02.07.2018 / Moda / por

Vetements e Givenchy: sonho x subversão no primeiro dia de Alta Costura

Looks da Givenchy e Vetements no primeiro dia de Alta Costura em Paris / Reprodução
Looks da Givenchy e Vetements no primeiro dia de Alta Costura em Paris / Reprodução

Dois desfiles dividiram as atenções no primeiro dia da temporada de Alta Costura em Paris. A Vetements, que mostrou sua coleção masculina do Verão 19 dentro deste calendário, e a Givenchy, com a segunda apresentação de couture por Clare Waight Keller (e sob a pressão pós casamento real).

Dois desfiles, dois opostos. A delicadeza x a violência. Sonho x subversão.  Clássico x moderno. Glamour x cool. A Givenchy atualizou os códigos de Hubert de Givenchy, o romance e o glamour dos anos 50 e 60, a arquitetura de suas roupas e a relação com Audrey Hepburn. A Vetements focou na dura história de vida de Demna Gvasalia e sua família na Georgia, resultando em uma coleção dura, forte com o espírito subversivo da Vetements em pura forma.

+ Veja os desfiles completos da Givenchy e Vetements

Abaixo, colocamos uma lupa nos contrastes dos universos de Givenchy e Vetements:

As inspirações

Givenchy

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Audrey Hepburn / Reprodução
Audrey Hepburn / Reprodução

Clare Waight Keller homenageou o fundador da marca, Hubert de Givenchy, que faleceu em março deste ano. A coleção é uma celebração do glamour dos anos 50 e 60, a partir das raízes da maison, incluindo sua musa Audrey Hepburn. “Eu não revi nenhum dos filmes, apenas queria absorver o que já sabia”. Clare teve o privilégio de encontrar com Hubert pouco antes de morrer. “Tendo encontrado e conversado com ele mais o fato de que ele morreu apenas três meses atrás, me dei conta de que seu legado precisava ser celebrado”, disse ao The Guardian.

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Assim como a Givenchy, a coleção da Vetements também é inspirada em seu criador. Demna Gvasalia olhou para a própria história crescendo em uma Georgia turbulenta, testemunhando violência e abuso, especialmente o genocídio que ocorreu em 1992 em que milhares de pessoas foram assassinadas ou obrigadas a deixar suas casas. “Eu vivi tudo isso e percebi que foi uma época muito dolorosa pra mim e que precisava colocar para fora”, disse à Dazed.  “Nossa casa foi bombardeada e com 10 anos virei um refugiado em meu próprio país”, disse ao editor Godfrey Deeny.

Para contextualizar a vivência de Gvasalia que resultou nesta coleção, o Human Rights Watch publicou em 2017 um material sobre a Georgia em que denuncia a falta de um mecanismo independente eficaz para investigar crimes cometidos por oficiais da lei. Em 2017, o Georgian Young Lawyers’ Association, grupo de direitos humanos, analisou 22 casos de tortura policial e constatou que em muitos deles, os policiais retaliavam as vítimas que abriam queixas ou processos. As consequências são extremas, como o suicídio de um jovem de 22 anos que deixou um bilhete dizendo que a polícia estava obrigando-o, através de tortura, a informar sobre os plantadores locais de cannabis.

 

Locação

Givenchy: nos jardins do majestoso Archives Nationales de France, uma construção do século 17.captura-de-tela-2018-07-02-as-08-56-16

 

Vetements: debaixo de um viaduto na periferia de Paris.

#Vetements @vetements_official ✨✨✨💗💗💗💗

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Highlights

Givenchy a-givenchy-sonho

Todos os “elementos Hepburn”, como as capas, luvas pretas, o vestido de Funny Face atualizado, e uma série de looks para Meghan Markle se esbaldar, e toda as outras princesas modernas. Porque é roupa de princesa mesmo, que fala com nosso lado romântico e sonhador, por mais escondido que esteja. “Queria criar roupas que flutuam”, disse Clare. Ela usou materiais que não existiam na época de Givenchy, como técnicas de colagem japonesa e paetês feitos para se moverem como se fossem líquido. Os vestidos de fato flutuavam na passarela espelhada, ao som de Moon River cantada por Audrey Hepburn, trilha de Breakfast at Tiffany’s. Trabalho impecável e magistral do ateliê de Alta Costura – as costureiras entraram junto com Keller nos agradecimentos finais, reproduzindo um costume de Hubert de Givenchy.

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“Dedico essa coleção a Georgia, a Georgia onde eu e meu irmão Guram crescemos nos anos 90 e a guerra que ocorreu em nossa região. Tentei encarar essa angústia, o  medo e a dor nesse desfile”, disse Demna ao site da Vogue americana. A Rússia invadiu sua região ele era uma criança, forçando sua família a fugir para a Europa Ocidental. Há então muitas referência militares e à guerra, como o camuflado, saltos em forma de balas de armas e as balaclavas, muitas delas, que resultam nos momentos mais impactantes do desfile. Ainda aparecem as bandeiras da Georgia, Rússia, Turquia, Ucrânia, Estados Unidos e Suíça, onde a marca está baseada.

As roupas oversized vêm das lembranças de quando ele usava peças de seus primos que tinham mais dinheiro; os ombros grandes vêm de sua “avó gótica” que hoje vive na Alemanha. Há slogans em russo (um palavrão) e em sua língua natal. E os vestidos florais que sempre aparecem nos shows da Vetements, desta vez inspirados nos lenços russos.

Demna tem ido a terapia nos últimos dois anos e agora se sentiu pronto para ir a este lugar. “Nunca me senti tão animado criativamente, então me senti seguro para colocar para fora, colocar tudo sobre a mesa”. E assim foi, com os modelos andando sobre uma grande mesa que parecia montada para uma cerimônia de casamento.

As noivas

Givenchy / Reprodução
Givenchy / Reprodução

 

VIDEO GIVENCHY

 

Curiosidades

A Vetements criou um app para educar as pessoas sobre a Georgia. Quando você escaneia peças da coleção, você será levado a uma página da Wikipedia com detalhes sobre o genocídio da Georgia. O aplicativo irá funcionar quando as roupas chegarem nas lojas.

A marca fez seu casting na Georgia, trazendo mais de 40 modelos para o desfile. “Usei essa turma como uma voz para a juventude do meu país que não tem voz e é reprimido pelo regime político. Eles não podem falar o que pensam. Não há liberdade na Georgia”. O punho de uma das jaquetas tem, no lado de dentro, a palavra Enough escrita.

 

 


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