Ode: como a multiartista tem reescrito narrativas através de suas vivências

A diretora criativa, stylist e filmmaker tem buscado reescrever narrativas travestis e afro-diaspóricas na moda e na arte através de seus trabalhos

“Hoje, aos 23 anos recém-completados e orgulhosamente uma travesti preta autodidata, sou curadora, escritora, stylist e uma das diretoras representadas pela produtora Capuri” conta Ode. Com experiências em diversas áreas dentro do mercado de moda e arte, entre styling, film-making e redação, conversamos com a multiartista Ode sobre sua carreira, trajetória e o mercado nacional de moda e arte. 

Alguns de seus principais trabalhos levam em conta objetos de memória afetiva ou da infância e ela nos conta que foi mais ou menos nessa época onde ela descobriu a arte e a rebeldia, em Itajubá, interior de Minas Gerais, onde nasceu a passou sua infância e adolescência, até se mudar para São Paulo. Ode foi adiantada ainda no primário, ao desenhar um curupira com formas harmoniosas demais. Recebia diversas advertências no ensino fundamental, quando desenhava fadas seminuas com asas em papel 3D holográfico. Despontava aí o início – ainda incompreendido – de uma trajetória na arte e na criação de imagens.

Ode
Ode. foto: acervo pessoal

Ainda hoje, os trabalhos de Ode são permeados de significados políticos e sociais, atravessados por sua personalidade e seu lugar no mundo. O primeiro sinal disso foi ainda aos 15 anos, quando, coincidentemente, também iniciou seu trabalho na escrita. 

“Aos 15 anos, postei uma carta aberta no Facebook aos meus então colegas brancos do colégio, apontando situações de racismo às quais eu era acometida sendo uma das únicas alunas pretas e bolsistas e este texto viralizou. Me tornei colunista da Revista Fórum e iniciei assim minha carreira na escrita através de textos sobre questões étnico-raciais. Depois, aos 17, criei uma plataforma digital com foco em produções artísticas afro-diaspóricas e africanas, me tornei colunista da Red Bull e iniciei assim minha carreira na curadoria de arte”, conta.

RECONTANDO HISTÓRIAS

Nesse momento, Ode já pesquisava e buscava referenciais que se tornariam parte intrínseca de seu trabalho, como questões étnico-raciais, afro-diaspóricas e de gênero, mas, jovem demais, ainda não tinha uma estética ou linha completamente definida do que era, ou melhor, do que queria dizer com seu trabalho. Dessa forma, ela tirou um hiato até o ano passado, quando, aos 22 anos, lançou a série From Brazil With Love And Optic Games, para a revista britânica Nataal Media que foca em manifestações artísticas de moda e cultura africana contemporâneas, como uma forma de compartilhar histórias e abrir espaço para essas manifestações. Essa foi também a porta de entrada para Ode no mercado de moda internacional, onde ela explorou o trabalho de dez jovens fotógrafos brasileiros que ‘desafiam perspectivas ocidentais que ignoram o Sul Global como parte da vida preta e das conversas diaspóricas e expandem ideias em torno de representação e participação’. 

A partir disso, Ode começou a colaborar com veículos internacionais em matérias, artigos e entrevistas, dentre as britânicas Dazed e Bricks e Perfect Magazine e a sul-africana Bubblegum Club. Porém a sua paixão por contar histórias tem a imagem como canvas favorito, seja em vídeos ou fotografias.

“Neste período, já me entendia como travesti e era consciente de que travesti é uma identidade substancialmente brasileira, do Sul Global e latino-americana. Voltei a produzir imagem e, em busca de me sentir pertencente, encontrei em produções de artistas que exploram sua ascendência latino-americana” conta Ode, que faz questão de mencionar algumas pessoas que admira e que toma como inspiração, seus próprios amigos e companheiros de trabalho como o diretor Breno Moreira, e fotografe Jacob Ace e Ángel Castellanos. 

Ela começou a produzir imagens de forma amadora ainda na adolescência, quando emulava as provas do reality show Temporada de Moda Capricho – inegavelmente, um dos primeiros contatos com a moda e profissionais que fazem parte do mercado hoje – mas foi a partir de seus trabalhos mais recentes que ela entendeu as histórias que quer dar luz e contar ao mundo. 

RESTITUIÇÃO

“Em Restituição publicado na plataforma audiovisual Showstudio, o primeiro filme que dirigi e assinei o styling, enquanto minhas memórias de infância são sinônimo de dor e solidão e análogas às lembranças de outras travestis, nosso presente e profecia de futuro é infinitamente mais feliz: um lugar onde travestis podem existir sem medo, julgamento ou vergonha. É um filme propositalmente sem falas, uma vez que ‘travesti’ não se traduz, composto de sons cotidianos como vinheta de jogo de futebol, carro de gás e músicas que eu ouvia tocar na casa dos meus vizinhos, uma versão acústica da canção Novo Mundo da Yndi, uma amiga franco-brasileira, e de Wonder da eterna Cláudia Wonder, que repete em francês que tudo vai ficar bem.”

Restituição from CAPURI on Vimeo.

REVISTA CENSORED

“Para a última edição da revista francesa Censored sobre transmissão, tive a honra de vestir a lendária travesti brasileira Marcinha do Corintho com iconografias de santas que eu via na minha cidade natal acompanhando minha mãe nas missas aos domingos, pois é comum vermos imagens de travestis e mulheres trans sendo espancadas, mortas e demonizadas se tornarem virais, porém não é comum nos vermos vivas, velhas, vitoriosas, com legado e sendo sagradas.”

Marcinha do Coríntio para CENSORED Magazine | Direção e styling de Ode para CENSORED Magazine. Fotografia: Ángel Castellanos; Unhas: Cyshimi.
Marcinha do Coríntio para CENSORED Magazine | Direção e styling de Ode para CENSORED Magazine. Foto: Ángel Castellanos

BUBBLEGUM CLUB

“Para a capa de setembro da revista sul-africana Bubblegum Club, fiz meu trabalho mais íntimo: vesti e multiartiste Edgar, com quem já vivi uma história de amor e hoje é minhe melhor amigue e me faz diariamente redescobrir o que é amar, sua mãe Dona Maria e o bode Amiguinho na casa onde eles vivem na zona rural entre Guarulhos e Mairiporã.”

Edgar com direção e styling de Ode para Bubblegum Club Magazine. Fotografia: Ángel Castellanos; Beleza: Guta Hellena; Unhas: Cyshimi.
Edgar com direção e styling de Ode para Bubblegum Club Magazine.
Foto: Ángel Castellanos; Beleza: Guta Hellena; Unhas: Cyshimi.

CÉU

Lançada ontem (19.10) para o mundo, a capa do novo álbum Um gosto de Céu da cantora paulistana Céu também teve direção criativa de Ode. O álbum, apenas de regravações, fala bastante sobre memória afetiva, algo que já vimos ser um tema caro para a multiartista, que nos conta que cada um dos objetos presentes na foto da capa esconde uma relação com cada faixa do álbum, com destaque para um calendário crente, que faz alusão aos brindes que vinham nos botijões de gás na cidade natal de Ode. O nome da Céu aparece nele e ao mesmo tempo faz alusão a música Paradise da Sade, regravada pela cantora nessa produção. 

Capa do álbum Um Gosto de Sol de Céu com direção de Ode. Design gráfico: Ana Gama (Odjetos); Produção de objetos: Thaís Russo; Produção: João Bessa (Capuri); Fotografia: Cássia Tabatini; Styling: Maika Mano; Beleza: Camila Anac.
Capa do álbum Um Gosto de Sol de Céu com direção de Ode. Foto: Cássia Tabatini

 “Eu ouvia mais a Céu na minha infância, quando minha mãe limpava a casa às sextas-feiras, que sempre passava na MTV. Na época, reprisava sempre um show ao vivo em que ela cantava Street Bloom, e desde então escuto muito a essa música” conta a diretora criativa.

EMPREGABILIDADE TRAVESTI

Mesmo com um portfólio recheado na conta, a stylist e diretora criativa ainda é afetada pela problemática da empregabilidade de pessoas trans no Brasil, mais especificamente, na moda nacional. “Apesar de já ter colaborado com diversos veículos internacionais e ter feito minha primeira curadoria institucional em Londres (a exposição Notes on Travecacceleration aconteceu entre maio e junho na LUX Moving Image, a convite da Curatorial Fellow Cairo Clarke), ainda sou ignorada por estes mercados no Brasil simplesmente por ser travesti.” reivindica. 

“Apesar de travestis serem pessoas trans, pessoas trans não são necessariamente travestis, e o Brasil não é o país que mais mata pessoas trans, é o país que é mais violento com travestis e mulheres trans. Deste modo, no nosso país vemos um mercado que explora de forma extrativista nossas imagens, mas se recusa a nos dar oportunidade de trabalho e, assim, contribui para a nossa permanência enquanto meros assuntos e na margem.” O questionamento de Ode não chega a surpreender pois é sabido que a moda tem o costume de se apropriar de signos, causas sociais ou lutas minoritárias de forma performática, mas quanto mais fundo chegamos, mais sistêmico e enraizado se apresentam os problemas. “Vemos imagens de pessoas como eu sendo produzidas por pessoas cis ou pessoas trans que não são travestis e não possuem repertório para transformar a travestilidade em signos semióticos responsavelmente.” continua. 

“Tal equação é simples de ser resolvida: primeiro os empregadores do setor de comunicação de moda e arte no Brasil precisam nos dar oportunidade de trabalho, posteriormente garantir nossa permanência nesta indústria e nos naturalizar em espaços de poder e decisão. Apenas como assistentes de pessoas cis não basta!” conclui Ode.


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