22.01.2018 / Cultura pop / por

De adolescente imigrante a pop star: documentário da cantora M.I.A estreia em Sundance

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Estreou ontem no Festival de Sundance o documentário Matangi/Maya/M.I.A, aguardado filme feito a partir de mais de 20 anos de filmagem da própria M.I.A. Amigo da cantora e diretor do doc, Stephen Loveridge anunciou o projeto em 2013, mas a produção parou por conta de uma diferença entre ele e selo musical Interscope Records.

O filme segue Maya, 42, provocando a indústria da música e a mídia mainstream enquanto tenta manter sua integridade artística, mostrando a trajetória de uma adolescente imigrante em Londres à popstar internacional M.I.A. Um trailer de quase cinco minutos divulgado ainda em 2013 mostra bem o conteúdo denso e relevante do qual é feito o documentário. Tem participações do ativista Julian Assange, Kanye West e Diplo, um dos produtores mais quentes do mercado há anos e ex-namorado da cantora.

Maya canta e briga pelos oprimidos e pelos refugiados. Seu lado ativista fala mais alto que seu lado pop star e já rendeu críticas e problemas à cantora. Nos últimos anos, ela se envolveu em inúmeras provocações e confusões. Criticou Beyoncé por apoiar o movimento Black Lives Matter, e foi processada pelo NFL em US$ 16.6 milhões por mostrar o dedo do meio durante o show no Superbowl que participou à convite de Madonna. Somente sse fato isolado mostra que está dentro dela – verdadeiramente – a necessidade de ir contra o sistema. Que outra cantora pensaria em fazer qualquer gesto “negativo” para as câmeras ao vivo de um dos eventos mais assistidos do mundo?

M.I.A. durante apresentação no intervalo do Super Bowl / Reprodução
M.I.A. durante apresentação no intervalo do Super Bowl / Reprodução

Para entender seu posicionamento, vamos voltar um pouco no tempo. Maya nasceu em Londres, mas cresceu no Sri Lanka e na India, onde seu pai integrava um grupo separatista chamado Tamil Tigers, que lutava pela separação do Estado de Tamil, minoria à qual pertence a família de M.I.A. Os Tamils estão entre as mais antigas civilizações do mundo e, originalmente, governavam Tamilakam e partes do Sri Lanka. Porém, na era colonial passaram a ser governados pela Índia Britânica, o que erradicou seu poder transformando-os em minoria. O tratamento dos Tamils pelo governo de Sri Lanka é uma preocupação constante que aparece nas letras de Maya.

No Sri Lanka, ela viu cenas como a polícia bater em sua mãe grávida. “Meu pai e minha família começaram uma guerra que durou 35 anos. Eu fazia parte da família mais caçada da região e isso é uma coisa que nos lembram no minuto em que nascemos: ‘alguém vai te matar’”. Maya teve raras chances de desfrutar da companhia de seu pai, devido ao seu envolvimento com a organização Tamil Tigers. Os Estados Unidos vêem os Tigers como grupo terrorista e negou diversas vezes o visto de entrada para M.I.A. no país.

Quando mudou para Londres aos 10 anos, sofreu preconceito por causa de sua cor. Ela chegou a tomar cuspe na rua ou ainda se sentir totalmente invisível. “Não é nem racismo, é muito além. É como se você simplesmente não estivesse lá”, diz ao The Independent.

Foi essa rebeldia, raiva e senso de justiça que construíram a sonoridade única da cantora, que apareceu no início dos anos 2000 com o álbum Arular e seu som global que conectava os jovens dos subúrbios de Londres com pessoas oprimidas em países sub desenvolvidos. Muito ativismo e feminismo apareceu em seguida, desde o surgimento de cantoras como Grimes e Santigold, dadas como descendentes diretas de M.I.A, a Nicki Minaj e Beyoncé, com sua Formation Tour. “Eu não sou a pessoa que faz bilhões de dólares falando de opressão. Eu sou a quebradora do gelo, daí vem alguém atrás de mim e monetiza em cima”.

 

Maya já foi nomeada a um Oscar, fez turnê com Bjork, compôs para Christina Aguilera, cantou com Kanye West e Jay-Z no Grammy 2009 (grávida de nove meses)… Para sua gravadora, ela poderia ser o ícone do milênio. Seus agentes falavam: “Você poderia ser a Rihanna se simplesmente calasse a boca”. Isso veio como consequência do hit Paper Planes. A música estourou, mas também virou um hino dos refugiados. Às críticas que recebeu na época, ela responde:

“Bom, eu tenho que ser honesta comigo mesma. Se você é um imigrante, significa que deixou algo em algum lugar e, a maior parte do tempo passou fugindo de uma guerra. Os sons das armas são uma parte da nossa cultura como uma coisa cotidiana. Se eu fui exposta a armas de fogo, violência, bombas e guerra, então eu posso usar esses sons apoiando meus pensamentos em uma música. Olha, eu estou bastante à vontade com sons de bala. Se você tiver um problema com isso, vá e fale com as pessoas que estavam atirando em mim.”

poster do documentário
poster do documentário

Em seu útltimo album AIM, lançado em 2016, ela resurge mais positiva e tranquila. “Estou exausta, quero apenas me aposentar e cuidar do meu filho”, disse à Rolling Stones, indicando que este seria seu último disco de estúdio. “É o trabalho mais positivo que já fiz, sem nenhum desses tópicos como racismo, gênero ou política. Tem sido uma jornada interessante pra mim, essa coisa de espalhar o amor”. E logo emenda: “Estou me esforçando para não soar como Madonna”. Essa é M.I.A.: você pode sair da revolução, mas a revolução não sai de você.


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