Nome conhecido da cena eletrônica, L’Homme Statue prepara voo solo na música

Conversamos com o multiartista Loïc Koutana sobre a nova fase de sua carreira e o álbum solo

L'Homme Statue por Gleeson Paulino | Divulgação
L'Homme Statue por Gleeson Paulino | Divulgação

Natural de Paris, o multiartista Loïc Koutana se mudou para o Brasil aos 20 anos por amor, ele “será que posso falar isso?”, questiona, entre risadas. Ainda estudante de economia, no Brasil, Loïc foi descoberto enquanto dançava livremente e descobria a cena noturna e de música eletrônica da capital paulista, “Imagine mudar para um país que você não conhece ninguém?! Bora se jogar!” e passou a integrar como dançarino e performer a festa Mamba Negra e o grupo musical Teto Preto, que veio a fazer shows ao redor do país e até internacionalmente. Assim surgiu o L’Homme Statue. 

Posteriormente, enquanto cantava despretensiosamente em um dos backstages também foi descoberto como cantor. “Você canta?” perguntou o produtor Zopelar, um de seus colegas de trabalho no Teto Preto, ao que Loïc respondeu negativamente, “Não, você canta! Estou afirmando”. A partir daí, o artista começou a emprestar também seus vocais ao Teto Preto, além de seu corpo e espírito, através de suas performances. 

Agora, em 2021, após um sucesso estrondoso no TikTok – o artista angariou mais de 1,5 milhões de seguidores na rede social, falando de forma bem humorada sobre o choque cultural entre sua origem francesa e os hábitos culturais do Brasil – o artista anuncia sua saída do Teto Preto e dá início a uma nova fase na carreira: um álbum solo intitulado Ser, com lançamento previsto para 25 deste mês, com produção de Zopelar. O primeiro single, Do Not Tell Me, sai na próxima quinta-feira. 

Com nomes de peso da moda no time visual, o projeto tem fotografia de Gleeson Paulino, styling e beleza de Maika Mano e direção criativa de Gabriela Garcia.

Ao FFW, Loïc Koutana, ou L’Homme Statue, conta sobre sua história, as expectativas para essa nova fase da sua carreira e a sonoridade do novo álbum. 

Capa do álbum SER de Loïc Koutana | Foto: Gleeson Paulino
Capa do álbum SER de Loïc Koutana | Foto: Gleeson Paulino

Loïc, antes de tudo queria que você me contasse um pouco da sua trajetória e início na música, que foi no Teto Preto, certo?

Quando eu tinha 20 anos decidi que iria terminar meus estudos e vim para o Brasil em um intercâmbio. Fiz economia, mas não gostava muito dessa vida, queria outras coisas, e foi aí que comecei a conhecer a noite de São Paulo, as festas de rua,Mamba Negra, ODD… Em uma dessas festas, eu comecei a dançar de olhos fechados e a Laura (Teto Preto) me cutucou e falou ‘eu quero que você dance na minha banda’. Eu não tinha nenhum conhecimento artístico, nunca dancei ou cantei, então toda a minha jornada é muito ligada à intuição, aprendi mais com os outros e na raça. 

Quando você veio para o Brasil, por que e o que te faz continuar aqui?

Eu conheci o Raphael Lobato [seu parceiro de vida e trabalho] nas redes sociais e eu precisava fazer um intercâmbio internacional na faculdade, então decidi vir para o Brasil. Eu amei tanto o Brasil que senti ‘é aqui que eu preciso ser’. Eu acho que tem uma liberdade muito grande aqui, os brasileiros criticam muito aqui, mas eu me sinto vivo, na cultura, na arte, nas pessoas. 

Em Paris, você já frequentava a cena eletrônica e alternativa ou você foi conhecer esta cena no Brasil?

Eu frequentava e conhecia, mas eu morava em um bairro mais humilde na França, bem longe. Então para frequentar essas festas eu tinha que pegar um trem, condução e demorar quase duas horas. Eu não tinha muita oportunidade de frequentar esses lugares, mas quando cheguei no Brasil eu pensei: ‘Aqui ninguém me conhece, minha família tá longe’ e por isso que eu me entreguei tanto à noite de São Paulo. 

E agora você sai do Teto Preto, para iniciar essa nova fase na sua carreira, com o seu produtor, certo? 

Sim, eu e Zopelar saímos. Acho que as pessoas esperam uma saída drástica (risos) mas foi algo natural, um dia eu liguei para a Laura e falei ‘Eu me sinto pronto’ e foi isso. Ainda somos amigos e o primeiro show do Teto após a pandemia eu estarei lá dançando e me jogando! 

Em poucas frases, o que a gente pode esperar dessa nova fase da sua carreira?

Meu álbum se chama ‘Ser’, toda a minha carreira artística eu sempre emprestei meu corpo aos outros, sendo bailarino e performer para outros, e pela primeira vez eu me permito ser apenas eu. Acho que honestidade define este projeto. 

Capa do Single 'Do Not Tell Me' de L'Homme Statue com fotografia de Gleeson Paulino.
Capa do Single ‘Do Not Tell Me’ de L’Homme Statue com fotografia de Gleeson Paulino.

Você consegue definir a sonoridade do novo álbum em três palavras?

Jovem. Preto. Viado. 

Por que?

Para mim esse álbum é a história de um jovem negro de 27 anos no Brasil. Tem muitos álbuns que falam de amor, de traição, mas quando isso está dentro do meu recorte isso faz mais sentido. Eu falo de amor livre, uso palavras do Pajubá que aprendi com as monas por aqui. Tem muitas coisas que eu não estava ouvindo muito nos álbuns de outros artistas. Me inspiro muito no Frank Ocean, Solange, Willow Smith. Todos esses artistas do Pop e do R&B Preto, que eu ainda não vejo muito por aqui. Amo Baco Exu do Blues, Urias, Luedji Luna e sinto que cada um tem sua identidade própria, mas ainda não tenho visto tanto um R&B Preto muito forte no Brasil. 

É interessante que ao mesmo tempo que essa é uma experiência mais identificável, também muito única sua, pela questão de ser um imigrante, do choque cultural, né?

Exatamente! O álbum tem canções em português, francês e inglês, eu simplesmente não conseguia escolher apenas uma língua. Todo dia eu falo e de repente sai uma palavra em francês e outra inglês e eu quis abraçar isso, que é o choque cultural. 

Você é bastante ligado à cena eletrônica, de techno e das festas noturnas, isso é algo que também vem forte neste álbum? 

Sim. Tem uma entrevista da Billie Eilish em que ela fala que fez um álbum com 10 músicas e diz ‘Eu fiz música de tal forma que se colocarmos 10 pessoas em uma sala eu quero que pelo menos cada pessoa goste de uma música’. Então no álbum tem um trap pesadão, tem jazz, tem techno, tem músicas de influência africana e R&B. Esse álbum tem músicas muito diferentes, eu realmente me permiti. É uma carta aberta.

Como foi a concepção de um álbum tão diverso e que ao mesmo tempo permanece coerente em sua sonoridade?

Arthur Zopelar (produtor do álbum e ex-Teto Preto): O desafio de traduzir em música as idéias e aventuras sonoras do Loic foi sem dúvida algo muito satisfatório pra mim. A forma despretensiosa e divertida com que trabalhamos ao longo do processo refletiu a pureza e a potência de cada composição, resultando em um trabalho muito único e autoral que sintetiza uma bela parte do mundo particular de L’Homme Statue.

Loïc Koutana e Arthur Zopelar por Gleeson Paulino
Loïc Koutana e Arthur Zopelar por Gleeson Paulino

Quais artistas nacionais e internacionais você gostaria de fazer um feat?

Nacional com certeza Urias, Luedji Luna, Duda Beat e de rappers, o Trevo. E internacional eu amo a Aya Nakamura e acho que Willow Smith! 

E videoclipes, o que você já pode contar? Teremos mais ou menos quantos singles, clipes, nessa era? Você pode dar algum spoiler?

Então, a pandemia me frustrou muito! Eu gosto de performar, tenho um amor pela imagem então eu quis fazer o máximo de clipes possíveis dentro do orçamento (risos). Temos quatro clipes prontos e o que posso dar de spoiler é que o primeiro clipe, que sai esse mês, escaneamos meu corpo em 3D, como em um videogame, eu performei e animaram meu corpo. Fiz esse clipe pensando nessa era das redes sociais, do que é real e não é, e no clipe eu estou lutando contra a minha própria personalidade das redes sociais. A gente projeta tanto uma imagem na rede, que será que essa imagem é real? Em uma das cenas do clipe eu estou matando minha imagem das redes sociais e ela, como um vírus, se multiplica, para falar sobre como na internet a gente perde o controle, aquilo vai além da gente. 

Interessante a perspectiva desse clipe, porque na pandemia você estourou no TikTok e cresceu muito no Instagram. Como você pretende conciliar o L’Homme Statue artista e o influencer? 

Essa é uma ótima pergunta, porque eu sinto que criei uma Hannah Montana, são realmente duas personalidades drasticamente opostas entre a minha personalidade das redes sociais e a do Teto Preto, performer pesada. Esses dias eu bati 1,5 milhões no TikTok e pensei que devem ter 100 mil que me conhecem da época do Teto Preto, a maior parte dessa comunidade não me conhece artisticamente. Mas acredito que quando você faz as coisas com sinceridade, as pessoas captam. Então estou realmente indo com toda a fé, se as pessoas gostarem ótimo e se não se identificarem tudo bem também. No visual desse álbum eu abraço meu lado queer (que às vezes aparece menos nas redes sociais), até para gerar uma discussão na comunidade, eu não quero ser só o preto fofo, gentil, sorrindo, eu também sou isso mas também sou o viado com tudo isso que compõe minha personalidade. 

Loïc, você é bastante ligado à moda, inclusive trabalhando como modelo, como começou esse namoro e o que a moda significa para você?

Eu realmente tenho um grande amor pela moda e imagem, inclusive o FFW foi o primeiro veículo a me dar uma capa de revista! Eu comecei a modelar na França aos 18 anos, no Brasil foi difícil entrar no mundo da moda. Quando eu cheguei nas agências de modelo, elas diziam que já tinham alguém no meu perfil, eu entendi que com meu perfil preto e viado não seria tão fácil de me inserir na moda no Brasil. Mas eu decidi que não ia esperar as pessoas me validarem, acho que minha trajetória é muito sobre eu criar meus próprios espaços. Hoje, eu gosto de poder chamar novos criativos e convidar quem eu quiser para o meu projeto. 

L'Homme Statue por Gleeson Paulino | Divulgação
L’Homme Statue por Gleeson Paulino | Divulgação

Em termos de moda, qual é a mensagem e a imagem de moda desse novo álbum, o que você buscou transmitir?

A minha inspiração é o lado sexy do homem. Eu sendo um homem preto, normalmente tem dois caminhos, ou você é muito fortão, trapper e tal, ou você é o preto, gostoso, malhadão. Eu também amo abraçar esse lado masculino, sexy, mas eu decidindo isso, tomando controle do meu próprio corpo. Quando eu performava pelo Teto Preto, era sempre com pouco tecido, mostrando muito o corpo, mas era a minha escolha me expor dessa maneira. Quando fizemos turnê mundial, tinham muitos europeus que tentavam tocar no meu corpo, dar tapa na bunda e eu parava o show e falava ‘Não me toque, não é porque estou no palco que meu corpo te pertence’. Então estou sempre jogando com essa questão do corpo sexy, também para provocar e refletir por que o corpo preto tem que sempre ser de uma forma ou outra? Por que quando eu uso um brincão ou algo mais feminino isso causa estranhamento?

Você está lançando um álbum junto com o retorno da vida noturna e atividades presenciais. O que você espera desse retorno?

O que eu espero do futuro? Eu já tive muitas oportunidades culturais muito jovem, de viajar o mundo como bailarino. Agora eu quero apresentar um trabalho mais sério, que inspire as novas gerações, sempre falo que estou muito ansioso de ver as novas gerações pós-pandemia, de música, arte e moda e o que eles vão criar. Agora eu quero servir uma era completa, tanto na performance, na música e na moda!

+ Confira o teaser exclusivo do clipe de Do Not Tell Me


Relacionados


Veja Também

Assine a newsletter do FFW

Seja o primeiro a ter acesso a conteúdos exclusivos. Nós chegaremos ao seu email semanalmente quando tivermos algo realmente cool e relevante para dividir.

×