Os 7 de Chicago, da Netflix é um drama de tribunal entre os favoritos ao Oscar

cena de Os 7 de Chicago
cena de Os 7 de Chicago

Por Luiz Henrique Costa

A polêmica Guerra do Vietnã que desde Apocalypse Now, 1979 – o célebre filme do Copolla em que tudo deu certo e errado ao mesmo tempo – é um tema recorrente em diversas produções hollywoodianas. Na verdade raro é o ano em que pelo menos um filme de guerra não figure nas indicações principais do Oscar. Só no ano passado foram dois: 1917 e Jojo Rabbit

Vários são os fragmentos que podem ser extraídos para um roteiro de filme de guerra, que vão desde o campo de batalha até os bastidores políticos, passando pelas estratégias de resolução e as sequelas traumáticas deixadas em um povo.  Todos os pontos-de-vista culminam em resultados geralmente emocionantes e no sangrento horror pelo qual passou o Vietnã não poderia ser diferente. Hoje sabemos que só em 2005 documentos secretos revelaram que os ataques envolvendo uma embarcação americana no Golfo de Tonquim nunca foram de fato confirmados, portanto a intervenção defendida pelo então presidente americano Lyndon Johnson foi além de perversa e cruel, totalmente injustificável.

copolla dirigindo as cenas de Apocalypse Now
Copolla dirigindo as cenas de Apocalypse Now

O Vietnã é um país de paisagens fabulosas que incluem as quase duas mil ilhotas de calcário da Baía de Ha Long e está localizado na Península da Indochina. Em 1954, após anos de conflito contra o domínio francês, o país garantiu a sua independência durante a Conferência de Genebra, mas dividido em dois: O Vietnã do Norte, comunista, e o Vietnã do Sul. O país teoricamente seria reunificado no ano seguinte através de eleições definidas no acordo, eleições essas que não aconteceram e deram lugar a confrontos cada vez mais frequentes entre os dois territórios com apoio da União Soviética no Norte e dos Estados Unidos no Sul. 

A Guerra do Vietnã durou de 1959 a 1975, deixou o país em ruínas e o tornou epicentro de uma batalha em que mais de um milhão de pessoas perderam a vida, entre a população civil do país e cerca de 60 mil soldados enviados pelos EUA para combate. Até hoje um número enorme de vietnamitas mutilados pelos horrores da Guerra podem ser vistos em diversas cidades do país, além das sequelas deixadas por um tipo de armamento químico usado pelo exército americano com o objetivo de desmatar florestas e plantações e o efeito da contaminação fez uma geração de crianças vietnamitas nascerem com má-formação durante anos. 

Nesse período inúmeras manifestações contrárias ao massacre aconteceram em diversos territórios e temos no catálogo da Netflix dois ótimos filmes que abordam o tema de maneiras diferentes e que são fortes concorrentes ao Oscar: Os 7 de Chicago, concorrendo em seis categorias, incluindo melhor filme, e Destacamento Blood, com uma injusta única indicação por Melhor Trilha Original. 

OS 7 DE CHICAGO 

cena de Os 7 de Chicago, da Netflix
cena de Os 7 de Chicago, da Netflix

Baseado em fatos reais, o filme de Aaron Sorkin é um drama de tribunal e se baseia no impressionante julgamento em que um grupo de manifestantes contrários à guerra foi acusado de conspiração contra o Governo americano, em 1968. O filme tem seis indicações ao Oscar, incluindo de melhoor filme.

Sabe-se que o objetivo do grupo foi o de organizar uma manifestação totalmente pacífica e que aconteceria em Chicago, sede da Convenção Nacional dos Democratas naquele ano. Devido ao fervor polêmico do assunto e que as manifestações naturalmente prometiam, os líderes do movimento procuram as autoridades locais  demandando infraestrutura e segurança aos manifestantes para que tudo acontecesse com o máximo de tranquilidade. Todos os pedidos foram negados pelas autoridades e nesse ponto a edição do filme é muita acertada alternando os momentos do julgamento com o que de fato aconteceu nas ruas.

Os pacíficos manifestantes anti-guerra se tornaram então alvo do uso desproporcional das forças policiais, que contavam ainda com uma autorização prévia do prefeito de Chicago para atirar e matar qualquer pessoa vista com coquetel molotov ou algo semelhante na mão. Assustadoramente atual. Após a manifestação e confronto, oito pessoas foram detidas: Abbie Hoffman, Jerry Rubin, David Dellinger, Tom Hayden, Rennie Davis, John Froines, Lee Weiner e Bobby Seale. O último teve posteriormente o seu julgamento em separado dos demais e por isso o título do filme se resume ao número sete. 

Os 7 de Chicago tem um elenco de peso, com destaque para Sacha Baron Cohen, que concorre ao Oscar na categoria de melhor ator coadjuvante no papel de um dos réus e membro fundador dos Yippies, o Partido Internacional da Juventude. O ator acerta muito no tom da interpretação, carregando no olhar aquele deboche natural que só quem já protagonizou comédias rasgadas como Borat seria capaz de fazer. O personagem de Sasha, ao lado do de Jeremy Strong, tem o espírito provocativo e transgressor de um ativista nato e não pretendia baixar a cabeça no tribunal para o juiz linha-dura, interpretado também brilhantemente pelo ator Frank Langella. 

Aliás, linha-dura não seria exatamente o termo correto para o juiz Julius Hoffmann: Ele foi acima de tudo tendencioso e perverso, um dos grandes vilões no julgamento. Em uma das cenas mais perturbadoras do filme, o juiz em questão manda amordaçar um dos réus, Bobby Seale, cofundador do Panteras-Negras, para que não fosse mais interrompido. E esse foi um triste e revoltante momento que de fato aconteceu. 

Embora ainda no finalzinho da década de 60, o figurino tem fortes características da década de 70 com ar mais hippie, colorido, romântico e idealista. Nascia ali uma revolução do que seria visto anos depois em Woodstock e o choque entre o clima sisudo do tribunal com a figura dos manifestantes mais despojados pelas ruas de Chicago, usando cores, calças boca de sino, franjas, coletes e cabelos desalinhados é muito interessante. Muito justa seria uma indicação de Melhor Figurino para Susan Lyall facilmente no lugar do trabalho caricato da alemã Bina Daigeler por Mulan. 

Vale lembrar que 1968 foi um ano turbulento e revolucionário, marcado além da Guerra no Vietnã, pela morte de Martin Luther King e do então presidente americano, Robert F.Kennedy.

Os 7 de Chicago pode soar superestimado em certos pontos e a não indicação de Aaron Sorkin ao prêmio de melhor direção é compreensível – talvez tivessem mais sucesso sob o comando de Steven Spielberg, como era a proposta inicial – ainda assim é um filme sensível e atual, com belíssimas atuações e teor altamente político sobre um passado assustador que ainda nos permeia na atualidade. 

Como uma aprovação bastante significativa por parte da crítica no Rotten Tomatoes, Os 7 de Chicago é um forte candidato ao prêmio de melhor filme nesse Oscar,  concorrendo também nas categorias de Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Original, Melhor Canção, Melhor Fotografia e Melhor Montagem.

 

DESTACAMENTO BLOOD

cena de Destacamento Blood, do diretor Spike Lee
cena de Destacamento Blood, do diretor Spike Lee

Destacamento Blood, filme de Spike Lee que estreou com certa timidez no último ano mesmo ocupando o Top 5 de destaque no catálogo da Netflix por algumas semanas, conta a história de quatro veteranos de Guerra que retornam ao Vietnã com o objetivo de levar de volta aos Estados Unidos os restos mortais de um quinto companheiro perdido em combate. O grupo concilia à missão uma espécie de busca a um valioso tesouro deixado para trás no país asiático. 

A assinatura de Lee segue inconfundível seja em frames com imagens de personagens importantes da história e informações contundentes sobre eles ou alternando os formatos das janelas de exibição entre presente/passado e abusando de ironias com filmes de ação besteiróis como Rambo. 

A linguagem poderosa dos diálogos, outra marca fixa no trabalho do diretor, pode ser conferida em cenas como na em que o personagem do ator Chadwick Boseman, que faleceu precocemente no último ano, convence os companheiros a guardar e resgatar o tesouro no futuro “Os negros foram os primeiros a morrer pelos EUA. Desde o nosso irmão Crispus Attucks no maldito massacre de Boston. Morremos pelo país desde o início esperando que um dia nos valorizassem. Mas só nos deram um chute na bunda. Que se foda. Os EUA nos devem isso. Construímos a merda toda (…) Vamos tomar esse ouro em nome de cada soldado negro que não sobreviveu. Cada irmão e irmã levados da Mãe África para Jamestown, Virgínia, em 1619. Vamos dar o ouro ao nosso povo.” 

Em um dos tristes fatos alertados no roteiro de Lee, ele nos revela que embora 12% da população dos EUA seja negra, a proporção de soldados afro-americanos enviados para combate foi de 1/3 do total do contingente na guerra, um cenário de morte quase iminente. 

A trilha sonora composta por Terence Blanchard acaba de ser indicada ao Oscar e de fato a música no filme funciona como um personagem importante da narrativa semelhante ao trabalho anterior que desenvolveram em conjunto em Infiltrado na Klan. Spike Lee mais uma vez dá um recado certeiro em uma aula de história e um epílogo de tirar o fôlego.   


Relacionados


Veja Também

Assine a newsletter do FFW

Seja o primeiro a ter acesso a conteúdos exclusivos. Nós chegaremos ao seu email semanalmente quando tivermos algo realmente cool e relevante para dividir.

×