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    Mulheres que criam para mulheres

    Figuras femininas da moda brasileira refletem sobre o processo criativo de pensar em roupas para outras mulheres.

    Mulheres que criam para mulheres

    Figuras femininas da moda brasileira refletem sobre o processo criativo de pensar em roupas para outras mulheres.

    POR Julia Lange

    No mês em que comemora-se o Dia Internacional da Mulher, é comum encontrarmos reflexões sobre o papel que elas ocupam no cenário e indústria da moda mesmo sendo o maior público consumidor e formarem a maior base de profissionais atuantes em todo o processo da cadeia. Uma coisa é certa: há uma diferença quando são mulheres por trás das criações desse mercado. Tendo como plano de fundo o mercado nacional, conversamos com algumas mulheres que lideram marcas e negócios próprios exatamente para entender: como é ser mulher e criar para mulheres?

    O resultado você confere abaixo.

    Angela Brito – Angela Brito Brand

    Essa pergunta me lembra uma vez que eu vi uma entrevista de um diretor criativo e ele estava explicando as roupas que ele tinha desenvolvido pra uma coleção e na hora eu pensei “nossa, mas você só fez isso porque não é você quem vai usar”. A sensação que eu tenho é que homens quando criam, muitas das vezes, eles têm uma ideia idealizada de uma mulher. Mas como eles não vivem o cotidiano, o dia a dia mesmo com todas as nossas questões, eles desenham para algo que nem existe. Na maioria das vezes você tem a sensação de “será que eu usaria isso, desenharia isso?” e a resposta quase sempre é não. Eu acho que sendo mulher, eu tenho uma premissa sempre que é que tudo que eu crio, eu sempre penso “eu usaria?”. Isso não quer dizer que eu use tudo que eu crio, mas significa que tudo que eu crio, eu tenho que ter pelo menos vontade de usar, como mulher. Se eu não usar uma peça em hipótese alguma, eu jamais proporia que outra mulher usasse. Um segundo ponto é que como mulher criando, a mulher não leva em conta só a parte estética, ela leva em conta o dia a dia… nós somos mulheres com filhos, atividades, são tantas coisas que a gente passa o dia todo que a roupa não pode ser só estética, ela precisa de funcionalidade. Por mais bonita que ela seja, ela tem que ser prática, confortável. E o conforto não está ligado só ao tecido, tem a modelagem, tantas outras coisas.

    Eu acho que quando a mulher cria, ela pensa na mulher. Ela cria coisas contemporâneas, elegantes, atemporais, mas também funcionais, pra toda mulher poder usar. As vezes eu acho que o que nos diferencia é que nós sabemos exatamente o que a outra mulher tá passando, mesmo que as vidas sejam diferentes, nós temos a exata noção do que é ser mulher. Às vezes o homem, muitos deles, não são empáticos ou realmente nem se importam com isso. Muitos criam peças fantasiosas mesmo, no sentido de fantasia na cabeça deles do que uma mulher usaria. A gente cria levando em conta nossas experiências.

    A roupa tem que ter sim linguagem de moda e ser autoral, mas ela também precisa me possibilitar diversos caminhos e isso é algo que eu levo muito em conta nas minhas peças. Eu penso mesmo na funcionalidade de uma mulher que precisa de desdobrar em 1000 e quer estar bonita, mas confortável.

    Ana Clara Watanabe – WTNB

    Então, eu gostei muito da sua pergunta porque eu nunca quis criar para o público feminino. Eu cresci tendo muito mais contato com moda masculina, eu sempre quis criar para homens. Meu primeiro contato em “confecção” foi com um alfaiate (uma profissão até então predominantemente masculina) criando ternos para o meu pai; fiquei apaixonada de cara e decidi que queria criar aquilo, criar ternos, blazers estruturados, e pra mim os ternos eram pra homens. Eu cresci com essa ideia de silhueta mais ampla e quadrada como meu referencial de roupa bem feita, e era aquilo que eu queria fazer.

    Quando eu entrei na faculdade e precisava criar coleções femininas, eu sentia uma dificuldade imensa porque achava que o que eu precisava criar era aquele estereótipo meio new look, uma cintura marcada, uma saia godê, ou uma coisa meio noiva, enfim, peças de roupa que eu, Ana Clara, nunca me reconheci e usei. Sempre desenhei e produzi minhas próprias peças de roupa, meus blazers amplos, calças muito largas, e a partir disso, usando minhas próprias peças, passei a receber encomendas. O engraçado é que as encomendas vinham tanto de mulheres quanto de homens, então encontrei ali, em 2017, a moda agênero e a possibilidade de criar uma moda que realmente fizesse sentido pro meu cotidiano, e pro cotidiano de tantas outras mulheres que buscavam se vestir confortáveis, mas com peças que trouxessem essas estruturas mais rígidas da alfaiataria tradicional.

    Quando eu comecei a WTNB, em Junho do ano passado, criei pensando no público masculino, e fotografei apenas em modelos homens. Quando lancei as peças no site, elas esgotaram no mesmo dia e todos os remetentes que anotei nas embalagens eram pra mulheres.

    Acho doido pensar isso, porque eu nunca me vi como uma designer mulher criando para mulheres, mas acho que por ser uma designer mulher que não se encontrava/reconhecia no que até então estava sendo apresentado no mercado quando comecei nele, ali em 2016, decidi criar a partir de uma perspectiva masculina – e dali o meu público feminino se aproximou de mim.

    Hoje, além da parte de wearable art que trabalho na WTNB, eu tenho a linha de sob medida – que basicamente, os atendimentos são 90% para o público feminino, que chega no meu ateliê e me dá total liberdade criativa para desenhar e executar o design que eu quero.

    Não sei se consegui explicar bem, mas hoje enxergo que ser uma mulher que cria para mulheres é um lugar muito libertador pra mim porque sinto que não preciso mais criar algo “esperado pelo mercado”, silhuetas e estampas que você encontra em lojas com mais facilidade, porque reconheço que sempre fui muito fiel a minha estética, e isso me aproximou de mulheres que consomem a Watanabe. Mulheres que buscam peças únicas, feitas à mão em um processo muito mais artesanal, que não ligam de estarem em peças muito amplas ou cheia de camadas, gosto da ideia dessas mulheres-obras de arte que tenho conseguido criar.

    Edina Moreira – Handlace

    Ser mulher e criar para mulheres na Hand Lace é uma jornada de conexão profunda e força coletiva. Cada peça que concebo é um reflexo das minhas vivências entrelaçadas com as experiências de tantas mulheres. Com cada design, busco não apenas construir roupas, mas também potencializar a beleza e a feminilidade de quem as veste. É um processo de empoderamento, onde cada costura é um lembrete de confiança e autenticidade. Em cada criação, tecemos não apenas tecidos, mas também histórias e vínculos, celebrando a complexidade e a singularidade de ser mulher.

    Day Molina – Nalimo

    Ser mulher e criar para mulheres é antes de tudo um movimento que me inspira e fortalece. Criar com liberdade para viver com liberdade! E também um comprometimento de ponta a ponta. De dentro para fora, sabe? Trabalho em um ambiente totalmente feminino, onde mulheres estão criando para mulheres todos os dias. E me orgulho muito disso. Os cargos de liderança na moda ainda são predominantemente masculinos. E criar para outras mulheres, é um abraço em nós mesmas. Esse posicionamento não é somente sobre o design da moda em si, mas no conforto, no acolhimento e na diversidade de mulheres que escolhem vestir o que estou criando. Nós (mulheres), estamos mudando o mundo. Somos nós quem estamos construindo uma sociedade melhor; mais afetiva, mais criativa, mais coletiva. E todos os dias eu agradeço por ser parte desta mudança que quero ver diante todas nós. Somos uma grande roda, uma ciranda que faz o mundo girar de forma mais abrangente e democrática. Onde pisamos, mudamos algo naturalmente. Mudança é algo totalmente feminino, faz parte da minha essência criativa.

    Naya Violeta – Naya Violeta

    Eu acho que hoje, em 2024, eu gosto muito de olhar para a trajetória de ter construído essa roupa e ela ser um lugar de aconchego. É uma roupa que olha para um corpo diverso, uma roupa que olha para além do corpo de uma mulher cis, uma roupa que olha para uma mulher que tem peito… Hoje Naya Violeta fica muito feliz de ver onde chegou! Meu processo de criação foi muito de criar o que eu não via em outros veículos, então meu desejo de criação é muito envolvido com representatividade e nesse lugar afroafetivo que eu encontrei na minha família, com mulheres com peitos grandes, com quadril, com bunda. Então a partir do momento que eu não via isso nas outras marcas, que eu não via roupas que me serviam mesmo, eu comecei a criar as roupas. Eu fico cada vez mais feliz entendendo que as roupas que eu crio são um aconchego para mulheres que abriram caminhos para eu ser quem eu sou hoje. É um aconchego vestir a Dona Jacira, Sonia Guajajara, Bela Gil, Yara Viana, um bloco em Salvador (Afroquizumba), entre tantas outras. Eu acho que é sobre entender as mulheres que minhas roupas vestem e onde elas estão.

    Quando eu olho e vejo as pessoas reconhecendo a roupa, essa estampa exclusiva e toda a trajetória para chegar até ali, essa criação de uma identidade afrobrasileira diaspórica, de eu estar junto com ministras e com mulheres em espaços de poder.

    Construir essa roupa numa estética afrobrasileira diaspórica, que fala de narrativas negras de felicidade, e que levanta a luta anti racista, e traz afeto e aconchego, pra mim é a revolução das minhas ancestrais, é firmamento de caminho, é ter certeza que quem abriu as portas para mim, essas portas realmente funcionaram e eu quero continuar abrindo essas portas para outras, através da moda, da comunicação, da política.

    Tete Oshima – Teodora Oshima

    Eu me lembro de ter ouvido de uma professora na época de faculdade que as minhas criações femininas não eram fortes quanto o que eu fazia para homens, isso lá em 2014, e me lembro do impacto que teve em mim como criadora.

    Quando fiz meu tcc em 2015, fiz pensando no universo masculino, mas tinha já um perfume de outro tempo e uma delicadeza no meu jeito de criar. Ter entrado numa marca feminina na minha primeira experiência de trabalho com moda, ainda fazendo tcc, fez com que eu exercitasse aquele comentário sobre as minhas criações do universo feminino não serem fortes.
    Hoje ressignifiquei o julgamento e já não rebate mais no lugar de fragilidade como antes, consegui transformar em potência o meu olhar sobre o que desenvolvo e tenho segurança com as minhas criações e o universo que criei para ambientar minha marca.

    Existem várias estilistas que criam para mulheres, mas não usam as próprias roupas. Eu crio minhas peças já me imaginando nelas também, porque é uma parte do meu ritual de autocuidado sobre como quero comunicar a minha imagem para o mundo.

    Eu adoro me arrumar, e costumo brincar com os meus amigos que eu sempre sou a “overdressed” da turma, porque é um momento especial para mim, me arrumar. Sinto que transmito isso quando estou criando, como se fosse um autocuidado que repasso para as minhas peças e isso deixa as criações especias, que é como gosto que as pessoas se sintam quando usam as minhas roupas.

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