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    Entrevista: Verena Figueiredo

    “Abraço todas as minhas características e revelo meu olhar, meu humor, sem me levar a sério”.

    Entrevista: Verena Figueiredo

    “Abraço todas as minhas características e revelo meu olhar, meu humor, sem me levar a sério”.

    POR Vinicius Alencar

    Depois de alguns desencontros, no dia 20 de dezembro, último dia antes do recesso, encontrei Verena Figueiredo. Cabelo rosa, camisa azul, com uma bolsa Chanel retangular à tiracolo. “Que vintage uma entrevista pessoalmente”, disse uma amiga nossa em comum, com quem ela divide apartamento, quando soube do nosso encontro. E a troca olhos nos olhos fez realmente toda a diferença, arrancou sorrisos sinceros, lágrimas reais e sentimento, algo difícil de transmitir pela tela do celular ou por e-mail. Mas a realidade nos proporcionou isso.

    Verena é criadora de conteúdo fruto da explosão de novos nomes que ganharam força em 2020, acumula mais de 100 mil seguidores aqui no Instagram e quase 86k na rede vizinha (com 2 milhões de curtidas) – diferentes metragens, mas números igualmente significativos. Olhos curiosos e caninos proeminentes, ela consegue equilibrar personalidade, opinião e doçura com naturalidade. A seguir, alguns dos destaques das quase 3 horas que passamos juntos.

    Foto: Tauana Sofia/Reprodução.

    Como começou tudo, como foi sua infância? Enfim, os primeiros anos.
    Sou sergipana, tive a sorte de nascer no nordeste, onde a vida e a forma de enxergá-la sempre foi mais inocente, mais florida. Cresci com toda uma diversidade de pessoas, vivências, formas de se expressar, mas tudo mudou quando aos 11 anos, mudei de Sergipe para Mirassol [interior de São Paulo].

    Foi um choque, porque não havia mais toda aquela variedade de pessoas e olhares. Passei a viver uma cultura extremamente machista e sertaneja. Odiava, mas mesmo assim eu ia para todos os rodeios e shows de duplas sertanejas que você pode imaginar [risos]. Senti inicialmente uma certa xenofobia, especialmente pelo meu modo de falar, mas fui amadurecendo.

    E a relação com a moda começou aí ou antes?
    Minha mãe sempre ia à costureira e eu desde pequena era obcecada pela Barbie. Comecei a fazer roupas para as minhas bonecas com tic tac [presilhas de cabelo], já que não sabia costurar. Depois fui aprendendo, fiz primeiro corte e costura, depois fiz modelagem. Meus pais me apoiaram sempre, estudava em escola pública e quando cheguei no colegial já tinha claro que queria estudar moda. Até que estudei muito, me preparei e entrei no Senac, o que fez eu me mudar para São Paulo, em 2009.

    Qual foi seu trabalho por aqui?
    Foi em uma marca de roupas orgânicas para bebês [risos]. Havia uma promessa inicial de ser algo criativo, mas na prática eu passava boa parte do tempo no estoque dobrando as roupinhas. Frustrações da vida adulta. Depois fui para a Doc Dog…

    Que era uma marca ultra desejável entre os adolescentes dos anos 2000, né?
    Sim, muito! Mas já estava na fase final, mesmo assim foi interessante para entender como tudo funcionava. Eu ia muito ao Bom Retiro, acompanhava a criação de peças piloto – dos aviamentos até a etiquetagem. Depois passei 3 anos na Santa Lolla, de estagiária à assistente, o que me preparou para o meu trabalho seguinte, na Ellus, também trabalhando nos acessórios inicialmente, depois fui pro jeans.

    Aí me lembro como se fosse hoje, era tipo 30, 31 de dezembro de 2016, eu estava atualizando meu currículo para mandar para a VOID. Uma semana depois eu estava me mudando para o Rio de Janeiro, onde ficava a base deles, ou seja, quando a minha vida em São Paulo estava se estabilizando, começou tudo novo de novo.

    Mas foi uma experiência muito importante para mim. Me deu uma visão mais ampla e atual de mercado, ao procurar novas marcas para serem vendidas na VOID, me deparei com outras culturas, visões periféricas, outras perspectivas que me agregaram muito. Foi quando nasceu também meu desejo de ir mais para o lado comportamental da moda, de pesquisa mesmo.

    E foi nessa época que começou no Tiktok ou depois?
    Foi em 2020, inicialmente como uma ferramenta de pesquisa, já que desde o comecinho eu percebi que era interessante pesquisar por ali. Com a pandemia e as incertezas, fui consumindo cada vez mais lá, o que as pessoas faziam, os conteúdos. Até que pensei: “E se eu começar a falar?”. Mas mesmo com esse desejo, eu pensava: “Como posso fazer diferente?”, e aí fui testando.
    E qual foi o turning point?

    Quando fiz um conteúdo explicando de onde vinham as refs de uma coleção da Chanel inspirada no Rio [se referindo ao resort 2021]. Eu queria muito trabalhar com eles um dia, mas fiquei com muito receio. Fiquei alguns dias dormindo e acordando com aquele conteúdo antes de postar. Até que criei coragem, postei e pouco tempo depois, vi no Instagram que a PR brasileira da Chanel época havia me mandado uma DM.

    Fiquei ainda mais nervosa, não abri de cara. Pois podia ser algo muito legal, como podia ser algo horrível [risos]. No final, foi o convite para uma conversa, na verdade uma reunião, a primeira que tive como criadora de conteúdo para uma das marcas que mais sonhei em trabalhar. Foi uma validação e um sinal de que estava fazendo as coisas da forma certa ou pelo menos da forma que eu acreditava.

    E na sua concepção, o que é conteúdo?
    Conteúdo tem a ver com embasamento, em ter outros pontos de vista e criar camadas. Profundidade, sem ser chata. Hoje a palavra conteúdo é banal, perdeu o seu significado morfológico.

    E se confunde muito com ter opinião, não?
    Sim, esse desejo de correr para se pronunciar. Não dá tempo de seguir a força do algoritmo, sua velocidade. Ter opinião é fácil. Acho triste que muitos acreditem que seja só isso. O sistema funciona muitas vezes assim.

    Gostar de roupa basta para fazer conteúdo de moda?
    É algo muito mais abrangente, mas tudo entra nessa caixa. Posso falar que amo uma xuxinha de cabelo, assim como posso falar quando e onde surgiram as xuxinhas. A moda já carrega o estigma de ser algo raso, fútil, mero consumo. Então é preciso ter cuidado para não propagar isso.

    Como ser singular em um mundo cada vez mais saturado como o da criação de conteúdo?
    Acredito que seja alguém fora da curva. Não sou, por exemplo, apenas Get Ready With Me, mas a soma de todas as minhas experiências. Abraço todas as minhas características e revelo meu olhar, meu humor, sem me levar a sério.

    E a autenticidade? Sinto que até hoje ela tem uma fórmula para ser alcançada atualmente e você?
    Depende do que você quer ser, quer mostrar para o mundo. Quais foram suas trajetórias e acessos. Eu sempre soube que queria ser uma criadora, uma blogueira que seja, que refletisse sobre o mercado e compartilhasse suas experiências.

    E a troca com seus seguidores? Tem muita cobrança? Pressão para se posicionar?
    Tenho sorte com as pessoas que me seguem, é uma aula quando leio o que eles me enviam depois de assistir um vídeo meu de 10 minutos sobre um tema. Num mundo que parece ser tão limitado e fascinado por fofocas e celebridades é muito massa ter essa troca e compreensão deles.

    E como você se prepara? Pensa nas pautas? Roteiriza?
    No começo as pautas, os temas, eram mais pop. Tudo nascia organicamente, digamos assim. Afinal era mais abrangente. Mas agora, as ideias nascem de incômodos, questões pessoais, coisas não muito faladas ou memórias do meu passado.

    Pergunto porque hoje você não se limita a moda, o vídeo que você começa falando “sou/somos gordofóbicos”, me chamou atenção, porque é um tema que dialoga com a moda, mas é muito maior…
    Sim, foi um conteúdo que furou a bolha, mas que eu demorei um bom tempo para processar tudo. Leio diferentes lugares, compreendo, releio. Tento imaginar como as pessoas vão receber aquilo. Amadureço.

    Foto: Tauana Sofia/Reprodução.

    E como funciona sua rotina como criadora? Porque você atua de diferentes formas, né?
    Não funciona, é caótico [risos]. Porque eu penso nas pautas, roteirizo, mas também atuo às vezes como modelo, então além de redatora, também sou stylist nos meus conteúdos. Esse ano, 2023, pude contar com ajuda para legendar, editar os vídeos, além de contar com uma agente – o que deixou tudo mais profissional.

    O que quer com o seu conteúdo? Onde quer chegar?
    Quero provar para mim mesma e mostrar para as pessoas que parar entrar na moda e trabalhar com ela, não é preciso ter apenas grana, bens materiais, uma faculdade master blaster. Que você pode ascender sem ser de família milionária ou apenas se tiver um vocabulário rebuscado. Mostrar que é sim possível para quem tem uma história parecida com a minha. Jamais imaginei que trabalharia com a Chanel um dia. Achava que precisava de X, Y, Z, mas entrei de outra forma na moda.

    Quando eu vou para o fashion week internacional [Verena se emociona], nunca achei que estaria lá. São ambientes que não sei bem como me comportar, como sento, como deixo a bolsa. Um privilégio que hoje desfruto, mas mesmo assim me sinto um peixe fora d’água.

    Interessante você dizer isso, porque quem começa a te seguir hoje, por exemplo, acha que você sempre desfrutou disso – eu me sinto assim, às vezes – e você?
    Sim, acham que sou rica [risos]. Por isso gosto de deixar na minha bio do Instagram, que sou sergipana, que estudei em escola pública, que fiz faculdade como bolsista.

    Impossível não perguntar: e 2024?
    Quero continuar com esse processo de profissionalização que começou esse ano, com mais qualidade, estrutura e pensar em novos formatos. Tenho questionado bastante quais são os outros lugares que podia atuar: dentro de uma marca? Tendo uma newsletter? Me dá uma luz… [risos].Vejo muito você trabalhando com marcas, dando uma consultoria talvez!

    Hmm… é, não descarto, pode ser algo legal mesmo.

    E Verena, pra concluir, um conselho pra alguém que quer começar agora a criar ou trabalhar com conteúdo.
    Não olhe para as coisas ruins, abrace suas singularidades. Aliás, abrace tudo, eu abracei até a minha língua presa [risos]. Essas coisas que por mais banais que sejam te fazem único. E não se compare, busque as suas próprias referências e não tente replicar fórmulas alheias.

    Foto: Tauana Sofia/Reprodução.

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