Quem foi Zuzu Angel: tudo que você precisa saber sobre a estilista

Representando a brasilidade, Zuzu fez carreira internacional  como precursora do movimento de moda politizada

Colagem de Zuzu Angel / Gabriel Fusari
Colagem de Zuzu Angel / Gabriel Fusari

Nos 522 anos de Brasil, poucos criadores de moda tiveram impacto semelhante ao de Zuzu Angel na história do país. A costureira, como preferia ser chamada, foi uma das primeiras estilistas a enfrentar barreiras impostas pelo conservadorismo e machismo da época.

Zuleika de Souza Netto nasceu em 05 de junho de 1921 no estado de Minas Gerais. Ela começou a costurar desde nova para ajudar nas despesas de casa. Confeccionando roupas para amigas e parentes, quando adolescente, o trabalho com a costura ajudou a aperfeiçoar suas técnicas. Em 1943, Zuzu se casou com o norte-americano Norman Angel Jones, funcionário do governo dos Estados Unidos que veio ao Brasil comprar cristais.

INÍCIO DA CARREIRA

Três anos depois, a costureira se muda com o marido para a Bahia,  onde pode enriquecer seu repertório com as referências do sincretismo religioso.  Zuzu se deixou levar pelas características estéticas, que foram fundamentais para criar sua assinatura, dando o tom para sua criação com cara de Brasil. Em 1946 nasceu seu primogênito Stuart Edgar Jones que após nascer no estado baiano, se mudou com a família para o Rio. No ano seguinte, Zuzu aumenta a família, tendo mais duas filhas, Ana Cristina e Hildegard Beatriz.

O Brasil passava por uma transição e voltava seus olhos para a indústria hollywoodiana e a moda que as estrelas do cinema usavam, enquanto a influência européia na cultura brasileira diminuia, em razão da Segunda Guerra Mundial. 

Nessa mesma época, Zuzu começou a costurar saias para a vizinhança de Ipanema, que em parte eram seus conterrâneos mineiros. Com a posse de Juscelino Kubitschek, em 1956, logo fez amizade com a primeira dama Sarah Kubitschek e juntas participaram da Fundação Pioneiras Sociais, que fazia uniformes para crianças carentes em época escolar.  Quatro anos mais tarde, ela se separa do marido, mas continua com o sobrenome de casada por já ter se tornado seu nome artístico.

Fotografia de modelos inspirados no cangaço Brasileiro, coleção International Dateline Collection (1971 / Foto: Instituto Casa Zuzu Angel
Fotografia de modelos inspirados no cangaço Brasileiro, coleção International Dateline Collection (1971 / Foto: Instituto Casa Zuzu Angel

MERCADO INTERNACIONAL

Com a expansão de seu network, ela se mudou para uma casa maior onde abriu seu atelier e recebia em casa clientes da alta sociedade. Juntando suas economias, Zuzu pode abrir uma loja em Ipanema, que atraiu a atenção de artistas internacionais que visitavam o Rio de Janeiro como Liza Minelli e Joan Crawford. Sua irreverência mesclada com sua brasilidade eram impressos em suas criações que continham materiais inovadores. Utilizando tecido de colchão, chita, seda e renda, ela fez suas maiores criações que traziam frescor às ruas da capital do estado Guanabara.

A estilista trouxe outras inovações para a época, como substituição de aviamentos de metal por fragmentos de bambu e de madeira e um zelo na forma com a qual apresentava seu produto, através de embalagens personalizadas e já pensando na moda pronta para comprar e vestir. 

Na virada da década de 1960 para 1970, Zuzu Angel já era respeitada no Brasil e muito bem conhecida no exterior. Uma de suas grandes estreias em solo norte-americano foi quando lançou sua coleção na loja Bergdorf Goodman onde vendeu roupas exclusivas feitas no Brasil. 

Propaganda apresentando bolsa e logo pela marca de Zuzu Angel, | imagem: acervo Instituto Zuzu Angel
Propaganda apresentando bolsa e logo pela marca de Zuzu Angel, | imagem: acervo Instituto Zuzu Angel

ASSASSINATO DE STUART 

Em 1971, Zuzu já era um fenômeno nas Américas e estava deslanchando na carreira internacional, enquanto o Brasil vivia sob o regime ditatorial. No mesmo ano, seu primogênito Stuart desaparece e ela não consegue ter notícias concretas sobre seu paradeiro. Sua esperança era de que ao menos ele estivesse preso por sua ligação com o comunismo.  Mesmo tentando fazer conexões com pessoas do exército e do governo como forma de se blindar contra a repressão, Zuzu não pode impedir a morte do filho. 

No dia das Mães, a costureira recebeu uma carta de Alex Polari (ex-camarada de militância e companheiro de carceragem de Stuart) detalhando que seu filho havia sido torturado e morto pelo regime militar na Base Aérea do Galeão.  Stuart, que era estudante de economia na UFRJ, fazia parte do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8) que praticava a luta armada contra o governo na época. Ela tentou buscar incessantemente o paradeiro do corpo, inclusive, tentando falar com um secretário do governo dos Estados Unidos que esteve de visita no Brasil.

Família de Zuzu Angel, Ana Beatriz, Hidegard e Stuart. / Foto: Instituto Casa Zuzu Angel
Família de Zuzu Angel, Ana Beatriz, Hidegard e Stuart. / Foto: Instituto Casa Zuzu Angel


DESFILE PROTESTO 

Mas sua maior ousadia como forma de crítica ao governo e ao sumiço de jovens foi a produção da coleção International Dateline Collection III, desfilada em Nova York. 

Durante os anos de chumbo no governo de Emílio Médici, existia um decreto que proibia falar mal do país estando em território estrangeiro. O desfile aconteceu na Casa do Cônsul brasileiro na cidade, que em teoria seria território brasileiro no exterior. Dessa forma, ironicamente Zuzu não violou o decreto.

Nele, vestidos com bordados delicados de anjos chorando, palhaços vestidos de militares, sol quadrado e preso atrás das grades representavam a intervenção violenta do militarismo. Eram referências infantis e angelicais que traduziam com brutalidade e tristeza da realidade do Brasil. No final, enquanto Zuzu distribuía santinhos com a imagem do filho, o clássico vestido de noiva foi substituído pelo vestido de luto, feito com rendas e um cinto com 100 crucifixos. 

Mais tarde, a apresentação foi reconhecida como o primeiro desfile protesto da história. Mas no Brasil, por conta da censura, ele foi documentado pela imprensa como inspirado em livros infantis, ignorando seu verdadeiro foco: a crítica ao regime militar vigente e a perseguição política. Anos mais tarde, Zuzu conseguiu documentos que provaram a morte de seu filho pelo Estado brasileiro. Ela então enviou uma carta de alerta para amigos que dizia “se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”.  Seu receio não foi à toa: na madrugada de 14 de abril de 1976, Zuzu sofreu um atentado, tratado na época como um acidente de carro, que acabou tirando sua vida. Seu Karmann-Ghia que ela dirigia capotou e caiu de uma altura de dez metros, na saída do túnel Dois Irmãos, que hoje leva seu nome. Seu assassinato por agentes da ditadura militar foi reconhecido pela justiça brasileira apenas 44 anos depois, e hoje ela inspira movimentos dentro da moda que defendem a democracia e repudiam o autoritarismo na política.  

Assista o desfile protesto realizado em Nova York em 1971 abaixo.


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