Globo de Ouro: o que assistir para se preparar para a premiação que rola domingo, 28.02

the-crown

Por Luiz Henrique Costa

Por hora nada será como antes e pouco se sabe –  ou não existem muitas certezas ainda – sobre como funcionarão efetivamente os formatos e repercussão da primeira temporada de premiações do cinema em tempos de pandemia que será aberta pelo Globo de Ouro neste domingo (28.02). Certo é que não teremos um pit lotado de fotógrafos se acotovelando pelo melhor click das celebridades em vestidos de Alta-Costura no red carpet, nem chuvas de aplausos para discursos acalorados de atores engajados em temas como política, discriminação, feminismo, equidade racial e salarial.

Mal se curava a ressaca do réveillon e lá vinha o Golden Globe Awards abrindo a temporada de premiações com as indicações da Associação de Imprensa estrangeira e que acontecia desde 1961 no chiquérrimo Hotel Bervely Hilton em Los Angeles.

Nesse ano a premiação foi adiada, como não poderia bem diferente, e os indicados foram anunciados por Sarah Jessica Parker e Taraji P. Henson em evento transmitido digitalmente. Diferente do Oscar, o Globo de Ouro premia também séries e minisséries da TV e tem uma subdivisão principal sempre controversa entre filmes e atuações nas categorias de drama e comédia/musical. É no fundo uma maneira compreensível de atrair mais assunto e olhares para si.

Muita água corre por esse rio entre as duas premiações e nem sempre o Globo de Ouro é um termômetro certeiro do Oscar, na verdade uma parte dos profissionais do setor torce o nariz para ele, mas é sempre uma premiação divertida de se ver e onde é possível acompanhar as celebridades mais descontraídas, tomando drinks, jogando beijinhos no ar e às vezes até fazendo piadas sobre os questionáveis vencedores e as trocas de favores nos backstages para que eles chegassem até o palco, como a recente polêmica envolvendo a produção de “Emily in Paris” em matéria publicada no jornal Los Angeles Times.

Separamos alguns destaques que estão disponíveis nos serviços de streaming no Brasil e que achamos que valem a pena serem vistos.

 

FILME

Pieces of a Woman

Ellen Burstyn é uma atriz que merece ser enaltecida.

Você provavelmente se lembra dela em cenas fortes e enternecedoras como no monólogo de “Requiém para o sonho” em que ela revela, já em uma espécie de delírio cortante, a certeza de que em breve irá brilhar em um famoso programa de TV usando um simbólico vestido vermelho. Ou talvez os mais corajosos se lembrem melhor da sua apavorada atuação lutando contra o desconhecido para salvar a filha possuída pelo demônio em “O Exorcista”.

Com quase noventa anos – e espero que bem vacinada e segura –  Ellen acaba de ser esnobada na indicação como melhor atriz coadjuvante no Globo de Ouro pelo seu belíssimo trabalho  em “Pieces of a Woman”. No filme Ellen vive Elizabeth Weiss, mãe da protagonista vivida pela talentosa  – e merecidamente indicada a Premiação – Vanessa Kirby.

Mas por que falar da Ellen Burstyn se ela foi esnobada?

Porque ela encabeça aqui de novo um dos monólogos mais emocionantes que você verá no cinema (ou no caso desse ano caótico, na tela da sua TV mesmo). Com certeza uma daquelas cenas inesquecíveis que não sairão da sua cabeça.

Todos os nosso elogios à veterana não diminuem em nada a atuação brilhante de Vanessa Kirby no papel de Martha, uma mulher que lida, a seu modo, com um trágico acontecimento pessoal. O sofrimento de Martha nunca é externalizado, suas dores e angustias estão sempre carregadas no olhar, guardadas dela mesma. Em alguns momentos quase é possível recordar da sua inconstante e complexa personagem nas duas primeiras temporadas de The Crown vivendo Margareth, a irmã da Rainha Elizabeth II.

Os primeiros trinta minutos de “Pieces Of a Woman” são um plano-sequencia angustiante que servirão de base para tudo o que virá a seguir e é interessante ver como o filme toca em um tema polêmico sem jamais cair no julgamento do que é certo ou aceitável. As atuações e o roteiro nos faz enxergar com sensibilidade a conturbada relação entre mãe e filha e o modo como cada uma usa os seus próprios escudos diante de uma fatalidade e é por isso que é filme que merece duas horas da sua atenção no fim de semana.

E, claro, o espetáculo que é assistir uma atriz como a Ellen Burstyn atuando.

Disponível no Netflix.

O Som do Silêncio

Esse é mais um filme onde podemos ver o trabalho de um ator em sua potência e técnica máximas.

Riz Ahmed, que concorre na categoria de melhor ator, vive o baterista de uma banda de heavy metal que está perdendo a audição.  O que pode ser pior para um músico do que perder um instrumento tão valioso para a sua arte? Em cada gesto de Ruben, seu personagem, não temos  dúvida sobre esse sofrimento. Soma-se a história uma relação conturbada com um histórico de  uso de drogas e eis que temos um dos melhores filmes de 2020.

Sensível e dramático, com um trabalho de edição de som que é um espetáculo a parte, esse filme vai mexer em um ponto que vai te deixar dias pensando sobre ele.

Disponível no Amazon Prime.

Soul

A gente não precisa ser criança para amar o que a Pixar faz. Ao contrário, ás vezes podemos até duvidar se algumas animações melancólicas, e lindas, como Wall-E, são realmente destinadas para os pequenos.

O filme “Soul”, que está disponível na Disney +, acompanha a experiência fora do corpo do professor de música Joe, que não quer de jeito nenhum saber de morrer.

Dirigido por Peter Docter, o mesmo de Divertidamente, a animação se supera por ser ainda mais humana, ambientada em partes na NYC estilizada com táxis amarelos atravessando o caminho do personagem e um plano pós vida tão colorido e surrealista que são de encher os olhos.

Existencialista e cheio de ensinamentos, a cereja do bolo do filme se dá quando Joe cruza o caminho com uma personagem que, ao contrário dele, já entregou os pontos faz tempo.

Lindo.

Disponível no Disney Plus.

Mank

É queridinho e o grande recordista de indicações e na categoria mais cobiçada da noite: Melhor filme de drama.

Deu uma cochilada entre uma cena e outra? Tudo bem, não se preocupe. Esse é o tipo de trabalho mais segmentado, de arte, com visual e direção caprichadíssimos do David Fincher, mas com um ritmo muito específico. Um trabalho importante onde Fincher exercita todo o seu potencial criativo em desenvoltura máxima como fizeram Martins Scorcese com “O Irlandês” e Alfonso Cuaron com “Roma” em anos anteriores, todos com carimbo de produção da Netflix. Com esses grandes diretores a plataforma de streaming ganha cada vez mais prestígio e se posiciona com um catálogo que vai do popular ao cult e com isso assume um status revolucionário na história do cinema,.
O problema ás vezes é que o resultado pode ser uma viagem muito particular do diretor, como em “Mank”. Um trabalho que recebeu diversas indicações e que a crítica adora, mas atinge somente um perfil de assinante que é ultra cinéfilo e entende as referências a “Cidadão Kane”, de 1941, considerado por muitos o melhor filme de todos os tempos.

“Mank” funciona como homenagem à Hollywood das décadas de 30/40 e é baseado na história do criador de Cidadão Kane, Herman J. Manke, vivido aqui pelo cada vez melhor Gary Oldman.

Se você espera um trabalho mais eletrizante de Fincher com nos anteriores Clube da LutaGarota Exemplar ou A Rede Social, talvez ache Mank um filme boring e esquecível. Vai de cada um.

Disponível no Netflix.

SERIE

Nada Ortodoxa

Essa série curtinha da Netflix é um achado que você vai devorar em poucas horas.
Esther foge da comunidade judaica hassídica em que vive nos Estados Unidos, em um casamento precoce, infeliz e arranjado pela família, e segue em busca de um novo recomeço na Alemanha. É curioso pensar que o país que foi o berço de um dos capítulos mais hediondos da nossa historia hoje seja o destino libertador para tantos jovens.

E é lindo enxergar os detalhes de um mundo tão novo sob os olhos de Esther.

A série é inspirada na autobiografia da Deborah Feldman, publicada em 2012, e para quem também ama leitura segue também como dica.

Disponível no Netflix.

The Crown

Talvez desde Game of Thrones, poucos fenômenos da atualidade podem ser comparados ao gigantismo de The Crown. Tudo é impecavelmente pensado: Direção, figurino, cenografia, iluminação, atuações. Absolutamente nada é fora de lugar.

The Crown é uma aula sobre se como se produzir uma grande série e nessa quarta temporada, com a introdução dos arcos dramáticos da Princesa do povo, interpretada pela assustadoramente semelhante atriz Emma Corin e pela trajetória da primeira-ministra durante a década de 1980 no Reino Unido, Margareth Tatcher, ficou ainda melhor.

Não se sabe exatamente o que é verdade ou ficção, mas certo é que essas duas mulheres são peças fora do tabuleiro da Monarquia. Se você estava fora da órbita da Terra nos últimos anos e não assistiu a série, bastam alguns minutos acompanhando para entender o porquê de tantas indicações.

Disponível no Netflix.

 


Relacionados


Veja Também

Assine a newsletter do FFW

Seja o primeiro a ter acesso a conteúdos exclusivos. Nós chegaremos ao seu email semanalmente quando tivermos algo realmente cool e relevante para dividir.

×