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    Gabriel Massan: o artista brasileiro que saiu da Baixada Fluminense para os palcos de Madonna

    Entrevistamos o jovem artista que tem ganhado destaque na cena internacional da arte digital.

     

    Gabriel Massan: o artista brasileiro que saiu da Baixada Fluminense para os palcos de Madonna

    Entrevistamos o jovem artista que tem ganhado destaque na cena internacional da arte digital.

     

    POR Augusto Mariotti

    Gabriel Massan com Follower, um dos personagens da “THIRD WORLD: THE BOTTOM DIMENSION

    Em julho deste ano, Madonna andava de bicicleta pelo Hyde Park em Londres quando resolveu entrar para ver o que estava rolando na renomada Serpentine Gallery. A popstar então se deparou – e se encantou – com a Third World: The Bottom Dimension, exposição de arte digital do artista brasileiro Gabriel Massan que ocupava um dos espaços mais prestigiados de arte do mundo.

    Nascido na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro, o artista de 27 anos vem conquistando reconhecimento internacional por trabalhos que unem tecnologia e inovação, como o uso de inteligência artificial, realidade aumentada, esculturas virtuais, interatividade e hologramas. 

    Conheci Gabriel em 2018, pré-pandemia, quando o mundo era outro, no desfile de estreia de Lucas Leão, dentro do Projeto Estufa, parte do SPFW. Na ocasião, ele assinava a trilha sonora do desfile que eu faria a direção. De fala baixa e gentil, foi uma sintonia imediata. Desde então venho acompanhando os passos – largos – de Massan. De lá pra cá ele se mudou para São Paulo e, então, para a Europa, buscando desenvolver seu trabalho que ainda era pouco compreendido por aqui, além de serem raras as oportunidades para a arte digital que ainda engatinhava. 

    Nosso reencontro aconteceu em novembro, durante um evento da Bulgari, em São Paulo, no qual Gabriel era a estrela. Convidado pela joalheria romana, ele recriou digitalmente a lendária serpente, um dos símbolos da marca, que completou 75 anos em 2023. 

    Esse reencontro foi o gancho para uma conversa que eu queria fazer há tempos. Falamos pelo zoom, ele já de volta à gelada Berlim, que marcava cinco graus, procurando um café para se aquecer e eu em São Paulo, num dos dias mais quentes do ano. Conversamos sobre sua história, mudança para a Europa, seus mais recentes trabalhos, incluindo a criação da performance de Bedtime Story para a Celebration Tour que comemora os 40 anos de carreira de Madonna.

    A serpenti digital criada para a Bulgari

    Gabriel você nasceu em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense mas morou a vida toda Nilópolis, comunidade conhecida por ser a sede da Beija-Flor. Você tem alguma relação com a escola, com o carnaval?

    Sim, porque durante o ano tem vários momentos que marcam o desenrolar do carnaval, a escolha do samba-enredo, os ensaios, a apuração. Meus pais desfilaram, meu tio fazia parte da escola, eu já fui a quadra.

    Qual é a sua lembrança mais forte da sua infância? 

    Sou bastante apaixonado pela Xuxa, minha mãe tinha os programas gravados, os especiais de natal, cresci no “vintage Xuxa”, tocava nas festas da minha família, cresci vendo a Xuxa que tudo o que ela queria ela poderia conquistar. E sou uma pessoa bastante fantasiosa e isso mexeu comigo, meu pai desenhava comigo, minha mãe me levava ao teatro. Ir disso pros games foi uma forma prolongar essa fantasia.

    Você me contou da vontade se seu pai ser artista. Isso te provocou de alguma forma a começar a fazer arte? 

    Meu pai me estimulou bastante por que ele foi ator quando era novo e sempre conversamos sobre isso. Em relação ao desenho, eu desenhava bastante apesar da minha coordenação motora falha, fazia uma cabeça grande, o corpo pequeno, desenhava bem mas era esquisito. Isso só mudou quando entrei pro ensino médio e a brincadeira começou a ficar mais séria. Comecei a criar conteúdo pra internet com 14, 15 anos, gravava minha tela no The Sims, criava narrativas e publicava no Youtube, eu manjava de fazer site, HTML, tinha muitas tarefas e profissões que eu criava pra mim mesmo e eu exercitava. Meu pai não tava entendendo muito bem o que eu tava propondo pra mim mesmo. E eu sempre senti a necessidade de estar criando, produzindo, até pelas condições econômicas. Eles não entendiam que a arte digital podia ser uma prática artística, que eu tinha uma grande facilidade com as possibilidades do computador. Até hoje eu me pego recontando e reafirmando. Esse lugar do artista digital é muito novo e eu preciso relacionar muitos pontos para que eles entendam o que é ser um artista digital. Isso me ajuda também a entender a minha própria prática. Esse lugar institucional do artista é o mais complicado, por eu ter crescido na baixada, esses lugares de arte pública se quer existiam nesses lugares. 

    Você hoje mora na Europa. O que te motivou a mudar do Brasil?

    Vim pra Europa depois de morar 2 anos em São Paulo. Lá consegui minha independência financeira, morando no centro onde sempre quis morar. São Paulo me abraçou como industria criativa, pude explorar meu interesse por arte digital e construir uma carreira. Só que me encontrei num limbo que não conseguia desenvolver trabalhos que não tivessem ligados ao comercial, não tava conseguindo expandir minhas praticas para VR, acessórios, era tudo caro ou algumas tecnologias não estava disponíveis no Brasil ainda. Daí convidei a Igi (Ayedun) pra desenvolver um trabalho e aplicamos para uma residência em Zaragoza na Espanha e nesse momento entendi que eu havia aberto uma porta e eu precisava tentar ficar mais. Fui então pra Londres, Paris e Berlim, onde eu conhecia muitos artistas e coletivos que moravam aqui. Visitei residências em que eles estavam desenvolvendo projetos e era tudo o que eu achava impossível fazer na minha cidade. Acabei ficando, meu visto foi cedido. Apliquei para um visto de artista e passei, nesse meio tempo não tinha uma relação muito romântica com Berlim, me assustava um pouco, ainda me assusta, mas me sinto mais confortável agora. Quando cheguei aqui, grande parte das discussões sobre arte digital estavam acontecendo ou prestes a acontecer. Eu acho que eu não deveria estar em outro lugar. Arrisquei e aconteceu.

    Com o tempo e todos os caminhos que se abriram pra mim me ajudaram a construir minha carreira. Minha prática hoje consegue se expandir mais aqui pelo acesso a mais recursos e espaços, minha presença aqui é maior.

    Como é ser um artista negro sul-americano hoje na Europa?

    Acho que quando eu cheguei, eu sentia bastante. No Brasil, apesar de tudo, tem uma conexão com as pessoas, um conhecimento prévio, as possibilidades são mais fáceis de serem compreendidas. Não existia um questionamento da minha posição em determinados lugares. Aqui em Berlim eu acabo pesando mais pro lado do imigrante, a existência enquanto imigrante me define muito mais do que outros adendos que potencializam mais minhas dificuldades, mas tudo se agrava por ser imigrante. A tecnologia é um ambiente de homens brancos héteros, então se você precisa ter acesso a tecnologia de ponta, que você tem a possibilidasde de entender aquilo como ferramenta de arte, isso é um privilégio. Isso te dá a possibilidade de escolher, de te manter fazendo algo inovador, então os ambientes que eu entro, deve ter 10%, 5% das pessoas são não brancas e não européias e isso seguiu pelos meus últimos 3 anos em Berlim. Londres e Paris que são cidades mais diversas, quando entro num  ambiente de arte são também dominados por homens, os tech-bros, e isso vem desde a infância por que os homens são estimulados.

    Cada fronteira é um episódio traumático e os ambientes que frequento são majoritariamente brancos e elitistas pois são as pessoas que tem dinheiro e fazer uma exposição é caro. Poucos artistas conseguem fazer essa aponte entre a indústria criativa e o institucional. Mas hoje aqui, meu grupo de amigos e pessoas próprias são imigrantes. Consegui formar um grupo seguro, onde me sinto pertencente. Como existem poucas pessoas como eu aqui, é uma visão muito desejada por eu estar contando uma estória escassa e por eu ter virado essa chave e ter tido esse pequeno privilégio para acessar essas tecnologias e ferramentas para criar arte e experiências.

    Como foi seu primeiro contato com as tecnologias? 

    Minha mãe tinha uma filmadora e ela filmava tudo, eu era encantando por aquilo, mas tudo o que tocava eu quebrava, eu não podia encostar no som, na tv, no dvd, mas eu não tinha video game, tive bem tarde, mas jogava com os amigos, fui ter computador só na escola.

    E como é sua relação com tecnologia? 

    Até hoje eu não assisto tutoriais e vou aprendendo no cotidiano, trocando informações, aprendo tentando fazer.

    Como a produção de arte digital é vista hoje? Ela é bem compreendida?

    Acho que tá mudando bastante, eu também entrei numa caminhada esse ano que percebi que as peças estão começando a se agrupar. Fazer essa individual na Serpentine foi muito importante pra mim mas também pra eles pois fui o artista mais novo a fazer uma exposição lá. Rolou uma grande expectativa de como um show de arte digital e tecnologia seria recebido. A arte digital atrai gamers, estudantes, famílias, sociólogos, arquitetos e o espaço precisa ser re-imaginado para receber esse aparato tecnológico e as pessoas. A partir dessa minha exposição, agora eles vão ter uma de arte e tecnologia por ano. As instituições tem investido cada vez mais, é uma grande mudança. A gente tá entrando numa era, por conta tambem da inteligência artificialI, os artistas estão se tornando grandes empresas. Um artista hoje consegue fazer de forma independente o que só a Disney e Pixar conseguiam e isso tem demandando mais pessoas, mais produtores. E por ser caro e ser sofisticado, o investimento público nao é suficiente então é necessário investimentos mistos publico-privado. O trabalho em si é menos autoral, menos individual e mais dependente de um grupo de colaboradores devido a complexidade de alguns projetos. 

    exposição Third World: The Bottom Dimension, na Serpentine Gallery, em Londres

    Nos conhecemos você fazendo trilha do desfile do Lucas em 2019. Que parte música ocupa na sua produção artística atualmente?

    Eu sou apaixonado por música, eu fazia trilhas, tive uma banda de noise no Rio, mas chegou um momento que eu precisava escolher o que eu queria tentar e a arte digital exigia muito e para ser um produtor independente de música du precisava estudar, saber mixar, masterizar e eu decidi escolher a imagem ao invés de som. Daí eu abri mão de controlar o som no meu trabalho. Foi uma escolha de tornar meu trabalho mais colaborativo. Todo trabalho que eu desenvolvo eu trabalho com um artista sonoro, um produtor e acaba sendo mais interessante pra mim ver meu trabalho sendo interpretado por outro artista.

    E daí para a tour Celebration da Madonna, num dos momentos mais catárticos do show, sua obra é cenário para ela cantar Bedtime Story. Como surgiu esse convite? 

    A Madonna foi à minha exposição na Serpentine, que foi um sucesso de público, vários artistas foram e ela me falou que ela tava pedalando no Hyde Park e daí ela entrou de bike dentro da exposição, ela jogou o jogo Third World e gravou com o celular dela. No dia seguinte a curadora me mandou mensagem contando tudo. Fiquei super feliz e emocionado mas fui seguir meu dia. Depois de uns dias ela começou a me seguir no Instagram e me mandou uma mensagem que eu não tive coragem de abrir na hora. 

    E o que ela dizia na mensagem?

    Ela escreveu que adorou meu trabalho e perguntou se colaborar com ela era algo que me interessava. Eu aceitei na hora, lógico! Me vieram várias memórias que tenho com as músicas dela, ela fez parte da minha vida pois meus pais gostavam de Madonna. 

    Instalação para a performance de Madonna na Celebration Tour (2023)

     

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    E como foi o desenvolvimento desse trabalho para ser cenário de um show?

    Passou um tempo, daí ela me ligou já de Nova York, pediu desculpas pois ela tava em Lisboa comemorando o aniversário dela. Então ela me chamou para fazer a concepção da performance toda! Ela falou bom dia em português (risos). Depois tive ligações com o diretor dela, então uma pessoa do time de management me pediu que eu fosse a Nova York. Fiquei 15 dias lá desenvolvendo o projeto. Fui adicionado ao time no último momento, existia uma tensão por parte da equipe pois todos sabiam que o que eu tava fazendo era algo muito novo, os softwares que eu uso para games não são usados para criar o que eu crio, existiam possibilidades de erros…foi algo que ela viu, quis e apostou. 

    Você faz uma boa gambiarra então? 

    Sim! Eu amo gambiarra.

    Eu acho que gambiarra é a melhor palavra do português!

    Então existia esse medo, esse receio e ela sempre se mostrou muito assertiva e interessada, foi realmente uma colaboração, eram reuniões diárias e eu adicionava peças novas todos os dias e ela via tudo o que eu estava construindo e dava feedbacks diários. Era sempre um ‘tá melhorando’. Ela se interessou pelos mundos que eu crio e ela queria estar nesse mundo, existir nesse mundo, como um avatar. E tudo é sempre feito ao vivo, então foi desafiador calibrar, programar todos esses layers, o meu layer, a paisagem e a Madonna inserida nisso, sem alterar as cores do corpo dela. E daí no fim eu ainda fui pra Manchester por 3 dias antes da estreia para os ensaios finais e foi bem intenso. Mas não fui na abertura, queria dar um tempo maior pro trabalho crescer, a IA ficar mais limpa. Só fui ao show quando a tour chegou em Berlim.

    E você subiu ao palco para participar de Vogue com ela. O que vc sentiu ali naquela hora?

    Eu não sabia que eu ia subir no palco! Eu até tive uma discussão com meu namorado que ficava querendo saber quem ia subir no palco. Eu nem queria mais ouvir ele falar disso, daí quando cheguei no show a manager veio me perguntar se eu queria subir no palco. Eu nunca imaginei que eles iam me convidar e achei muito bonito ela dar espaço pro time criativo, senti que foi um obrigado, que ela gostou do trabalho, ela já tinha dito mas o convite foi uma confirmação.

    Você ficou nervoso? 

    Sim, antes de subir no palco minha cabeça não funcionava, eu só estava surpreso, impactado, foi isso durante toda a performance até descer do palco.

    Qual foi o melhor conselho que você recebeu? 

    Eu acho que como a gente tá falando assim do show da Madonna, também ter subido no palco e em Berlim foi muito especial pra mim pois é a cidade onde eu moro, onde eu sofro, então sinto que isso marcou meu lugar aqui, passar dessa fase de dificuldades e ser o que sou aqui. O diretor da Madonna me falou algo do tipo: o que era meu ja tava garantido, que eu só precisava acreditar e seguir meu caminho.

    O que você diria para o Gabriel de 18 anos hoje?

    Eu acho que eu diria pra ter mais paciência e não desistir porque eu era bastante impaciente, sofria muito por não ser o artista que eu queria ser. Grande parte da minha caminhada até aqui eu passei não conformado com a situação em qual eu estava, pra mim era desesperador não poder expor da forma que eu queria expor no Brasil, era desesperador não existirem oportunidades suficientes, tudo me dava uma vontade absurda de gritar, chorar por não ver saídas em situações que eram bastante limitantes. É uma longa caminhada e sua maturidade só é atingida com muito tempo. Entender que ser artista e seu momento de maturidade e percepção acontece quando você é adulto de fato e já passou por essa fase da juventude me deixa confortável. Veja a Marina Abramovich, que agora tem um instituto e dá oportunidade pra outros artistas. Hoje eu entendo isso. Entendo que preciso ser paciente, degustar e apreciar cada momento pois a cada ano, a cada circunstância eu estou compreendendo minha prática e ainda faltam muitas coisas a serem aprendidas. 

    Assista abaixo uma entrevista com Gabriel sobre sua exposição Third World: The Bottom Dimension.

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