08.10.2020 / Moda / por

Verão 2021: entre o conto de fadas e o apocalipse, marcas driblam as limitações do presente em suas coleções

Rick Owens, Maison Margiela, Balenciaga e Olivier Theyskens / Reprodução
Rick Owens, Maison Margiela, Balenciaga e Olivier Theyskens / Reprodução

Por Vinicius Alencar @vifranalencar

Para muitos a moda é catalisadora de desejos e anseios, reflete períodos históricos e levanta questionamentos. De tempos em tempos, especialmente nos mais sombrios, estilistas e criadores recorrem ao lúdico, enquanto outros, em meio aos dilemas do presente, imaginam um futuro distópico, ou simplesmente reinterpretam a dureza da realidade.

Em meio às limitações – não só econômicas – a moda sempre arruma fórmulas de causar desejo, seja com aforismos, seja com doses poderosas de fantasia e sonho. Na temporada de verão 2021 internacional encerrada na última terça-feira, isso ficou bem claro.

Romance e escapismo

Em entrevista ao Business of Fashion, Daniel Roseberry, diretor criativo da Schiaparelli, foi um dos designers mais transparentes. “A moda é tão obcecada em se prever, porque, no fundo, sabe como não é essencial!”, refletiu.

Sua coleção à frente da marca foi marcado pelo surrealismo que lhe é característico e salvo por acessórios interessantes: óculos dourados, anéis que imitavam unhas, cadeados e até uma máscara que cobria o nariz e os lábios, sem tirar suas formas humanas. Em suas próprias palavras, “um conto psycho chic”.

Outro que investiu em um conto de fadas sombrio e com perfume roubado dos new romantics, foi Olivier Theyskens. Véus, volumes, babados, mangas dramáticas para uma princesa contemporânea obcecada por Kate Bush. John Galliano fez algo parecido na Maison Margiela, a coleção foi criada a partir da ideia de um casamento gótico sul-americano, com direito a tango, muitos elementos noir e, claro, drama.

Maison Margiela / Reprodução site Maison Margiela
Maison Margiela / Reprodução site Maison Margiela

Jeremy Scott fez um desfile para a Moschino estrelado por 40 marionetes (e também criou marionetes dos principais nomes da imprensa internacional sentados na fila A, de Anna Wintour a Vanessa Friedman) – os fashionistas brasileiros lembraram na hora que o estilista Fause Haten havia feito o mesmo para mostrar sua coleção de verão 2014.

Na Undercover, Jun Takahashi misturou de Hello Kitty a Picasso, passando por Patti Smith e elementos da monarquia, como coroas e cajados. Segundo ele, resumiria a coleção em cinco palavras: escapismo, loucura, prazer, realidade e fantasia.

Undercover / Reprodução site Undercover
Undercover / Reprodução site Undercover

Por seu histórico como figurinista de balé e teatro, Arthur Arbesser olhou para suas origens e de lá trouxe arlequins, pierrôs e colombinas da Commedia Dell’Arte. “Em meio a tudo isso, achei que era o momento certo de eu fazer apenas o que quero e acredito”, disse em entrevista a Luke Leitch, da Vogue América.

J.W. Anderson revelou que além das roupas em si, se debruçou em uma longa pesquisa para mostrar as peças de uma forma que ainda mantivesse a essência da coleção, que reinterpreta elementos da indumentária inglesa dos séculos 16 e 17 com estética street. A solução foi adicionar um toque contemporâneo as paper dolls, ao imprimir 37 looks em 2D. “O que realmente amei neste ano, por mais que tenha sido um desafio, é que encontrei o romance na moda novamente”, disse Anderson em conversa com Sarah Mower.

JW Anderson / Reprodução site JW Anderson
JW Anderson / Reprodução site JW Anderson

Realidade

Do outro lado, um grupo de designers seguiu por um caminho sem pedras douradas, seres mágicos ou alegorias. Ao invés disso, optaram por encarar a realidade de um ano marcado por pela pandemia e suas consequências catastroficas, crises políticas, desastres naturais, racismo e desigualdade, para nos fazer pensar como esses acontecimentos e transformações irão se reverberar nos próximos anos.

Eckhaus Latta / Reprodução site Eckhaus Latta
Eckhaus Latta / Reprodução site Eckhaus Latta

Eckhaus Latta foi a primeira marca a encarar a realidade de um jeito tão cru. Mike Eckhaus e Zoe Latta não queriam que a apresentação fosse um espetáculo, mas uma cena cotidiana. Modelos então desfilaram entre corredores e bikers, no East River, tendo a ponte de Manhattan como cenário – todas usavam máscaras, item que foi ignorado por 99% das grifes nessa temporada.

“A moda não pode mudar o mundo, mas pode mudar a forma das pessoas pensarem”, declarou Rick Owens logo após sua apresentação que misturou passado, presente e futuro, elementos anárquicos e bíblicos. O resultado futurista foi bem cerebral, com peças criadas a partir de desfiles anteriores (como, por exemplo, os tules dos vestidos que saíram do inverno 2012). 45 looks mascarados para serem usados não só daqui a seis meses, mas principalmente hoje.

Rick Owens / Reprodução site Rick Owens
Rick Owens / Reprodução site Rick Owens

Francesco Risso, diretor criativo da Marni, revelou que os meses de confinamento foram completamente opressores e introspectivos, fazendo-o pensar sobre a fragilidade da liberdade. A partir dessas sensações, nasceu a coleção Manifesto, em que 48 pessoas ao redor do mundo (de Tóquio a Milão) foram convidadas para vestir as criações e serem filmadas/fotografadas por aqueles com quem estivessem dividindo o confinamento.

Marni / Reprodução site Marni
Marni / Reprodução site Marni

Em Amor Fati, Marine Serre hipnotizou fashionistas ao redor do globo com um curta protagonizado pela cantora irani-holanesa Svedaliza que é distópico, envolvente e questionador. As roupas ganham um papel quase que secundário em meio a tantas quebras de espaço, tempo e gênero. A criatividade é também notada nos detalhes: objetos do dia a dia como apitos e abridores de lata foram ressignificados como acessórios.

Apocalíptico, [extremamente] realista, visionário, três adjetivos que acompanham o trabalho de Demna Gvasalia desde que assumiu a Balenciaga. Ao ouvir os primeiros samples do icônico hit Sunglasses at Night reinterpretado pelo seu marido, o produtor BFRND, você sente vontade de dançar e também certa estranheza ao mesmo tempo. Modelos andando pela Rue de Rivoli e nos arredores dos Jardins de Tuilleries mostram uma Paris noturna e chuvosa e um glamour que segue seus códigos sombrios.

“Eu ouvi uma citação de Martin Margiela quando estava trabalhando lá, sobre o valor do ‘traço do tempo’ nas roupas. Isso me tocou profundamente. Guardamos roupas assim até a morte. Quer dizer, eu tenho um moletom de 15 anos. Está desbotado e tem buracos. Mas não posso jogar isso fora. Então, pensei: no ano de 2030, como ficarão suas coisas favoritas, envelhecidas e destruídas?”, refletiu em uma entrevista para a Vogue americana.

Para Demna a moda em 10 anos será totalmente sustentável, upcycle e completamente sem gênero. Será? Ao olharmos pelo retrovisor para os desfiles em 2020, com certeza, confundiremos sonho, medo, esperança, melancolia e fantasia.

 


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