27.08.2015 / Cultura / por

Diretor de "Dior e Eu", Frédéric Tcheng fala em entrevista ao FFW que quer fazer ficção

Frédéric Tcheng durante as filmagens em imagem cedida exclusivamente ao FFW ©Divulgação/Imovision
Frédéric Tcheng durante as filmagens em imagem cedida exclusivamente ao FFW ©Divulgação/Imovision

Quando cheguei ao terraço do hotel Unique, em São Paulo, para a entrevista com o diretor do filme “Dior e Eu”, que estreia hoje no Brasil, Frédéric Tcheng estava em uma área aberta, apesar do dia chuvoso, sentado a uma mesa, com as pernas cruzadas, despretensiosamente de lado, acompanhado apenas de um maço de cigarros. De fala muito calma e num tom baixo de voz, ele fumou dois cigarros em 18 minutos de conversa, quando contou ao FFW que fechou contrato com a Dior para a realização do filme antes mesmo de a grife ter definido que Raf Simons seria o novo diretor criativo da marca.

O inglês perfeito do francês de origem oriental denunciava que havia passado uma temporada em Nova York, onde estudou cinema depois de ter se graduado em engenharia civil, área para a qual provavelmente jamais voltará, já que apenas fez o curso porque ainda não tinha descoberto o que queria fazer na vida. Durante a entrevista, Frédéric falou sobre os dois meses em que ficou na cola de Raf, que preparou uma coleção em tempo recorde e sob muita pressão, cerca de um ano depois da saída conturbada de John Galliano da maison. Mas também falou sobre os seus sentimentos e anunciou que, apesar de debutar na direção com um filme sobre moda, não quer voltar ao tema tão cedo e planeja se aventurar pela ficção.

+ Documentário “Dior e Eu” mostra bastidores do primeiro desfile de Raf Simons para a grife

+ Raf Simons assume direção criativa da Dior

Em sua primeira visita ao Brasil, ele contou que gostou muito do parque Ibirapuera — nome que tentou duas ou três vezes pronunciar e acabou desistindo — e ainda se arriscou a recomendar uma exposição em um dos prédios assinados por Oscar Niemeyer (a mostra “Invento, As Revoluções que nos Inventaram”, na Oca). E certamente terá que voltar ao Brasil em outras ocasiões já que, depois de São Paulo, ele iria ao Rio de Janeiro a passeio, onde queria ver “tempo bom, o oceano e a praia”. Leia abaixo a entrevista com Frédéric Tcheng, diretor de “Dior e Eu”.

Como foi o contato com a Dior? Eles te contataram ou você procurou por eles?

A Dior entrou em contato comigo alguns meses antes de começarmos a gravar, apesar de que nós os convidamos para uma sessão de “Diana Vreeland — The Eye Has to Travel”. Foi quando eu conheci alguém na Dior, ele gostou do filme e me ofereceu um acesso inacreditável para a chegada do novo estilista. E foi assim que tudo começou. Por meio da Dior, conheci Raf Simons, quando seu nome foi anunciado. Eu não sabia até eu abrir o jornal e ver lá.

Então o seu acerto com a Dior foi antes do anúncio de Raf Simons?

Sim, foi antes. Foram vários meses de conversação sobre o que poderíamos fazer, eles me perguntaram como eu iria abordar o tema e eu lhes falei claramente “não estou interessado em filmes de promoção da marca, então será um filme pessoal, algo menos interessado na marca e mais interessado nas pessoas, porque é assim que eu trabalho, e também que será um filme, eu não estou interessado em um vídeo, só quero ter o tempo e o acesso necessários para realmente contar uma história, uma longa história”. Eu senti que a chegada de Raf Simons, que eu não conhecia na época, mas que estava realmente torcendo que fosse Raf Simons, por si só já tinha as premissas dramáticas que justificavam 90 minutos. Eu achei que havia tantos elementos que eram dramaticamente interessantes.

Como foi a participação da Dior? Eles apoiaram o filme?

Sim, eles têm sido grandes apoiadores. Como te falei, eles meio que abriram as portas para mim, eles queriam participar da realização do filme, o que é um pouco complicado para mim. Como cineasta, quero ser independente, mas entendi muito rápido que eles não me dariam acesso se eles não tivessem uma mão nisso em alguma forma. Então eu apenas me protegi legalmente. Uma coisa boa sobre a França é que o diretor tem muita liberdade, muita independência criativa. É algo que, na lei francesa, você não pode alterar. Então, eu pesei os prós e os contras e, como disse antes, falei detalhadamente sobre o que eu gostaria de fazer e sobre o que eu não queria fazer, para ter certeza que nós estávamos afinados.

Você acha que o resultado seria diferente se fosse um filme independente?

Eu estava interessado em fazer um filme pessoal, algo que refletisse meu ponto de vista, não o ponto de vista da marca. Isso que é a independência. Eu queria ter certeza de ter espaço suficiente para criar. Como um cineasta, você não quer que lhe digam o que fazer.

Então neste caso você considera que você era independente?

Criativamente sim.

Então o envolvimento da Dior não afetou o resultado do filme?

Não, o filme é exatamente do jeito que eu queria que fosse, focando na jornada íntima, não se preocupando nos aspectos de promoção.

No filme, aparecem momentos muito íntimos e você captou os sentimos de Raf Simons e da equipe que trabalha com ele. Qual foi sua estratégia? Como você conseguiu se aproximar deles e captar essas emoções em momentos muito delicados de suas vidas?

Minha estratégia é estar lá o tempo todo (risos). Filmar tanto quanto puder.

E com isso eles se acostumam com você (risos)?

Com isso, eles se acostumam com você, e você estará lá quando esses momentos acontecerem. Qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento. Você precisa estar muito atento ao que está acontecendo, pode ser a menor coisinha, mas que na verdade está cheia de emoção. Acho que eu estava sempre tentando estar debaixo da pele deles e entender seus sentimentos. Isso é parte da estratégia. Outra parte da estratégia é construir uma conexão com o objeto, construir uma relação e um sentido de confiança que, quando eles estiverem vulneráveis, não se sentirão explorados por você. Eu sou sempre compreensivo, é assim que eu trabalho. Quando estou filmando, estou completamente em sintonia com meus assuntos, sentindo totalmente o que eles estão sentindo. É como me preparo para filmá-los. Claro que, na ilha de edição, você tem que dar um passo atrás e pensar no que você filmou e trazer sua própria voz, separar a sua voz da voz do seu objeto. Fazer as filmagens é completamente emocional, instintivo, você precisa sentir com os sentimentos deles.

Quando Raf lhe pediu para desligar a câmera, você acha que aquele foi o momento em que você conquistou a intimidade necessária?

Raf não me pedia para desligar a câmera com muita frequência. Como eu filmava tanto, a toda hora, estávamos o tempo todo nos observando, mas a gente nunca se falava. Tivemos uma longa conversa no início, para que eu pudesse convencê-lo a me deixar ficar porque ele não queria se comprometer. Ele disse “você pode ficar por uma semana e vamos ver o que acontece”, e durante aquela semana nós tivemos uma conversa muito séria sobre suas reservas e seus medos. Depois disso, eu fico lá, fico observando ele, ele fica me observando, temos pequenas trocas. É quase como um flerte, você tem que conhecer a pessoa, mas em pequenos toques. Eu preciso meio que me tornar invisível, então tento mandar vibrações, mas não necessariamente ter uma relação ativa com a outra pessoa. É algo que faço de forma natural, não penso muito nisso, é como eu sou. Se eu gosto de alguém, estarei mandando essa energia. Foi o que aconteceu com Raf, naturalmente construímos uma relação, uma confiança.

E sobre a cena antes do desfile, em que ele se mostra extremamente vulnerável? Você esperava algo assim?

Eu estava rezando, não rezando porque não sou religioso, mas estava torcendo que algo acontecesse, porque eu não sabia se tinha um filme até Raf mostrar sua vulnerabilidade para a câmera. Eu tinha muito elementos, mas eu não tinha o coração do filme, e estava preocupado com isso. Mas no dia do desfile, vendo ele se abrir e ser tão vulnerável, tudo fez sentido, eu tinha o núcleo emocional do filme. Para mim, foi incrível testemunhar isso. E atrevido também, porque você não pode quebrar a confiança, você não pode ficar muito tempo. É por isso que, na cena do terraço, eu me afasto rapidamente, não quero explorar o momento dele. Eu quero ser respeitoso, porque é isso que você faz na vida, algo que eu faria naturalmente, mesmo se eu não tivesse uma câmera.

Você tinha a preocupação de fazer um filme para o público em geral ou você não se importava se o resultado fosse um filme para o público especializado em moda?

Eu queria que fosse um filme para todas as pessoas, porque eu não me importo com a moda por si só, eu me importo com bons filmes, filmes que falem sobre algo além da moda, e isso é o que eu sempre aprendi a fazer, tanto fazendo Valentino, como Diana Vreeland. Além disso, as pessoas com quem eu trabalho não se importam realmente, não são pessoas do mundo da moda. São pessoas normais, pessoas do cinema, esse é o meu  mundo. É natural para nós, para o nosso ponto de vista, não focar apenas na moda, mas nos elementos humanos.

Você se formou em engenharia civil e depois partiu para o cinema. Por que acabou optando pelo cinema e por que filmes de moda?

Cinema porque eu sempre fui fascinado por filmes. Quando eu era adolescente, o filme fornecia um mundo para escapar, uma forma de ver o mundo de um jeito diferente. Sempre fui atraído por viajar na minha mente, e o filme te dá acesso a muitas experiências diferentes e cria um senso de intimidade, você se sente mais próximo de outras pessoas por meio dos filmes. Eu sempre fui cinéfilo. Levou anos para eu perceber que poderia fazer disso uma carreira, e é por isso que eu fiz engenharia civil primeiro. Mas nunca fiz planos de estar na moda. Eu estava de alguma forma envolvido com moda, mas não com filme, que é a minha paixão. E aconteceu assim, comecei a trabalhar no “Valentino — The Last Emperor”, que foi uma aventura enorme, aprendi tudo sobre documentário e sobre moda. O filme foi bem-sucedido, então comecei a receber ligações. As pessoas ligavam e perguntavam “você estaria interessado em fazer isso, em fazer aquilo”. Eu dizia não quase sempre, mas volta e meia você se apaixona pelo assunto e tem que fazer, é algo além da moda. Foi o caso com Diana Vreeland, e foi também o caso com Raf Simons.

Então a moda nunca foi uma paixão para você.

Não. Quer dizer, eu gosto de comprar e de me vestir (risos). Encontrei recentemente um amigo que estudou comigo no colégio — eu não o via há dez anos —, e ele disse “uau, eu nunca pensei que você era da moda”. E eu fiquei “o que isso quer dizer, que eu me vestia mal quando eu estava no colégio?” (risos).

O que você planeja para a sua carreira? Pretende continuar a fazer filmes sobre moda? E pretende continuar fazendo documentários?

Meu grande plano agora, e que pode mudar amanhã, é deixar a moda e o documentário um pouco de lado. Eu gostaria de fazer alguns filmes de ficção. Agora estou escrevendo um roteiro que não tem nada a ver com moda. É sobre um artista, mas não na moda. Estou escrevendo esse roteiro e gostaria de experimentar algo diferente. É meio chato se você fica fazendo o mesmo tipo de filme de novo, de novo e de novo. Eu tenho certeza que existem muitas histórias na moda que ainda são interessantes, mas isso não é a minha prioridade agora.

+ Assista a trecho do filme:

+ Clique na galeria para ver fotos de “Dior e Eu”.


Relacionados


Veja Também

Assine a Newsletter do FFW

Receba semanalmente no
seu e-mail nossos conteúdos
especiais e exclusivos

×