14.10.2015 / Cultura / por

Quem é a vanguarda musical que quer romper com a superexposição da era Kardashian?

O artista Daniel Dumile, do projeto Doom
O artista Daniel Dumile, do projeto Doom

Por *Apolinário, em colaboração para o FFW

Em plena era da “selfie”, desvirtuar-se do imagético para fomento cultural parece improvável, mas não é novidade, de forma alguma. Em uma prática de contracultura, alguns movimentos como a Iconoclastia Religiosa, por um viés político-religioso, salientavam a não necessidade de reprodução de divindades, numa tradução literal de: “Deus está em ti, não em representações dele.”

Um bom tempo depois, similarmente, alguns músicos fizeram deste conceito sua base inspiracional, como o duo sueco Skuedge. “Nós escolhemos ser anônimos porque queremos que os ouvintes foquem na nossa música e não em nossas personalidades. Para nós, a música fala por si só”, dizem em entrevista para a “Mixmag”.

Em contrapartida ao mercado fonográfico que vende o “pacote premium” (música + lifestyle + imagem) de artistas, os iconoclastas musicais são a vanguarda que vem romper com a era Kardashian. Não veem uma representação visual e comercial como algo necessário e reforçam o “sentir a música”, sem personificações ortodoxas. Ter o produto final sem tantos rodeios é o que caracteriza o movimento que nasceu de forma marginal e tomou proporções de massa com nomes como Daft Punk, Sleep Party People, SIA, entre outros.

No início dos anos 90, a música eletrônica tinha várias (não sei se são várias) práticas de anonimato. Produtores de tecno, por exemplo, colocavam fitas sem identificações nas caixas de correios dos críticos de música da época, fazendo surgir a tag #AnonymousDJs. Era essa a identificação de artistas como Pom Pom, Skudge e um alemão da ABC, que fez seu primeiro set completamente escondido atrás de uma cortina, em Londres.

A moda também é conhecidamente iconoclasta. Desfiles como o da Maison Martin Margiela, com máscaras cravejadas, e mesmo o clássico runway de Primavera-Verão 2001 de Alexander McQueen (veja abaixo), em que Michele Olley interpreta a “musa mascarada” em uma cúpula de vidro no centro da passarela, trabalham com o mesmo conceito de anonimato e abstração.

Para a maior parte desses artistas, a relação entre imagem e trabalho editorial são como duas paralelas que se encontram no infinito, longe das sessões do Periscope ou do Snapchat. Mas onde está a linha que margeia a iconoclastia, a música, a moda e toda essa conversa cabeçuda ? No desconhecido.

 

Gazelle Twin

Nome: Elizabeth Bernholz

Origem: Brighton

Em seu hoodie azul turquesa, Elizabeth Bernholz evoca a sensibilidade dos jovens “weirdo” do ensino médio, corroborados nos medos e anseios de aceitação e futuro.

Esconder-se em uma performance faz do weirdo sem voz uma orquestra de sintetizadores e rifles de guitarra bem harmonizados, aliados a uma percussão quase breathless. “Eu não sou acessível, realmente. Mas fora do palco e fora do traje, o oposto total se aplica”, diz Elizabeth em uma de suas poucas entrevistas.

Em “Belly of the Beast”, Gazelle exterioriza seus medos em uma série infinita de micro terremotos controlados por seu poder de telecinese em protesto ao consumismo. “Os supermercados são lugares frenéticos de desejo, dominação, classe, ganância, etc”, diz Elizabeth.

 

Sophie

Nome: Samuel Long

Origem: Londres

Encabeçando o movimento de “new dance music”, misturando house, trap e jpop, Sophie (que é um homem!) tenta traduzir com jovialidade os novos passos da música para a pista. Quando pergunto o porquê do anonimato, ele debocha: “Aqui está minha música, e é assim que eu pareço. Com o resto, ninguém se importa”.

Com uma pegada pop dançante, Sophie ganha proporções mainstream sem perder sua leveza jovem ou seu anonimato. Escondido atrás de tobogãs, Sophie lança seu primeiro EP pelo selo londrino Numbers.

 

DOOM

Nome: Daniel Dumile

Origem: Londres

Daniel Dumilem iniciou sua carreira no hip hop no grupo KMD com o seu irmão mais novo, que morreu em um acidente de carro dias antes do lançamento do seu segundo álbum. Com isso, Daniel entrou em depressão e desapareceu da cena hip-hop.

Anos depois, retornaria aos palcos colocando uma meia na cabeça em rodas de freestyling/open microfone no Nuyorican Poets Café, em Nova York. Naquele momento, ele havia assumido uma nova identidade, o MF DOOM.

Inspirado no personagem da Marvel, o MF DOOM é uma analogia ao mercado fonográfico e seus estereótipos, pois DOOM é sua persona que permeia diversos outros projetos paralelos como JJ DOOM , com o cantor Jneiro Jarel e Madvillain (com Madlib).

DOOM usa essa máscara durante os shows e não é fotografado sem ela, com exceção de raros momentos, vídeos e fotos anteriores com o KMD.

 

Rhye

Nome : Mike Milosh e Robin Hannibal

Origem: Los Angeles

“Sempre pensei que a música deve falar por si só, seu sucesso não deve ser o resultado de uma atitude projetada pelo artista”. É assim que Rhye coloca-se quando questionado sobre seu anonimato, que não possui um aspecto de protesto, mas apenas o prazer em permanecer-se livre do assédio ou até mesmo do reconhecimento de sua imagem como propulsão de sua música. “Na verdade, eu meio que gosto disso, nos sentimos muito mais humildes e fieis à música que criamos. Nunca criei música para a glória ou fama, então isso é perfeitamente adequado para nós”, afirma.

 

Burial

Nome : William Emmanuel Bevan

Origem: Londres

Burial é a tradução da melancolia do fim de um relacionamento de longa data ou a perda de alguém próximo, como o nome mesmo diz em tradução literal: enterro.

“Eu quero ser desconhecido porque prefiro estar em torno de meus companheiros e familiares do que outras coisas, mas não há nenhuma necessidade de se concentrar no anonimato”, diz em entrevista à “Wire”.

Burial saúda a tristeza em vocais profundos que perfuram o ouvido invadindo diretamente sua carga sentimental.

 

SBTRKT

Nome : Aaron Jerome

Origem: Londres

SBTRKT é o alter ego assumido pelo produtor londrino Aaron Jerome, que obteu o reconhecimento mundial pelo single “Wildfire”.

“Eu não sou a pessoa muito social para falar com DJs e fazê-los tocar minha música e não é algo que quero fazer. É mais sobre dar-lhes um sample anonimamente e ver se eles gostam ou não. Tocar ou não é uma escolha deles.”

 

DESAMPA

Nome : –

Origem: São Paulo, Brasil

O paulista DESAMPA oferece uma homenagem à cidade que o acolheu. em um breve bate-papo, DESAMPA fala um pouco do processo criativo de seu último trabalho:

De onde nasceu sua relação com a música?

Desde pequeno fui muito ligado à música, passava horas escutando e dançando. Até que um dia meus pais resolveram contratar uma professora de piano, foi aí que eu aprendi realmente a fazer música com minhas próprias mãos. Além disso, tenho um tio com uma voz incrível que sempre me dá dicas, e uma tia que cantou música lírica por um tempo, isso ajudou muito a construir minha identidade musical na infância.

Sobre o processo criativo, quais ferramentas utiliza? 

Comecei a escrever minhas músicas no piano (até hoje é o meu lugar favorito para compor), daí passei a incorporar também softwares como GarageBand, Ableton Live e Logic. O processo cada vez é diferente. Pra mim, funciona melhor não ter uma regra de composição, assim não me prendo à padrões e estéticas já utilizadas.

O nome Desampa deve-se a sua relação com a cidade?

Meu nome é uma homenagem à cidade que me deu à luz.

Logo, estar mascarado é uma representação dela – a cidade – como um arquétipo para a música?

Estar mascarado é uma maneira de proteger minha identidade e ao mesmo tempo dar vida à mais um elemento visual nas minhas apresentações.

Por que uma máscara? Alguma inspiração específica?

As inspirações vêm desde os super heróis, que eu gosto desde criança, até imagens que eu acho no Tumblr.

Quem prôduz as mascaras ?

As máscaras de caveira foram produzidas por uma artista local chamada Ligia Jeon e são feitas à mão. Tenho algumas outras que fui adquirindo com o tempo, como o goggle da KTZ.

O anonimato exerce uma função de proteção entre seu trabalho e vida pessoal ou é apenas uma forma mais direta de sua imagem dialogar com a música?

Os dois, utilizo o anonimato para as duas funções. Sou um ser muito privado e não gosto de ser exposto se não for através do meu trabalho. E esse mistério da minha imagem é um link com a música e tudo que eu produzo, deixando meu trabalho em evidência. Não sou super exposto, porque não acredito em conquistar o público através da cansativa exposição. Eu estou ali no meu canto, fazendo o que eu gosto, e aos poucos as pessoas vão se tocando e aprendendo onde me encontrar.

Em “Hue” sentimos uma leve melancolia nos acordes e em “///”, seu mais recente trabalho, temos uma performance mais dançante e animada. Como nascem as inspirações sensorias para a criação?

Elas surgem de cada fase que estou passando no momento e pelas inspirações e estímulos que estou sendo impactado também. Grande parte das minhas inspirações vêm de arquitetura, instalações, pinturas, música, moda e cinema. Para “///” eu estava morando em Nova York, e fui muito estimulado pela cidade, pela pulsação das ruas e pessoas. O ritmo mais dançante foi resultado de um pesquisa intensa de sonoridades e estética que a cidade gera nas pessoas.

Você citou a moda como inspiração. 

Atualmente estou inspirado pelas roupas e desfiles de dois designers: Yohji Yamamoto e Rick Owens.

“Waiting” é seu ultimo trabalho visual. Pode nos contar mais sobre o vídeo?

Eu queria captar uma São Paulo de um futuro não tão distante. Mas que nunca chegue a ser realmente como eu imagino. Eu queria destaque para as roupas (Der Metropol) e para as máscaras (KTZ e Ligia Jeon). No momento estou muito ligado à cor azul, por isso a fotografia do vídeo puxa bastante para essa cor. E as cenas com bike simbolizam o meio de transporte do futuro. É um dos mais velhos, mas eu sei que é a chave para a mobilidade do futuro.

Por fim, todo artista tem como princípio inspirar. O que DESAMPA quer levar até as pessoas?

Quero levar as pessoas a tentarem colocar beleza, bondade e estímulos positivos no mundo todos os dias. Com pequenas ações e gestos, com arte, música, etc. Mesmo que ninguém veja, injetar esses três elementos no mundo é necessário. E não digo beleza, como em salão de beleza, mas sim como coisas belas que melhorem o padrão de vida atual. Deixo meio vago assim mesmo, porque cada um sabe o que pode oferecer de bom, inspirador e inovador ao mundo.

 

Apolinário, artista plástico e pesquisador, aprendeu a maior parte de seus “skills” na Box1824, onde trabalhou. Ele existe em todos os espaços do mundo online e offline – mais do que humano, ele é um vírus.

 


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