Alexander Wang retorna às passarelas, mas a moda estará disposta a aceitá-lo de volta?

Wang fez seu primeiro desfile desde as acusações de assédio

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Ainda em 2020, Alexander Wang, prodígio da moda nos anos 2000, viu sua reputação derrocar ladeira abaixo ao ser o centro de uma série de denúncias de assédio e comportamento inapropriado. O designer construiu um verdadeiro império improvável no início da década, graças ao apoio da imprensa internacional e de uma legião de fãs – e amizades – entre elas das irmãs Hadid e Kendall Jenner, se tornando um dos poucos designers de ascendência asiática a atingir grande sucesso comercial nos EUA. 

Mas viu tudo isso por um fio, quando as acusações vieram à tona, no ano passado. A princípio, denúncias anônimas começaram a surgir, mas tudo tomou grandes proporções quando o modelo Owen Mooney foi ao TikTok reportar sua experiência de assédio com Wang e seu vídeo foi reverberado pela página Shit Model Management, no Twitter, dedicada a publicar relatos e denúncias de modelos sobre a indústria da moda. Em seguida diversos outros modelos e mulheres trans também surgiram alegando comportamentos inapropriados e denúncias de assédio por parte de Wang. 

O designer demorou a se manifestar sobre as acusações, afirmando que eram ‘mentiras grotescas’, mas acabou se encontrando com alguns dos acusadores e depois emitiu desculpas públicas sobre o caso. Desde então, Wang e a marca entraram num hiato, sem grandes aparições públicas, campanhas e desfiles. 

No entanto, nos últimos meses, Alexander Wang tem retornado aos holofotes com nova campanha, vestindo celebridades e um desfile aberto ao público.

Rihanna com look Alexander Wang | Foto: Reprodução Instagram
Rihanna com look Alexander Wang em abril deste ano. | Foto: Reprodução Instagram

No último mês, sob a lupa da mídia, Rihanna foi vista usando um look do designer, assim como Julia Fox. Ainda em 2021, a rapper CL (ex-2NE1) foi ao MET Gala vestida de Alexander Wang e no Coachella, onde o grupo de K-pop 2NE1 marcou um retorno triunfal após sete anos sem performances, todas as integrantes vestiam a marca. Uma grande campanha publicitária com a atriz sino-americana Lucy Liu também faz parte da estratégia de retorno da marca aos holofotes. 

A reunião do grupo 2NE1, no Coachella, todas de Alexander Wang | Foto: Reprodução
A reunião do grupo 2NE1, no Coachella, todas de Alexander Wang | Foto: Reprodução

Ao que parece, Alexander Wang tem focado sua estratégia em valorizar sua ascendência chinesa e investir fortemente no país e na Ásia, como um estepe para seu retorno. Enquanto as alegações de assédio eram reveladas, sua marca continava crescendo e vendendo mais na China, para onde o designer direcionou seus esforços. Enquanto não cabe a ninguém questionar sua ascendência ou sua identificação com sua herança chinesa, é de chamar atenção como Wang tem se apoiado fortemente nessa pauta após um escândalo público dessa magnitude como parte de sua estratégia para se blindar de críticas.

O RETORNO

Alexander Wang preparou seu terreno e fez seu comeback às passarelas na noite de ontem (19/04), em seu primeiro desfile desde 2019. O evento, realizado na Chinatown de Los Angeles foi aberto ao público. Com a audiência abarrotada, o desfile teve o apoio de mais de 800 pessoas, incluindo a cantora coreana CL, Behati Prinsloo, o tiktoker Noah Beck, a It-Girl do momento Chloe Cherry (Euphoria), os rappers Gunna e Coi Leray, Harry Hemlin e Lisa Rinna. 

Na moda, o desfile marcou também uma nova direção estética para Alexander Wang,  que abusou de tendências do momento que pipocaram na passarela, entre botas-over-the-knee, looks completos de jeans e couro, Y2K e luvas.

Na passarela, modelos de diferentes etnias e origens, – Adriana Lima foi a modelo mais comentada, desfilando com a barriga aparecendo, grávida de seu terceiro filho – desfilaram uma coleção focada em reproduzir muitas tendências e o resultado foi confuso. A aposta fortemente comercial do desfile, direcionada a falar diretamente aos clientes, também parece ser uma cartada estratégica, já que mesmo que o designer apresentasse um exímio trabalho de design, dificilmente a crítica cederia tão facilmente aos novos esforços de Wang. Até o momento desta publicação, praticamente nenhum grande veículo de moda havia publicado sobre o desfile e coleção.

Adriana Lima, grávida, no desfile de Alexander Wang na noite de ontem (19/04) | Foto: Reprodução Twitter
Adriana Lima, grávida, no desfile de Alexander Wang na noite de ontem (19/04) | Foto: Reprodução

A ausência de cobertura jornalística sobre o desfile – existem, atualmente, mais matérias sobre Adriana Lima desfilando grávida do que sobre a nova coleção do designer – mostra que a moda, e a mídia ainda se encontram resistentes em celebrar o retorno do designer. 

VENDAS EM CRESCIMENTO

A marca de Wang, que sempre foi apoiada na vida noturna, já se via perdendo vendas e em um caminho sinuoso antes do escândalo público, mas ainda não se sabe quanto o acontecimento pode ter afetado o designer. O fato é que, segundo o Business Of Fashion, as vendas do site de Alexander Wang cresceram 27% no primeiro trimestre deste ano, mas ainda estão 15% abaixo das vendas em relação ao mesmo período de 2020. 

Historicamente, na moda, profissionais que se viram no centro dessas denúncias tiveram destinos diferentes, alguns continuaram seus trabalhos, como Mario Testino e Bruce Weber, enquanto outros tiveram sua reputação permanentemente manchada. Infelizmente, parece que a indústria da moda tem memória curta, e cancelamentos ou boicotes raramente tendem a gerar danos irreparáveis em marcas e negócios, – veja a Dolce & Gabbana, por exemplo, em que mídia, celebridades e stylists parecem ignorar os fatos.

CL de look Alexander Wang no Met Gala de 2021
CL de look Alexander Wang no Met Gala de 2021

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