NFT: O Que É, Porque Vale Milhões e Como Ela Pode Impactar a Moda?

o vestido da the fabricant, vendido por 9.500 dólares
o vestido da the fabricant, vendido por 9.500 dólares

Por Matheus Fernandes

Em março, o artista Beeple ganhou as manchetes ao vender uma obra de arte no formato NFT (Non-Fungible Token) por 69 milhões de dólares. O americano, que colaborou com a Louis Vuitton em uma coleção em 2018, é o principal expoente da febre dos NFTs, tendência de explicação técnica difícil que chacoalhou o mercado de arte e já influencia a moda.

Os tokens não-fungíveis são ativos virtuais registrados na blockchain, tecnologia que mantém registros de posse descentralizados e imutáveis. É essa possibilidade de de ser dono de uma obra que tornam os NFTs populares entre artistas visuais e músicos, de Grimes ao Supla, e que abrem caminhos para seus usos na moda.

a colaboração do artista digital Beeple com a Louis Vuitton. fotos: cortesia
A colaboração do artista digital Beeple com a Louis Vuitton. fotos: cortesia

Os NFTs podem representar imagens, vídeos, gifs ou qualquer outro tipo de informação. A principal diferença para as criptomoedas como o Bitcoin (BTC), o ativo mais famoso da blockchain, está no fato deles serem únicos e limitados, o não-fungível da sigla – se um BTC pode ser trocado por outro sem problemas, como o dinheiro, os NFTs são diferentes entre si, como uma figurinha rara ou uma bolsa de designer, por exemplo.

“Um NFT é um tipo de token que representa um ativo exclusivo. Podem ser ativos totalmente digitais ou versões tokenizadas de ativos do mundo real. Como os NFTs não são intercambiáveis entre si, eles podem funcionar como prova de autenticidade e de propriedade no âmbito digital”, explica Helena Margarido, especialista em criptomoedas da casa de análise Inversa. 

O primeiro exemplo do potencial febril dessa tendência foi em 2017 com os CryptoKitties, ativo baseado em gatos virtuais colecionáveis. Pense nos Neopets dos anos 2000 ou nos Tamagotchis do final dos anos 90, mas na forma de tokens descentralizados trocados na blockchain por dinheiro real – um deles, um gato rosa chamado Dragon foi vendido em 2018 por 600 ETH, ou R$5.7 milhões na cotação atual.

Com o aumento do interesse geral em criptomoedas e em colecionáveis – a pandemia fez disparar o preço de sneakers e cards de Pokémon – estavam dadas as condições para o atual boom das NFTs. 

Tudo virou um criptocolecionável. Lances da NBA? Uma enterrada de Lebron James foi vendida por 280 mil dólares no Top Shot, sucessor dos Cryptokitties. Memes? Uma imagem do Nyan Cat foi vendida por 590 mil dólares. Até tweets podem ser vendidos no formato: Jack Dorsey, fundador da rede, vendeu sua primeira postagem por 2.9 milhões de dólares.

Colecionáveis fashion

Um dos primeiros experimentos com a utilização de NFTs na moda foi a venda de um vestido digital feito por 9.500 dólares, em 2019. O leilão da peça foi organizado pelo DapperLabs, criador do Top Shot e dos CryptoKitties, em parceria com a marca digital The Fabricant.

A ascensão dos NFTs possibilitou o surgimento de marketplaces como o The Dematerialised, voltado para a venda de peças digitais nesse formato. As peças compradas na plataforma podem ser vestidas dentro de metaversos como o Sansar, jogo sucessor do Second Life, e o VR Chat, ambiente social baseado em realidade virtual. A integração com o Snapchat também está planejada.

A criadora do site, Karinna Nobbs, enxerga alguns propósitos para os NFTs na moda: colecionar, exibindo seus investimentos; vestir, por meio do Snapchat ou outras redes sociais; portar para games e metaversos; e trocar, vendendo as peças no mercado secundário.

A integração das marcas com os games é uma das áreas fortalecidas pela popularidade dos criptoativos. Ao comprar uma skin nesse formato seria possível utilizá-la em uma série de outros jogos, se tornando verdadeiramente dono do item, ao contrário do que ocorre atualmente – suas skins no Fortnite e no League of Legends são usáveis só nesses espaços e desapareceriam com um eventual desligamento dessas plataformas.

Essa é a proposta da Enjin, plataforma de blockchain que colaborou recentemente com a marca de moda digital The Fabricant e com a Atari em uma coleção virtual inspirada no futebol. Os itens podem ser utilizados em uma série de jogos – de servers do Minecraft a RPGs online – e eventualmente revendidos. 

No OpenSea, um dos principais marketplaces de NFTs, um robe da coleção sai por 0,25 ETH, cerca de 2600 reais. Com a explosão de interesse no formato, o vice-presidente da empresa vê a possibilidade de crescimento exponencial. “Uma quantidade imensa de desenvolvedores de jogos e apps estão nos contatando e querendo usar nossa integração”, diz Simon Kertenegoro, vice-presidente da empresa. 

>>Leia também: Tudo O Que Você Precisa Saber Sobre Moda Digital Agora

Modelos híbridos

o sneaker híbrido da RTFKT
o sneaker híbrido da RTFKT

Em fevereiro, a marca de tênis digitais RTFKT leiloou uma série de NFTs em parceria com o artista Fewo, que se esgotaram em sete minutos, arrecadando mais de 3 milhões de dólares. Os donos dos modelos virtuais vão receber uma versão física do sneaker, mostrando a aposta em um futuro híbrido entre o virtual e o físico. Você pode usá-lo no Snapchat ou em um jogo, mas também tem uma versão para eventos offline. 

A Nike registrou em 2019 uma patente semelhante, os CryptoKicks. Os tênis nesse formato seriam itens digitais colecionáveis, trocáveis e até recombináveis entre si. 

Esses tokens podem ser inteiramente virtuais ou criados a partir de tênis físicos, garantindo a autenticidade dos calçados no mercado reseller. Essa é outra das grandes promessas dos NFTs em relação à moda, resolver o problema da pirataria. Uma das plataformas na vanguarda desse uso é a Arianee, empresa francesa de certificação digital que utiliza os NFTs para garantir a autenticidade de artigos de luxo. 

Funciona assim: cada artigo físico, um instrumento musical, por exemplo, ganha uma versão digital única que funciona como um certificado de autenticidade. Esses tokens podem ser armazenados em carteiras digitais e trocados junto do produto original. Entre as empresas que adotaram esse protocolo estão algumas das gigantes do mercado de relógios, como a Breitling e a Vacheron Constantin, mas nomes da moda também figuram entre os clientes.

“Graças à blockchain, cada evento na vida de um objeto tem sua hora e data estampada, da confecção aos materiais, ao histórico de compra…”

Frederic Montagnon

“A pirataria na indústria de luxo funciona porque a única diferença está no objeto físico em si, não há registros da autenticidade do produto. É aqui que os NFTs entram. Graças à blockchain, cada evento na vida de um objeto tem sua hora e data estampada, da confecção aos materiais, ao histórico de compra, à possíveis reparos e mais”, responderam o presidente Frederic Montagnon e o CEO Pierre-Nicolas Hurstel.

“Os NFTs permitem ao dono provar sua propriedade, ser assegurado que seu objeto é autêntico e acessar informações e serviços relacionados àquele objeto. Todo o ciclo de vida é rastreável na blockchain. Eles vão além dos certificados de autenticidade tradicional, eles são adaptados ao mundo digital”, completam.

Cripto de luxo

Para as grandes marcas, além de resolver o problema da autenticidade, os NFTs ainda oferecem um controle sobre o mercado de revenda, oferecendo porcentagens de cada transação posterior. Em uma palestra sobre jogos e o futuro da moda organizada pelo TikTok, o vice-presidente executivo da Gucci, Robert Triefus, disse que considera esse movimento como algo inevitável.

Para Helena, os NFTs fazem sentido para quaisquer indústrias em que existam exemplares raros ou únicos. “Coleções raras de designers famosos ou exemplares raros de uma bolsa Chanel poderiam ser tokenizados, por exemplo”.

Nobbs sugere um caminho para essas empresas: começar lançando NFTs de momentos históricos, como um desfile ou uma campanha, antes de digitalizarem peças antigas e atuais para o formato. A própria Gucci já trabalha com itens digitais, como o recente tênis Virtual 25, mas ainda sem uma integração direta com os criptoativos.

Impacto ambientalntfs_-o-que-sao-porque-valem-milhoes-e-como-podem-impactar-o-mercado-da-moda-3

A maior crítica aos NFTs é baseada em seu impacto ambiental. Os mesmos fatores que tornam os criptoativos interessantes – sua imutabilidade e descentralização – também causam um consumo de energia muito superior às transações convencionais.

O processo para introduzir uma nova informação na Ethereum, rede usada pela maioria das transações, requer a realização de cálculos matemáticos complexos que demandam equipamentos avançados e um alto consumo de energia elétrica. Esse processo é conhecido como Proof-of-Work. Algumas das transações de NFTs teriam um gasto energético similar ao consumo de uma família em um país desenvolvido durante dois meses.

“Existem outras formas de mineração que requerem bem menos energia e já são utilizados por outros criptoprotocolos. Isso, associado à uma mudança global de mentalidade a respeito da necessidade de mudança da matriz energética para energia limpa, nos trazem a ideia de que em um futuro próximo tenhamos os impactos ambientais indiretos decorrentes dessa atividade mitigados”, diz Helena.

Nobbs também acredita em uma mudança para protocolos mais limpos e eficientes. Ela lembra que no caso da moda, os produtos digitais costumam ter um impacto ambiental muito menor que os físicos, ainda que faltem pesquisas sobre o ciclo de vida das peças virtuais.

 


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