Na mostra Livro de Rua, Diógenes Moura reúne imagens captadas pelo celular nos últimos sete anos

Foto: Diógenes Moura/Cortesia
Foto: Diógenes Moura/Cortesia

A Galeria Utópica, em São Paulo, recebe a exposição Livro de Rua (série fashion-abandono). O escritor, curador de fotografia e editor Diógenes Moura passou os últimos sete anos registrando com o próprio celular imagens que retratam uma realidade que, aos olhos de muitos, passa despercebida no bairro dos Campos Elíseos, região central de São Paulo onde reside há 30 anos.

As 34 imagens inéditas, que ficam em cartaz até março (03.03), colocam em evidência os inúmeros indivíduos que, por diferentes motivos, passam a viver nas ruas da cidade em situação de abandono. Diógenes os chama de “pacote-existência”, resquícios de humanidades que estão aos nossos pés.

“Pode doer, sim. Como doem e não doem os pacotes-existência que aqui estão e que se espalham (cada dia mais um, ou dois, ou três) pelas ruas do bairro depois de perderem o emprego, a casa, a família, a esperança, o amanhã dilacerado pelo que está por vir”, diz. “Lá e aqui eles estão no silêncio e nos gritos da loucura coberta por fuligem: a segunda pele da imagem. São como nós. Estão aos nossos pés”.

O autor, que também foi curador da Pinacoteca de São Paulo, explica que optou por registrá-los com o celular porque são imagens que não possuem “segunda pele”, basta olhar e pronto. “Não são fotografias; fotografia é abismo e a diferença pertence a quem ver”.diogenes-2

O subtítulo da mostra tem a ver com o modismo, com a variação dos invólucros que protegem cada um dos retratados, conforme ele explica: “Fashion-abandono é perverso. Estamos na mesma cidade onde cachorros passeiam em carrinhos de bebê e são chamados pelos donos de ‘meu filhinho’. Onde um homem, catador de papelão, é assassinado com uma flechada no pescoço em pleno século 21. As imagens de ‘Livro de Rua’ são o que me interessam na cidade onde vivo, entre violência e paixão. Meu por de sol é o Minhocão. Meu contraluz são as lanternas vermelhas dos automóveis no caos do trânsito interrompido. Minha poesia vem da voz da mulher belissimamente desvairada que corre em baixo do viaduto gritando que ‘a saudade é como um dia de Domingo, às 17h30’. Dói nela e dói em mim. Deus tomou Gardenal. Mas nada de tragédias. Aqui estamos e a cidade é um presépio. Tem alma. Pulsa e adormece. E cochicha bem baixinho nos ouvidos de cada um de nós: ‘Ou você me decifra ou te devoro em trinta segundos’”.

Serviço

Livro de Rua (série fashion-abandono)
Quando:
de 03 de fevereiro a 03 de março
Terça a sexta-feira, das 11 às 19h / Sábados e feriados, das 11 às 17h
Onde: Galeria Utópica. Rua Rodésia, 26 – Vila Madalena, SP
Mais informações: utopica.photography


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