30.01.2017 / Cultura / por

Cinema, moda e cultura pop: o universo peculiar de David Lynch

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Por Luisa Graça

Filmes, programas de TV, esculturas, pinturas, documentários, música pop, videoclipes. O conjunto da obra de David Lynch é extenso e diverso, mas cada um dos formatos, narrativas e contextos que explora têm seu inconfundível toque autoral. O trabalho de Lynch, especialmente no cinema, é tão peculiar que desafia definições. Surrealista, sombrio, provocativo, radical, assustador, encantador, não-convencional… Tudo isso diz respeito ao seu universo, mas nenhum desses adjetivos consegue descrevê-lo adequadamente. Isso porque o cineasta não faz filmes para serem sequer decifrados quanto mais definidos – são viagens “psico-cinemáticas”. Torna-se necessário, então, um termo próprio: lynchiano.

Desde 2006 sem rodar um novo longa-metragem, o diretor lança em maio a terceira temporada de Twin Peaks, série criada por ele e Mark Frost nos anos 90 sobre a investigação do assassinato de uma jovem numa cidade pequena do noroeste americano. A série (que depois chegou a render um filme) abriu o caminho para a atual era de ouro da TV ao emprestar um olhar cinematográfico para a telinha. Como um portal para o subconsciente coletivo em que paisagens de conformidade cultural são cenário para comportamentos depravados ou simplesmente subversivos, Twin Peaks e tantos outros filmes de Lynch são tão delirantes quanto reveladores.

Seu primeiro longa-metragem, Eraserhead (1977) bizarro e hipnótico, narra a história de um casal e seu bebê mutante. Veludo Azul (1986), estrelado por Kyle McLachlan, Laura Dern, Isabella Rossellini e Dennis Hopper, transformou a maneira que o público pensa sobre a América comum das cidades pequenas de classe média, retratando a perversidade que pode haver por trás de uma vizinhança tranquila, cheia de casas com cerquinhas brancas e jardins bem cuidados. Uma ideia que viria a influenciar um monte de filmes e séries como Marcas da Violência, de David Cronenberg. Com violência estilizada abordada em tom totalmente novo, o filme acabou por servir como referência para o debut de Quentin Tarantino, Cães de Aluguel.

Coração Selvagem, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1990, também retrata as entranhas de cidades pequenas com boas doses de violência estilizada, mas no formato de road movie, acompanhando a trajetória de Sailor e Lula, uma versão insólita de namoradinhos da América, interpretados por Nicolas Cage e Laura Dern.

“Há sempre a superfície de algo e, abaixo disso, algo totalmente diferente acontecendo. Como elétrons que se movimentam sem que os vejamos. Isso é o que filmes fazem, eles nos mostram esse conflito”, afirmou o diretor, fã do cineasta surrealista Luis Buñuel, em uma entrevista de 1986.

Nicolas Cage e Laura Dern em Coração Selvagem ©Reprodução
Nicolas Cage e Laura Dern em Coração Selvagem ©Reprodução

Lynch nasceu numa cidadezinha no estado de Montana, em 1946. Viveu no além-mundo de Idaho, Washington, Virginia e é pra lá que ele aponta quando quer retratar uma fatia disfuncional dos EUA. Passou um tempo na Europa para estudar com o pintor expressionista Oskar Kokosha antes de ingressar na Academia de Artes da Pensilvânia, onde cursou cinema. “Quando era criança, minha mãe não me dava livros de colorir, ela pedia para o meu pai trazer páginas em branco do trabalho dele, assim eu poderia desenhar livremente”, contou durante uma visita a São Paulo, em 2008, para divulgar o livro Em Águas Profundas – Criatividade e Meditação, sobre meditação transcendental, técnica que pratica desde os anos 1970. “Mais tarde, quando conversava com um amigo, ele me disse que o pai era pintor; pensei que fosse de paredes, achava que só existia pintores de paredes. Foi quando resolvi estudar artes. Um dia, olhando um quadro que fiz de folhas verdes, ele começou a ter movimento na minha cabeça. Percebi, então, que queria fazer filmes”.

Em 1971, Lynch mudou-se para Los Angeles, onde encontrou outro pano de fundo para as suas histórias. Seus longas mais recentes – provavelmente os mais sombrios e menos lineares de sua filmografia, Estrada Perdida (1997), Cidade dos Sonhos (2001 – considerado o melhor filme do século 21 por críticos de diversos veículos) e Império dos Sonhos (2006) formam um tríptico L.A.. Filmes com representações um tanto surrealistas de personagens embarcando em jornadas perturbadoras em busca de suas identidades perdidas, onde as imagens são muito mais importantes do que a narrativa. Os dois últimos, aliás, expandiram os limites de quão psicologicamente complexas personagens femininas podem ser no cinema, com mulheres torturadas no cerne das histórias como são as personagens interpretadas por Laura Harring e Naomi Watts em Cidade dos Sonhos e Laura Dern em Império dos Sonhos. Apesar do setting tenebroso da trilogia não-oficial, Lynch é fã declarado da cidade que adotou como lar.

Naomi Watts em Cidade dos Sonhos ©Reprodução
Naomi Watts em Cidade dos Sonhos ©Reprodução

“Eu amo Los Angeles. Cada parte da cidade tem uma atmosfera diferente. E às vezes essas atmosferas alimentam um filme e te dão ideias. A luz é o que traz as pessoas aqui: a temperatura e a luz. Mas a luz é mágica porque para mim é como a felicidade – é uma luz que te dá energia e uma sensação de que tudo é possível. É importante para mim sentir essa luz”, diz ele, que garante que é um cara “pra cima” e tem uma rotina, no mínimo, curiosa: bebe 15 xícaras de café por dia, medita duas vezes ao dia, almoça o mesmo prato de legumes todos os dias e tem basicamente dois tipos de look no armário (camisa branca e calça cáqui e terno preto e camisa branca).

Assim como esculpiu-se um cineasta “pioneiro e dissidente”, “o mais importante da contemporaneidade” segundo o jornal britânico The Guardian, Lynch é também uma espécie de homem da renascença moderno, um artista completo. Compôs sinfonias com Angelo Badalamenti, quem assina muitas das suas trilhas como os incríveis temas de Twin Peaks; exibiu pinturas e esculturas em galerias e até mesmo no Museu D’Orsay; publicou livros de fotografia; fez ponta de ator em filmes e séries de TV como a comédia da HBO, Louie; criou uma linha de roupas esportivas; gravou discos com a participação de cantoras como Karen O e Lykke Li; abriu um clube noturno só para membros em Paris; dirigiu videoclipes e propagandas grifadas; criou a David Lynch Foundation que busca curar “stress traumático e melhorar performance em populações de risco” através do ensino de meditação transcendental.

É na meditação, aliás, que ele encontra a chave para tanta criatividade. Sempre compara ideias a quebra-cabeças ou peixes. Elas estão aí, basta você focar e pescar. “Se você quiser pegar um peixinho, pode ficar em águas rasas. Mas se quer um peixe grande, terá de entrar em águas profundas”, fala em referência à meditação. “A primeira coisa necessária é o desejo. Eu nunca tenho a ideia para um filme de uma vez, elas vêm em fragmentos”.

“A maioria dos cineastas começa com a história e depois descobre como ilustrar essa história. Ele começa com uma imagem e a história é secundária. É uma apreciação quase dadaísta da imagem. Você vai curtir muito mais David Lynch se apreciar a primazia da imagem”, explica Kyle McLachlan, o Agente Cooper de Twin Peaks.

Enquanto aguardamos ansiosamente pela estreia da terceira temporada, relembramos aqui 7 ocasiões em que as imagens autorais e o universo lynchiano cruzaram com a moda.

Kenzo – Inverno 2014

Em colaboração com Humberto Leon e Carol Lim, Lynch criou um labirinto espelhado como cenário e também compôs a trilha sonora do desfile. “Quis mistério e emoção andando juntos”, explicou o diretor sobre seu ponto de partida para a abordagem. Na coleção, saias balão estruturadas e estampas diferentes sobrepostas: listras sobre florais sobre zigue-zagues e, voilá, um efeito hipnótico.

Campanha inverno 14 Kenzo ©Reprodução
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Comme des Garçons – Verão 2016

Rei Kawakubo escolheu a música Blue Velvet para embalar um desfile inspirado por “bruxas e mulheres incompreendidas preteridas da sociedade”, bem como a personagem de Isabella Rossellini em Veludo Azul.

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Altuzarra – Verão 2017

Sailor e Lula, o casal louco e cool de Coração Selvagem, foram as principais inspirações para Joseph Altuzarra criar uma coleção cheia de estampas, camadas, babados e detalhes em vermelho e rosa que remetem aos personagens do filme de Lynch.

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Raf Simons – Inverno 2016

Em vez de música, uma conversa entre Angelo Badalamenti e David Lynch serviu como trilha sonora para o primeiro desfile de Raf Simons como estilista de sua marca epônima. Com jaquetas e suéteres com patches de letras, tais quais as de colegiais americanos, a coleção foi justamente baseada na estranheza de cidades pequenas da classe média dos EUA como a que dá nome à série Twin Peaks.

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Lady Blue Shanghai – Dior

A pedido de John Galliano, Lynch criou um curta-metragem de 15 minutos escrito, dirigido e editado por ele, como parte da campanha de 2010 da bolsa Lady Dior. Um vai-e-vem entre sonho e realidade estrelado por Marion Cotillard e com trilha moody. Poético, atmosférico e surreal – bem lynchiano.

Prada – Inverno 2013

As duas heroínas de Cidade dos Sonhos foram referência para a campanha de inverno 2013 da Prada fotografada por Steven Meisel em que o cenário é um teste de elenco. O look é de Rita, personagem de Laura Harring, mas o mise-en-scène evoca a aspirante à atriz interpretada por Naomi Watts.

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Gucci by Gucci – 2007

Raquel Zimmerman, Natasha Poly e Freja Beha Erichsen dançam ao som de Heart of Glass. Voyeurismo chique e dourado dirigido por Lynch.


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