24.07.2017 / Moda / por

Tim Walker reinventa Alice no País das Maravilhas com casting 100% negro para o Calendário Pirelli 2018

Tim Walker fotografando Djimon Hounson, King Owusu, Alpha Dia, Ru Paul, Wilson Oryema, Adut Akech e Duckie Thot ©Alessandro Scotti/Reprodução
Tim Walker fotografando Djimon Hounson, King Owusu, Alpha Dia, Ru Paul, Wilson Oryema, Adut Akech e Duckie Thot ©Alessandro Scotti/Reprodução

As fotos dos bastidores do novo calendário da Pirelli, o anuário mais famoso do mundo, acabam de ser divulgadas. Para 2018, o ensaio fotografado por Tim Walker, tão conhecido pela dramaticidade lúdica de seus registros, foi inspirado no universo de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, e conta com styling de Edward Enninful, editor-chefe da Vogue britânica. A ideia do fotógrafo foi explorar noções de beleza no que concerne à representatividade de personagens ficcionais icônicos.

“A história de Alice foi contada tantas vezes e de tantas formas, mas sempre com um casting branco”, disse Walker em entrevista ao The New York Times. “Como fotógrafo, você nunca quer fazer algo que já foi feito, por isso foi importante sentir que eu estava fazendo algo completamente diferente. Nunca houve uma Alice negra, então quis instigar como personagens ficcionais podem ser representados, além de explorar a evolução de ideias de beleza – não se trata de tendências, trata-se, hoje, do zeitgeist”, continua, referindo-se ao casting escolhido a dedo por Piergiorgio Del Moro, diretor de casting que integrou, ano passado, a lista do BoF que elege os 500 nomes mais importantes da moda.

Segundo Walker, essa era uma vontade antiga e, quando a equipe da Pirelli o procurou, foi a oportunidade perfeita para executá-la – de quebra, a gigante italiana de pneus deu total liberdade para o fotógrafo contar a história exatamente do seu jeito. Aqui, Alice é personificada pela modelo sul-sudanesa radicada na Austrália Duckie Thot, que, aos 21 anos (tendo sua carreira internacional há menos de um), está vivendo o seu próprio conto de fadas. “Estou orgulhosa em fazer parte de algo que transmite uma mensagem tão importante sobre orgulho e auto expressão”, ela entrega.

 

 

Ao seu lado, estão os atores Lupita Nyong’o representando Arganaz, a irreverente Ru-Paul como Rainha de Copas, Djimon Hounson como Rei de Copas, Whoopi Goldberg como Duquesa e Sasha Lane como Coelho Branco; os modelos Thando Hopa como Rainha Branca, Naomi Campbell como soldada da Rainha de Copas, Adwoa Aboah (fundadora da Gurls Talk) como Tweedledee, Slick Woods como Chapeleiro Maluco, Wilson Oryema (o artista queridinho de Grace Wales Bonner) como Sete de Copas e Alpha Dia como Cinco de Copas; o ilustrador King Owusu como Dois de Copas; a stylist Zoe Bedeaux como Lagarta; além dos rappers Lil Yatchy personificando o Guarda da Rainha de Copas e Sean Combs (P. Diddy), ao lado de Campbell, também como soldado da rainha.

O calendário, que já teve uma edição com casting 100% negro em 1987, nunca foi vendido. Item de colecionador, cada edição é enviada com exclusividade para pessoas influentes (celebridades, políticos, formadores de opinião, etc.), além de clientes e distribuidores especiais da Pirelli. Desde seu surgimento, em 1964 (com um hiato de 1974 a 1984), foi uma publicação que celebrava a beleza das mulheres (geralmente supermodelos) sob olhar sexual, ao serem retratadas quase sempre semi ou completamente nuas.

Entretanto, há dois anos, a celebração vem sendo outra: em 2016, Annie Leibovitz fotografou personalidades femininas que são relevantes em diversas áreas de atuação (pense em Yoko Ono, Patti Smith e Serena Williams); já para este ano, atrizes como Nicole Kidman, Julianne Moore e Helen Mirren foram registradas, todas vestidas e sem maquiagem, por Peter Lindebergh.

Duckie Thot ©Alessandro Scotti/Reprodução
Duckie Thot ©Alessandro Scotti/Reprodução

“Quando eu era mais nova, não tive um modelo sequer que se parecesse comigo, que poderia ter sido uma fonte de inspiração ou motivação”, divide a sul-africana Thando Hopa, modelo albina que também atua como advogada e, por quatro anos, foi promotora especializada em casos de abuso sexual em seu país natal. “Qualquer garota – não importa se negra, branca, asiática ou indiana – deve ter a noção de que também pode ser uma heroína em seu próprio conto de fadas”, arremata. O desejo de Hopa para quando o calendário ficar pronto, é que as pessoas possam enxergar a intenção que há por trás disso tudo, uma vez que a ideia deste trabalho foi promover sobretudo a união.

Enninful, por sua vez, acredita que a discussão vai muito além da cor da pele, tendo a inclusão que será promovida como um dos principais pontos de toda a questão. “É sobre todos os credos, todas as cores, todos os tamanhos e pessoas vivendo sua própria verdade”, diz ele. O stylist acredita que, ainda que virtualmente, é importante dar voz às pessoas nessa nova geração, que sempre procuram respostas às questões que lhes interessam. “Dado o estado do mundo em que vivemos hoje, às vezes acho que todos nós nos sentimos como se tivéssemos caído no buraco do coelho”.


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