraiu na cidade?

Sou português e parte da minha família estava aqui no Brasil ou parte tinha vivido aqui, então a influência da cultura brasileira sempre foi bem presente no meu crescimento. Eu olho para o Brasil como o espelho do mundo – para o melhor e para o pior. Se o mundo tivesse que ser representado num país seria o Brasil. Exuberante mas também bem dark. Como um amigo meu se refere – o perfeito ‘tropigoth’.

E São Paulo é isso mesmo. Extremamente inspiradora. A cada visita, fico mais ‘preso’. O nível de conexão cognitiva e espiritual que presenciei com experiencias pessoais e interpessoais são dispares de qualquer outro lugar. Vivemos um momento bastante difícil atualmente – e daí a habilidade de reinvenção e criação que São Paulo tem é muito interessante. Sem quaisquer romantismos aqui, o tempo é realmente de ação sem quaisquer atos de silêncio e complacência.

O que a cena criativa e de moda de São Paulo tem singular comparadas as cenas das capitais européias?

Como me referi antes, São Paulo é muito particular. Centro da América Latina, sua mistura complexa, sua poesia. A sua capacidade de reinvenção, híbrida.

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Entre os criadores colaboradores do projeto estão nomes como Telfar Clemens, Estileias, Yves Tumor, Vava Dudu. Como tem sido esse trabalho de criar com tantas pessoas de lugares e backgrounds diferentes?

Tem sido extremamente gratificante na real trabalhar com estas produtoras – a Celina, a Rose e Beatriz e perceber o efeito que o re-criar estas peças através do input distante desses diferentes colaboradores. De como desconstruir as peças e refaze-las aplicando diferentes técnicas. O resultado final é o estímulo e a desmistificação em vários níveis criados dá força para continuarmos.

O projeto tem um viés político-social desde sua proposta até mesmo na escolha dos colaboradores. Muitos deles tem sido vozes importantes além de suas áreas. Qual o papel da moda nesse contexto?

Só pelo fato de serem participantes no projeto já tem que partilhar dessa necessidade de expressão política e de pensar fora da sua comunidade também. Todos os artistas participantes tem uma prática e uma voz ativa de mudança, de empoderamento, não só para suas comunidades mais adjacentes. Todos partilhamos essa visão e todos tem interesse pelo que se passa aqui em São Paulo, na região amazônica, no Brasil como um todo. Sejamos sinceros que mais do que tudo estamos num experimento, que a intenção é que isso cresça e que sirva de exemplo. Que o projeto seja executado em outros locais com outras comunidades e intuitos.

O papel da moda aqui tem a ver com o papel democrático que a moda tem ou pode ter. O upcycling tem sido algo muito falado e praticado nos mais diversos núcleos da moda internacional como sabemos. Mas a verdadeira essência desses projetos ficam um pouco aquém. A relação entre produtor, designer e causa não e tão estreita, não há uma elucidação comum.

O reaproveitamento de roupas doadas juntamente com uma curadoria de artistas e designers criando uma conversa sobre diversas temáticas e fazendo uma coleção acessível, parece me ser uma boa resposta e reflexão que todos parte desta indústria, mas não só, precisamos fazer. Até mesmo pela quantidade que produzimos, os tópicos que abordamos.

Participantes como os ECOCORE que criaram a estampa VACCINE, a apropriação do logo da Amazon pelos T/ESTEMONY, o print DEPORTED ou os grafismos do Assume Vivid Astro Focus & Fabio Kawallys tentam mais uma vez usar peças de roupa como alertas do momento. É importante, ao meu ver, expandir esta discussão para além daqueles que tem uma situação privilegiada. A Reif nao é uma marca mas sim quer oferecer à marcas essa plataforma participativa.

A transparência em relação a composição do preço das peças parece ser um dos pilares do projeto. Como isso vai se dar?

Queremos que a transparência impere na divisão dos nossos lucros – 30% produção, 30 % comunicação e logística e 40% para a causa social via doação. Todos os produtos serão devidamente taggeados com a informação do projecto e do seu processo, assim como quem os produziu e a causa que receberá parte da sua venda.

Um dos principais pontos é que o projeto seja acessível a uma audiência mais ampla. Daí nos juntamos também a Cartel 011 que ofereceu desde o início a sua plataforma online  para vendermos os produtos e torná-los também acessível a seu público.

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O primeiro drop das peças chega hoje ao e-commerce da Cartel 011. Abaixo a programação completa dos drops e criadores.

Drop 1 – semana 3-9 de Agosto: Non, AVAF & T/Estemony com Amazonas

Drop 2 – semana 10-16 de Agosto: Eccore c/ Vaccine, Vivão Project & Fabio Kawallys Fort

Drop 3 – semana 17-23 de Agosto: Vava Dudu, Estileras & Telfar

Drop 4 – semana 24-31 de Agosto: Yves Tumor, Yolanda Zobel, Marcelo Alcaide & Hydra


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