25.09.2019 / Moda / por

O renascimento de Adriana Barra

Adriana Barra / Foto: Erika Suconic Cortesia
Adriana Barra / Foto: Erika Suconic Cortesia

E março deste ano, Adriana Barra anunciou o encerramento de suas operações como estilista e marca de moda. Isso significava fechar suas lojas em São Paulo e no Rio, além da fábrica própria no Bom Retiro.

Na época, Adriana vinha de mais de 10 anos de um percurso de sucesso e expansão; seus vestidos estampados viraram febre, foram usados por praticamente todas as mulheres do showbiz (Marisa Monte, Monica Bellucci, Ivete Sangalo, Regina Casé, Andrea Dellal, Fernanda Lima, Fernanda Torres, Carmen Mayrink Veiga, Gisele, Camila Pitanga, Carolina Dieckmann…) e copiados à beça. Estava nas melhores multimarcas brasileiras e seu olhar criativo-exuberante-tropical rendeu licenciamentos com C&A, L’Occitane, Melissa, Bon Marche, Micasa, Samsung, Papaiz, Guaraná, Mitsubishi, Kenzo e Sundown, entre outras.

Quem acompanha a trajetória de Adriana, que se transformou num fenômeno seis meses após terminar a faculdade, achou que ela estava louca. Sair de cena assim? Mas ela só estava cansada, não do esforço do trabalho em si, mas de se ver navegando cada vez mais para longe de sua essência.

Nesta primeira conversa desde que fechou sua marca, ela conta o que a fez tomar essa decisão e fala sobre seu novo momento. Adriana foi dos Jardins para o centro da cidade onde alugou um duplex em um dos prédios mais importantes da cidade (o edifício modernista Esther), de cara para a Praça da República. “Tirei bilhete único e voltei a usar tênis e mochila. Essa sou eu. Quando você é estilista, as pessoas exigem que você viva um universo estético 24 horas, tudo tem que ser perfeito, mas eu não vou mais me adequar àquilo que as pessoas querem.  Não dá pra você? Então não venha”, diz em uma conversa com chá e bolo no apartamento já totalmente ocupado por cores, texturas e estampas a la Adriana Barra.

Hoje, aos 45, ela se reencontra com a liberdade e se prepara para um novo mergulho. Leia abaixo, os principais trechos da entrevista:

Foto: Christian Maldonado / Cortesia
Foto: Christian Maldonado / Cortesia

O que levou você a fechar a marca de verdade?

Vou fazer um link com algo lá de trás. Comecei naquela vila da Peixoto Gomide simplesmente porque um vestido meu tinha entrado na Elle. Eu tinha acabado de fazer faculdade de moda, nem sabia se queria ser estilista ainda, mas fiz esse vestido para eu usar num casamento. Não sei como, ele foi parar na mão da Susana (Barbosa, então editora) e saiu na revista. Foi assim que comecei e, por muito tempo, fui livre.

Então tem a ver com a equação quanto mais sucesso menos liberdade?

Sempre gostei de construir uma história inteira e não uma coisa só. Comecei pela roupa, mas já com essa mentalidade de trocar tudo: não só a coleção, mas a parede, a decoração, tudo. Isso era muito livre pra mim. Fechava a loja quatro dias e mudava tudo. Eu curtia muito. Curtia pensar na comida que as pessoas iam provar no meu lançamento, nos espaços onde elas iriam sentar e conversar. E depois ainda tinha a roupa. Eu nem sabia fazer roupa direito na época, muito menos imaginava que seria a rainha das estampas. 

Esse rótulo te incomoda?

Eu comprava tecidos do mundo inteiro que eram estampados, mas eu não sou só estampa. De repente você fica com aquele título… Mas no final, eu vim parar aqui justamente por causa de tudo isso.

O seu negócio tomou outra proporção quando você se mudou para aquela loja enorme na alameda Franca.

Foi em 2009 e eu estava muito empolgada de ir para um lugar maior e, finalmente, parar de fazer só a roupa e poder oferecer mais coisas. A cozinha tinha um chef, no andar de cima tinha até um quarto pra ser hotel, isso muito antes do airbnb. Era um lugar pra comer, deitar, conversar… Eu respirava isso e era o que eu queria. Só que o fato é que é muito difícil fazer isso sozinha e a moda engole você de seis em seis meses. Querendo ou não, tem que ter coisa nova pendurada o tempo todo, por mais atemporal que seja. As pessoas andam em calendários e eu era muito cobrada: já chegou o verão? E isso aumentou com as redes porque passava a mensagem de que, se você não está lançando naquela hora, parece que não está lançando nada.

E se você já estava cansada de ser obrigada a seguir esse ritmo, por que ainda foi pro atacado?

Até 2012 eu nunca tinha feito atacado. Fiquei 11 anos sem fazer e pensei: em vez de ficar no meio do caminho, entra logo no atacado, faz uma super marca, ganha dinheiro e depois vai fazer o que tiver vontade. O fato é que aí virou outra coisa. Vendia para 35 lojas multimarcas, mas elas não levam as coisas a sério. As pessoas não respeitam, querem receber na hora que elas querem, desistem de comprar em cima da hora. Quando me dei conta, estava fazendo um mix de produtos de 250 modelos e nada agradava porque uma quer mais curto, outra quer a estampa tal. Eu acho uma falta de respeito. Até porque muitas delas viajam e lá fora elas não fazem isso com a Balmain. Ela não vai chamar o cara e falar: ‘encurta isso aí’. Ou: ‘você não quer fazer mais barato pra mim?’ Por que não respeita? Daí chegou uma hora em que me perguntei: por que você tá fazendo isso? Então cansei e comecei a diminuir tudo.

Fechar as lojas e a fábrica?

Não fazia mais muito sentido. Lá trás eu tinha uma equipe, tinha minha cama dentro do meu escritório. A gente varava a noite, dormíamos lá, trocávamos muito e de repente tudo foi ficando muito rígido, cartão de ponto, você não se relaciona mais com as pessoas. E no meio de tudo isso, eu era a dona… O mundo era quase que só sorridente pra mim, mas eu sabia que era fake. E isso me incomodou. Eu queria fazer a loja virar outra coisa, queria fazer restaurante, co-working, alugar para outras pessoas, mas aí pensei: sabe o que você vai virar? Uma grande zeladora tendo que olhar pelos produtos dos outros além do seu. E larguei. Comecei a pensar em uma estratégia pra fechar essa história de uma maneira legal.

Foto: Christian Maldonado / Cortesia
Foto: Christian Maldonado / Cortesia

E como as pessoas receberam?

Acho que foi super bem aceito. Tem um monte de gente que está com vontade de fazer isso, mas não consegue. Até mesmo porque a gente não tá conseguido entender como passar por essa transformação atual. Ninguém acorda do dia pra noite sustentável. E isso me irrita um pouco porque eu também quero fazer coisas legais e sustentáveis, mas como do dia pra noite? E cortei já na raiz, na forma como estava levando as coisas, correndo atrás do rabo, daquele jeito que, se você parar, vai ser atropelada. E no fim eu não precisava parar, era só me retirar dessa roda.

Um sistema que não te representava mais…

Sabe, cada um tem um caminho, gosta de viajar de um jeito. Tem gente que quer colocar uma mochila e subir uma montanha, tem gente que precisa viajar de primeira classe. O negócio é que o meu jeito de verdade não era daquele jeito.

Bom, isso nos traz ao seu novo momento, dos Jardins para um apartamento na República (centro de São Paulo).

Sempre amei o centro da cidade. Venho pra cá e me sinto a cidadã do planeta. Tô me sentindo uma adolescente: tirei meu bilhete único, peguei minha mochila, comecei a andar de tênis, essa sou eu. Comecei a me encantar pela ideia de poder ser livre de novo. Mas com embasamento profissional que eu tenho e nessa vibe de ‘vamos fazer juntos’. Virou antisséptico pra mim o que era minha vida.

“Tirei meu bilhete único, peguei minha mochila, comecei a andar de tênis, essa sou eu. Comecei a me encantar pela ideia de poder ser livre de novo” 

E o que você está fazendo? Ainda quer ser estilista?

Eu não quero mais ficar correndo atrás do rabo pra ser uma grande estilista. Eu fui estilista durante um tempo e fui muito bem. Aprendi a fazer. Quero continuar, mas de outra maneira.

Como você vai trabalhar os seus lançamentos? 

Vou continuar fazendo as roupas numa escala menor e bem quando eu quero. As pessoas gostam muito dos meus quimonos, então estou fazendo uma edição dos signos e todo mês eu lanço 20 quimonos pro signo que entra. Então até setembro do ano que vem tenho uma coleção de quimonos que é fixa. Também vou fazer uma coleção cápsula de final de ano. Dai faço vendas exclusivas para cerca de 30 clientes. E aqui pode trazer vinil, ficar bêbada, não se trata mais só de uma compra. 

E agora você finalmente vai conseguir juntar tudo num lugar só: fazer as roupas, louças, decoração…

Já estava fazendo as minhas louças e as roupas de cama. Também tenho uma linha de tecidos decorativos e uma coisa que adoraria emplacar é algo que chamo de interior dos interiores. Ir na sua casa, naquele canto que você escolher e, junto com a pessoa, transformar o lugar. Na vila fiz mais de 14 decorações diferentes. E aqui comecei a fazer de novo, é algo que amo. 

Foto: Christian Maldonado / Cortesia
Foto: Christian Maldonado / Cortesia

Pensa em vender essas linhas de decoração em alguma loja?

Sim, na Dpot, na Amoreira… Agora eu posso começar a fazer coisas diferentes que não precisam ser em série.  Também vou fazer workshops, mas de formas criativas. Tem vivência de karaoke até. Eu não quero ficar aqui mostrando slide. E também não quero estar nesse lugar do ensinar, quero fazer junto.

E o que as pessoas estão achando dessa mudança?

Algumas pessoas falam: ‘mas o centro é sujo, tem mendigo…’. Ah filha! Você só quer conviver com os mendigos de Paris e Nova York? Lá pode, né? Sabe de uma coisa? Então não vem. As pessoas andam de metrô em Londres, mas tem um recalque com nosso próprio país… Aqui é pra pessoa entrar e ficar a vontade. Quer sentar no chão, senta como quiser. Quando você é estilista, as pessoas exigem que você viva um universo estético 24 horas, tudo tem que ser perfeito. Não dá pra você? Então não venha. Eu não vou mais me adequar naquilo que as pessoas querem. Aqui é a minha casa. Quero ter 20 pessoas aqui uma vez por mês que quiserem agregar. Eu posso tanta coisa agora, é uma delícia. O que foi, foi. Agora vamos pra frente. Comecei a ficar inspirada e feliz de novo com essa maneira de trabalhar.

“Quando você é estilista, as pessoas exigem que você viva um universo estético 24 horas. tudo tem que ser perfeito, mas Eu não vou mais me adequar àquilo que as pessoas querem. Não dá pra você? Então não venha”

O quanto tem de desconforto em se jogar em uma nova fase?

Eu tenho um coração gigante com a palavra Coragem. Quando mudei da vila para a alameda Franca, já tinha que ter coragem. E agora é coragem de cabeça pra baixo! É desconfortável. Aqui é lindo, mas até chegar aqui foi desconfortável e ainda é porque estou começando uma história. É como a carta do Louco, que vem andando segurando uma flor em direção a um precipício, sem nem se dar conta. Pode ser que ele caia. E ele pode cair num abismo ou encontrar uma lagoa lá embaixo, um mundo mágico. Uau. É aflitivo, só que é de verdade.

E você está num prédio que é um marco de São Paulo, o edifício Esther. 

Precisou vir um gringo pra olhar aqui e adorar (o Olivier Anquier, que abriu um restaurante no rooftop). Graças a ele, o prédio está sendo revigorado. O Esther é o primeiro duplex modernista da América Latina. Di Cavalcanti morava na cobertura, Tarsila Amaral ciceroneava a boate lá de baixo, Caetano morou aqui… Também foi onde nasceu o Masp e o IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil).

Olha, quando entro aqui nesse apê, me sinto a rainha do mundo. Sempre digo que a sua ampulheta virou no dia que você nasceu. Quanto de areinha você tem, a gente não sabe. Então tem que ser verdadeiro, é como eu olho a minha vida.

Foto: Christian Maldonado / Cortesia
Foto: Christian Maldonado / Cortesia

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