Uma mensagem sobre o presente

O que a moda sustentável pode aprender com o mundo em 2021

Foto: @repense_a_moda
Foto: @repense_a_moda

Por Eloisa Artuso*

A moda é constante movimento, é expressão, ela é individual e coletiva e é feita por pessoas para pessoas. Assim como nós, somos constante movimento, do tempo e da vida. E o que faço agora com meu tempo e minha vida é seguir esse balanço. Ao encerrar um importante ciclo profissional (me desligando da direção do Fashion Revolution Brasil, onde estou desde 2015 e sou cofundadora) aproveito para fazer algumas reflexões sobre o presente.

Foram 7 anos de trabalho intenso e incansável, de muitos aprendizados, trocas, diálogos fundamentais com muitas pessoas e organizações e de contato com uma rede de pessoas incríveis que têm esperança, assim como eu, em uma moda – e um mundo – melhor. Hoje, mais do que nunca, vejo que a moda precisa de pessoas corajosas, fortes e sensíveis, dispostas a mudar todo um sistema. E que essa estrutura só se transformará se criarmos uma verdadeira revolução.

Não esqueçamos disso: revolução. Para quem deseja o mundo um lugar onde todas as pessoas caibam, de forma justa, plural e em harmonia com a natureza, sabemos que o caminho é esse. Sabemos também que a revolução só acontecerá se for coletiva, e que a educação é seu alicerce. A educação desperta o olhar crítico, a criatividade, a autonomia do pensar e, por isso, é libertadora.

Educação como ferramenta de transformação

Encontrei na educação um potencial enorme de transformação e libertação. Paulo Freire defendia que educadores progressistas têm “a responsabilidade ética de revelar situações de opressão” e que é seu “dever criar meios de compreensão de realidades políticas e históricas que deem origem a possibilidades de mudança”. Assim, acredito que processos de aprendizagem abrangentes sejam ferramentas poderosas para a criação de sistemas mais sustentáveis, pois são capazes de transformar a sociedade, garantir a democracia e promover igualdade e justiça.

Somos diversos e o mundo deve refletir essa pluralidade. As modas, os modos, as narrativas, as histórias – e as pessoas – precisam, definitivamente, aprender a conviver em harmonia, entre si e com a natureza, em um mesmo tempo e espaço, sem que haja dominadores e dominados, opressores e oprimidos.

A oportunidade de trazer reflexões sobre ética e sustentabilidade para os processos de design em um espaço de formação, onde se alia criatividade ao pensamento crítico, permite trazer para o presente o que parece está por vir. Desse modo, somos capazes de rever e propor teorias e práticas melhores e mais desejáveis, não só para a moda, mas para o planeta.

O conceito de Bem Viver (Buen Vivir) nos ajuda a refletir sobre a idea de desenvolvimento (infinito e a todo custo) sob o qual vivemos hoje, em contraponto ao resgate das diversidades, valorização e respeito ao outro. Como defende Alberto Acosta, o Bem Viver faz parte de um processo decolonizador, que permite apoiar a luta e resistência de povos originários por suas nacionalidades e identidades, assim como de outros grupos e populações marginalizadas e periféricas, em harmonia com a Natureza.

Processo de aprendizagem são extensos, contínuos e promovem profundas mudanças internas e externas nas pessoas. Por isso, é preciso que seja holístico, com o objetivo de formar não só técnicos e especialistas, mas seres humanos éticos e cidadãos conscientes, com habilidades para lidar com as demandas complexas que nos cercam.

Por exemplo, como falar em moda sustentável sem levar em conta dimensões de gênero, classe e raça e suas intersecções? Sobretudo em um país extremamente desigual como o Brasil? A sustentabilidade é para quem? Quando temos 75% da mão de obra da nossa cadeia têxtil e de confecção formada por mulheres e 55% da população de nosso país se declara preta e parda é impossível não levar esses dados para o centro de uma discussão crítica sobre a cultura e a indústria da moda.

A luta pela Revolução da Moda segue sendo urgente e fundamental

Não podemos nos acostumar ou nos distrair com o discurso fácil as mensagens rasas de quem transforma a sustentabilidade em produto. Precisamos questionar, pressionar e construir um presente desejável. O nosso grande poder é ter sempre o presente em mãos, pois esse é o único espaço de tempo que ocupamos de verdade – o presente. É o que fazemos neste instante que importa. E perceber isso muda a nossa perspectiva de encarar o mundo.

Nós excedemos os limites da Terra. Com aproximadamente 7,6 bilhões de habitantes e uma contínua obsessão por crescimento econômico infinito em um planeta finito, alimentamos um processo que coloca em risco nossa própria sobrevivência. Estamos consumindo o equivalente a 1,7 planeta, ou seja, no dia 29 de julho de 2021, a demanda da humanidade esgotou os recursos naturais que a Terra seria capaz de regenerar no período de 1 ano. Desta data em diante entramos em dívida com o planeta, que passou a usar sua “reserva” do que estaria destinado às gerações futuras para suprir suas próprias demandas.

A indústria da moda carrega sua parcela de responsabilidade em meio a este cenário. Além de ser considerada uma das grandes poluidoras do mundo, ela também expõe trabalhadoras e trabalhadores a um risco cada vez maior de exploração em suas cadeias de fornecimento globais. Então, é preciso que estejamos verdadeiramente atentos a essa realidade.  As futuras gerações devem estar preparadas para lidar com os desafios atuais de forma realista, sistêmica, empática e ética.

O presente aponta uma urgente transição ecológica, a oportunidade de imaginarmos novos marcos civilizatórios, desconstruir velhas estruturas de poder e recriar as formas de relacionamento entre pessoas e com a natureza para permitir que o planeta possa se regenerar. Regenerar a natureza é regenerar a nós mesmos. Não podemos voltar no tempo, mas podemos fazer as pazes com a natureza e coexistir de forma mais harmoniosa. Este é o momento, a hora certa é sempre agora. A mudança é necessária.

Por justiça de gênero e climática na moda

Estamos presenciando a eminência da crise climática que reflete, além da crise ambiental, problemas sociais, políticos e econômicos. E essas questões afetam de forma desigual as mulheres em todo o mundo. Então é impossível falar de combate às alterações do clima sem evidenciar uma batalha contra a desigualdade de gênero, assim como de classe, raça, cultura, localização geográfica etc. já que as alterações climáticas são percebidas e vivenciadas de formas diferentes pelas pessoas em diferentes contextos.

Compreender a crise climática sob uma perspectiva transversal e de gênero ajuda a entender as vulnerabilidades específicas, assim como traçar estratégias que possam alcançar as mulheres e outras populações minoritárias. Assim a justiça climática traz consigo um importante processo de desconstrução do patriarcado, ao combater o que o próprio sistema machista, classista, racista e capitalista estruturou ao longo dos tempos.

Acredito muito na força que os diferentes movimentos vêm ganhando ao longo das décadas como forma de, entre inúmeras pautas, apoiar mecanismos voltados para a redução de desigualdades e promover oportunidades de desenvolvimento de mulheres como forma de assumirem espaços de decisão e elaboração de novas políticas públicas voltadas à gênero e clima. Muitas já movimentam espaços e encabeçam discursos que possibilitam repensar e construir novas lideranças, antes, limitadas aos homens. 

Enxergo esses processos de reflexões, aprendizagens e ações como uma maneira de hackear o sistema da moda com criatividade e responsabilidade, possibilitando a construção coletiva de um mundo melhor. Nem sempre será fácil, mas como afirma bell hooks “é preciso entender que a voz libertadora irá necessariamente confrontar, incomodar, exigir que ouvintes até modifiquem as maneiras de ouvir e ser”. Nesse sentido, a possibilidade de criar conexões maiores e mais profundas entre pessoas e natureza será libertadora e revolucionária. Repensar estruturas, resgatar valores, histórias e saberes será essencial para uma real mudança de paradigma que, necessariamente, acontecerá por meio de um movimento coletivo e plural, de corações, mãos e vozes fortes o bastante para construir um novo presente.

Eloisa Artuso tem interesse especial na luta por justiça de gênero e climática. É designer, coordenadora do Índice de Transparência da Moda Brasil, cofundadora do Instituto Fashion Revolution Brasil e professora de Design Sustentável do IED-SP. Com um trabalho que se encontra no espaço entre sustentabilidade, educação e design, lidera projetos que incentivam profundas transformações na indústria da moda. Siga @eloartuso


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