01.06.2017 / Cultura / por

Com O Estranho Que Nós Amamos, Sofia Coppola reconta uma história por viés feminino e é premiada em Cannes

O elenco de O Estranho Que Nós Amamos ©Reprodução
O elenco de O Estranho Que Nós Amamos ©Reprodução

O melhor conselho que Sofia Coppola ouviu de seu pai Francis Ford Coppola foi simples. “Não fique esperando alguém lhe dar permissão para fazer alguma coisa. Faça”. Não seria estranho se uma garota de vinte e poucos anos não fosse levada a sério pelos chefões de um estúdio de cinema, ainda mais no final dos anos 1990 quando mal falava-se sobre representatividade feminina atrás ou à frente das câmeras. Seguiu o conselho à risca. Fez dois curtas e, em 1999, lançou o primeiro longa As Virgens Suicidas, produzido pela American Zoetrope, produtora independente de seu pai. É claro que integrar uma das dinastias mais cool e poderosas de Hollywood facilitou muita coisa, mas se o sobrenome do diretor de Apocalypse Now e da trilogia O Poderoso Chefão deu um empurrãozinho para executivos e público prestarem atenção em Sofia, foi seu olhar distinto sobre o tédio, alienação e, especialmente, a psique feminina que fez com que ela se tornasse uma das diretoras mais cultuadas do nosso tempo.

Em 2004, foi a terceira mulher indicada a um Oscar de Melhor Direção, por Encontros e Desencontros; e agora faz história novamente como a segunda mulher a vencer o prêmio de Melhor Direção nos 70 anos de história do Festival de Cannes com seu novo trabalho, o sexto longa em sua filmografia, O Estranho Que Nós Amamos – e fez questão de agradecer a diretora Jane Campion, a única mulher no hall de vencedores da Palma de Ouro. “As pessoas dizem que a representatividade da mulher no cinema hoje já é muito diferente do que era no passado e não é bem assim. A gente precisa apoiar cineastas mulheres”, comenta Nicole Kidman, uma das estrelas do filme e que, em Cannes, assumiu publicamente o compromisso de fazer um filme dirigido por uma mulher a cada 18 meses.

Girl gaze

O thriller-drama indicado à Palma de Ouro de 2017 é uma adaptação do romance de Thomas P. Cullinan, que virou filme em 1971, estrelado por Clint Eastwood, e narra a história de um soldado desertor da Guerra Civil americana que, machucado, encontra abrigo num internato de meninas. Desta vez, o estranho é interpretado por Colin Farrell, que contracena com Kidman, no papel da dona da escola, Elle Fanning, que teve seu big break em Um Lugar Qualquer, quarto longa de Sofia, e Kirsten Dunst, protagonista de As Virgens Suicidas e Maria Antonieta (filme vaiado em Cannes, mas amado por nós <3).

Sofia e seu elenco ©Reprodução
Sofia e seu elenco ©Reprodução

Enquanto a história do filme de 1971 era conduzida pelo personagem masculino, no de Sofia a trama é apresentada pelo ponto de vista das mulheres que o recebem. Isoladas numa área rural, em Virginia, apenas algumas alunas e professoras ainda permanecem no Seminário Fansworth e todas elas têm algo em comum: não veem um homem há muito tempo. Mas se o soldado John McBurney pensa que estar rodeado de southern belles é a realização da fantasia de qualquer homem, o que ele eventualmente descobre é que a fantasia, na verdade, é delas. A presença dele desperta nelas raiva e desejo e são os conflitos delas que a diretora convida o público a ver. A adolescente atrevida, a dona da escola lidando com os limites do seu instinto maternal e seu próprio desejo, e a professora, que sempre se sentiu enclausurada, aquém do seu potencial (aqui um tema comum nos filmes Sofia – Kirsten Dunst que o diga), e mesmo relutante vê no soldado sua passagem para o mundo lá fora.

“Toda vez que temos um recorte de um grupo de mulheres, dinâmicas diferentes aparecem… Eu tentei tirar o primeiro filme da cabeça e imaginar como eu contaria essa história, começando do início”, explica Coppola. Críticos, ainda que divididos, apontam que este é o filme mais narrativo e comercial (e sagaz) da diretora até então e também que é o que menos se relaciona com seus trabalhos anteriores, tão contemplativos e cheios de ondas sensoriais. Mas parecem concordar que se há algo que cola O Estranho… ao restante da sua filmografia é o olhar feminino.

O look

Da fonte dos créditos ao cenário, trilha sonora e, obviamente, figurino, os filmes de Sofia tem uma linguagem estética peculiar, sempre informada por um senso sofisticado de cultura pop. Em O Estranho Que Nós Amamos, a trilha é bem discreta, assinada pela banda francesa Phoenix (cujo frontman é marido da diretora), e fotos de William Eggleston e Jo Ann Callis servem como referência para a direção. Quem assina os looks dos personagens é a amiga de longa data da diretora e colaboradora desde Um Lugar Qualquer, Stacey Battat. “Todos nós da equipe sentamos para conversar sobre o mundo que criaríamos para este filme e queríamos uma coisa bem etérea e diáfana, com tons pastel e luz espargindo pelas janelas e árvores”, explica a figurinista, que usou acessórios Eugenia Kim e Ten Thousand Things para adornar as personagens e teve como principais referências tecidos encontrados no departamento têxtil do Metropolitan Museum e pinturas do artista neoclássico Jean-Auguste Dominique Ingres.

©Reprodução
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Battat desenhou quase todas as roupas do filme mantendo-se fiel à época (1860), mas sem prender-se tanto a ela, dando uma voz às personagens femininas através das roupas também. Num período em que a maioria das mulheres se vestia de preto – de luto pelos mortos em guerra, as mulheres do internato aparecem sempre em tons claros e suaves; tão angelicais quanto progressivas, mas ainda assim com certa austeridade. “Eu queria contrastar o soldado inimigo, muito masculino e exótico, a esse mundo feminino delicado”, conta Sofia, que lança ainda neste ano o filme da sua montagem da ópera La Traviatta e um fashion film em parceria com a Cartier. “O ponto central de O Estranho… tem a ver com disputas de poder entre homens e mulheres”.

O Estranho Que Nós Amamos estreia no Brasil em 10 de agosto.


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