29.03.2017 / Cultura / por

Pupila de Alex Turner, Alexandra Savior fala ao FFW sobre o seu primeiro disco

©Sam Kristofski/Cortesia
©Sam Kristofski/Cortesia

Por Luísa Graça

A poucas semanas do lançamento de seu álbum de estreia, Alexandra Savior não se sente nervosa, nem tão empolgada. “Eu não sei, já faz tanto tempo que gravei esse álbum que é como se houvesse me desprendido dele”, ela diz, em entrevista ao FFW, poucos dias depois de tocar no festival SXSW. Não é bem como ouvintes, jornalistas e bloggers se sentem. Desde que a americana começou a lançar singles esporadicamente – o primeiro deles, de cara, como parte da trilha sonora da segunda temporada de True Detective, em meados de 2015 -, Belladonna of Sadness vem sendo anunciado por aí como um dos debuts mais aguardados do ano. Seu dark-pop-barra-desert-rock floreado por vocais vigorosos vem ainda com a chancela de Alex Turner, frontman do Arctic Monkeys e metade do The Last Shadow Puppets, com quem escreveu Risk (o single na trilha da série) e todas as onze faixas de seu álbum de estreia – além da ótima Miracle Aligner, que entrou no último disco do TLSP.

Alexandra tem apenas 21 anos e se mudou dos subúrbios de Portland para Los Angeles aos 18 para tentar fazer música profissionalmente. Na ocasião, sua mãe lhe deu um prazo de seis meses pra fazer a história dar certo, caso contrário teria que voltar e fazer faculdade. Meio ano parece pouco tempo, mas seu timbre peculiar fisgou a atenção dos executivos da Columbia Records e, pronto, em dois meses, ela tinha um contrato. “Foi meio chocante. Eu estava um pouco assustada, sozinha pela primeira vez, vivendo numa cidade grande. Mas ter assinado com a gravadora me deu uma certa segurança”. A label tentou colocá-la para escrever com alguns compositores, mas nenhuma parceria deu certo até Turner aparecer.

“Mal nos conhecíamos e tínhamos de fazer música juntos. E não foi coisa de uma única sessão, nos encontramos todos os dias por muito tempo”, relembra. “Era algo novo para ele também, escrever com uma total estranha. Nós dois aprendemos a escrever sobre personagens para esconder nossa vulnerabilidade. Mas depois tudo ficou mais natural”. As letras refletem os medos e inseguranças de ambos os músicos.

Alex, a quem ela se refere por vezes como Al ou “um cara de 29 anos” (hoje tem 31), não apenas emprestou seu nome para endossar uma artista nova, mas se envolveu no projeto por um ano e meio, usando todo o tempo livre que tinha para escrever as canções com Alexandra e tocar guitarra na gravação do disco dela, que conta ainda com a produção de James Ford. Também deu pinta em um ou outro show que a cantora fez em Los Angeles no último ano.

Ainda assim, a autenticidade de Savior não fica em segundo plano. “Todas essas músicas pertencem a ele tanto quanto pertencem a mim e dizem algo sobre os dois”, explica ela, que ainda frisa o processo organizado do frontman em contraste com o seu jeito mais caótico. “Essas músicas têm a digestão da Califórnia do século 21 do Alex e minha angústia feminista com toque de filme de horror”. Na mosca. Além das referências ao mestre Dario Argento e filmes japoneses – que ela atribui a uma vida social quase inexistente na época, “fiquei imersa em literatura, filmes e arte” -, tudo que há de misterioso e malicioso em Belladonna of Sadness passa pelo filtro feminino da garota.

©Elliot Lee Hazel/Cortesia
©Sam Kristofski/Cortesia

Feminismo, aliás, é um tópico que ela traz à tona algumas vezes na conversa, dizendo que tem tentado não pensar o tempo todo se o que faz ou diz vai desagradar alguém, e até quando fala sobre seu senso de estilo. “Concluí que feminismo não é algo físico. Eu pensava que roupas eram uma forma de autoexpressão. De roupas muito coloridas passei a me vestir de maneira mais sóbria, mas eu não preciso me vestir de um jeito ou de outro pra me acharem inteligente ou para parecer uma beleza tradicional ou o que for. Posso fazer o que eu bem entender. Cada mulher encontra sua própria forma de expressar feminismo”, diz ela, que cita como referências de estilo Brigitte Bardot, Iris Apfel e Jemima Kirke e anda obcecada por clogs – “porque são estranhos e barulhentos”.

Ainda muito nova, a americana se deparou com o machismo na indústria musical logo que desembarcou em LA. Tentaram explorar sua aparência e enquadrá-la num molde pop star à la Katy Perry (“ou você quer ser a Pink?”, a perguntaram – na verdade, ela está mais pra… Françoise Hardy re-vamped?). Mesmo sem conhecer bem a própria sonoridade na época, só topou assinar com uma gravadora quando teve a liberdade de manter sua “integridade artística”. “Eu sabia cantar, sabia escrever, mas precisava me desenvolver como pessoa”. A parceria com Turner a ajudou muito nesse processo, mas Alexandra ainda quer escrever um novo álbum por conta própria. “Agora que eu não tenho o Alex do meu lado, me dei conta de que nunca escrevi uma ponte numa música. Era sempre ele que fazia as pontes e eu os refrões”, conta rindo. Com suas performances magnéticas e todo o furor em torno de seu disco de estreia – e o respaldo de tanta gente legal, fica fácil acreditar que ela terá a chance de gravar muitos outros discos (e de escrever as próprias pontes, claro).

O disco Belladonna of Sadness será lançado em 7 de abril.


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