28.04.2020 / Moda / por

Saint Laurent sai da semana de moda de Paris para seguir seu próprio calendário

Desfile da Saint Laurent na Torre Eiffel / Reprodução
Desfile da Saint Laurent na Torre Eiffel / Reprodução

Enquanto marcas e organizações decidem os próximos passos das semanas de moda para este ano, a Saint Laurent saiu na frente anunciou ontem que se retiraria do calendário oficial de desfiles de Paris para apresentar suas novas coleções em seu próprio ritmo. Pelo menos em 2020.

“Consciente das circunstâncias atuais e de suas ondas de mudanças radicais, a Saint Laurent decidiu assumir o controle de seu ritmo e reformular sua programação”, diz um comunicado postado no Instagram da marca. “Agora, mais do que nunca, a marca liderará seu próprio ritmo, legitimando o valor do tempo e se conectando com as pessoas globalmente, aproximando-se delas em seus próprios espaços e vidas”.

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A Saint Laurent então vai deixar o calendário feminino e não desfilará junto com todas as outras marcas em setembro (se é que os desfiles acontecerão), já que o masculino já acontecia de forma independente, como os desfiles que fez em Nova York e em Malibu. “A SL não apresentará suas coleções em nenhum dos horários pré-estabelecidos de 2020 e se apropriará de seu calendário e lançará suas coleções seguindo um plano concebido com uma perspectiva atualizada, impulsionada pela criatividade”.

Francesca Bellettini e Anthony Vaccarello / Reprodução
Francesca Bellettini e Anthony Vaccarello / Reprodução

É a primeira grande marca a anunciar uma mudança no cronograma de desfiles desde o início da pandemia, mas outras grifes já vinham dando sinais de cansaço com o ritmo e timing do calendário de desfiles e lançamentos, como Alexander Wang que adotou uma estratégia semelhante no início de 2018.

Isso significa que uma das marcas mais históricas da França e do mundo escolheu o caminho solo num mercado conhecido pela união entre seus pares e num momento delicado, em que justamente a união se faz mais necessária do que nunca. Ao mesmo tempo, a notícia também revela a urgência de uma mudança do sistema da moda, algo que muitas grifes sentem a necessidade, mas poucas de fato podem tomar essa decisão e seguir sozinhas. “Sabemos há anos que algo precisa mudar. A hora é agora. Não há boas razões para seguir um calendário desenvolvido anos atrás, quando tudo era completamente diferente. Não quero apressar uma coleção apenas porque há um prazo. Nesta temporada, quero apresentar uma coleção quando eu estiver pronta para mostrá-la”, diz o diretor criativo Anthony Vaccarello em uma entrevista ao WWD acompanhado pela CEO Francesca Bellettini.

 

“Não quero apressar uma coleção apenas porque há um prazo. Nesta temporada, quero apresentar uma coleção quando eu estiver pronto para mostrá-la”, Anthony Vaccarello

 

Juntos, eles indicam que é uma mudança a princípio para este ano, como uma resposta emergencial ao impacto do Covid-19. Mas também falam que é uma transformação que há muito precisava ser feita, então é possível que a marca se mantenha independente do calendário da indústria mesmo após essa fase passar. “Por natureza, somos uma marca ousadamente decisiva, onde a criatividade desempenha o papel central. Nessas circunstâncias, é claro para nós que a criatividade não pode ser forçada a seguir um cronograma arbitrário e predefinido, mas deve ser livre para se expressar na forma, no local e no tempo que Anthony achar apropriado”, diz Francesca.

A CEO da Saint Laurent vem a ser também presidente da Chambre Syndicale de la Mode Féminine e sua decisão pode ter um impacto não apenas na confederação, mas também nas outras marcas que fazem parte dela. “O anúncio de que não realizaremos eventos em 2020 de acordo com o calendário habitual não diminui de maneira alguma o papel ou a importância da semana de moda de Paris, que é, simplesmente, a melhor do mundo. Paris é onde todo designer aspira desfilar”, diz Francesca. “Não é um adeus à PFW, mas uma mudança que sentimos ser necessária neste momento e nessas circunstâncias excepcionais. Na federação, somos muito unidos, respeitosos e abertos um ao outro. Comuniquei antecipadamente nossa decisão a Ralph Toledano [presidente da Federação da Alta Costura e à Moda] e Pascal Morand [presidente executivo da federação], que a respeitaram totalmente”.Francesca Bellettini e Anthony Vaccarello / Reprodução

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É fato que o isolamento social tem trazido muitas reflexões à tona sobre o sistema e acelerado decisões e mudanças. Aqui no Brasil um novo acordo da indústria surgiu, com foco numa sutil adaptação das datas do varejo que podem alavancar uma melhor performance comercial das marcas. Na Inglaterra, o British Fashion Council anunciou que sua próxima London Fashion Week, agendada para junho e tradicionalmente focada em moda masculina, será totalmente digital e neutra em termos de gênero e, para o futuro, as marcas poderão escolher se apresentarão as coleções de primavera/verão em junho ou setembro.

“Desacelerar e viver o momento revela todas as vulnerabilidades de uma organização encarcerada. O que está fora de moda agora é a programação de todo o sistema: os shows, os showrooms, os pedidos”, diz Vaccarello, que quer incentivar uma atitude mais duradoura e menos efêmera em relação a experiências e produtos.


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