FFW
newsletter
RECEBA NOSSO CONTEÚDO DIRETO NO SEU EMAIL

    Não, obrigado
    Aceitando você concorda com os termos de uso e nossa política de privacidade

    Musical ‘A Loja de Atrocidades’ reúne som, aromas, visuais e performances

    Projeto da residência de 3 meses dos produtores EPX e Caue Gas, na Fenda, estreia em São Paulo.

    Caue, JLZ e EPX

    Musical ‘A Loja de Atrocidades’ reúne som, aromas, visuais e performances

    Projeto da residência de 3 meses dos produtores EPX e Caue Gas, na Fenda, estreia em São Paulo.

    POR Redação

    “Me fascina a característica transdisciplinar do que estamos fazendo. Som, aromas, visuais, performance, tudo isso esteve num caldeirão por três meses.”, assim o fotógrafo Hick Duarte tenta definir o projeto musical  A Loja de Atrocidades que estreia nesse final de semana (30.11) no Galpão Cru, no bairro da Barra Funda, em São Paulo.

    O projeto é resultado da mais recente residência da Fenda, que Hick criou em 2020 e talvez o mais ousado deles. O musical combina música eletrônica, performance artística, shows, cultura de noite, experiências sensoriais, teatro e cinema ao vivo e reune alguns nomes da nova cena criativa paulistana.

    Criado pelo produtor EPX e com co-produção musical de Caue Gas, o musical vai mostrar desde a criação de Nuvens Ocres na natureza ficcional daquele universo, representada pela multiartista Aun Helden, até sua transformação em produto, exibido em um comercial estrelado pela modelo Alexza Paraíso. À beira de um colapso mental, ela entra em uma jornada do Inferno ao Céu da qual o público é, ao mesmo tempo, figurante e voyeur.

    à esq. caue, lucas Swatch e EPX. à dir. caue e g.paim

    O elenco reúne um time de artistas, entre nomes consolidados e da nova geração da cena alternativa, seja na música, performance ou artes visuais, entre eles Davi Sabbag, Sodomita, Jovem Blues, Lucas Swatch, Me Jesmay, Devil Gremory, Luiza de Alexandre e Yaminah Mello. Hick Duarte, além de ser produtor executivo e diretor audiovisual do projeto, atua na performance. 

    A multiartista Anelena Toku também está na produção. Intitulada “diretora olfativa” do projeto, Toku desenvolveu a fragrância do perfume Nuvens Ocres, e também as pesquisas visuais e cenográficas aromáticas que compõem o universo de A Loja de Atrocidades.

    Já a produção musical foi desenvolvida por EPX com Caue como parte do projeto da quinta edição da residência artística Fenda. Juntos, os dois compuseram e remixaram faixas exclusivas de gêneros como brinca com os limites das linguagens do rap, metal, noise, R&B, trance, ópera para o espetáculo junto com os artistas, e com colaboração de produtores convidados como JLZ, G. Paim, Davi Sabbag e Enigma.

    Leia a seguir um bate-papo conduzido por Hick com EPX e Caue sobre o processo criativo de A Loja de Atrocidades.

    à esq. yaminah mello, caue e luiza de alexandre.

    Hick Duarte: Fala, meus amores. Pensei em começarmos esse papo tentando resumir em poucas palavras o que é A Loja de Atrocidades. Acho um exercício interessante tentar sintetizar tudo. Faltando uma semana para a apresentação, como você definiria o projeto, EPX?

    EPX: O que começou como uma ideia de performance musical, para mim, se tornou uma jornada espiritual e de autoconhecimento, muito reveladora também do poder das conexões artísticas que tenho vivido e construído em São Paulo.

    Foi também a forma mais expansiva que já encontrei de expressar a minha visão sobre performance e escuta musical. Considerando que vim de um mundo de DJing e clubes underground, sem formação musical, em um cenário muitas vezes problemático financeiramente, difícil para fazer planos que se concretizem a longo prazo ou pelo menos consigam dialogar para além do que é esperado pelo comercial.

    Hick Duarte: Pensando agora no que será apresentado, estamos falando de um “musical que combina performance, teatro, experiência aromática e live cinema”. E, sendo essencialmente, um musical, queria perguntar para o Caue como foi colaborar com os mais de 10 artistas que compõem o line-up. O que você curtiu e quais foram os principais desafios?

    Caue: O musical tem longa duração e é a maior apresentação que eu já participei. A produção musical foi uma constante busca de manter uma coesão, mesmo entre momentos totalmente opostos. Talvez essa tenha sido a maior dificuldade, conceber uma linearidade não-linear, ir do Céu ao Inferno rapidamente, brincando com as emoções do público. Para construir esses moods opostos e complementares, trabalhamos com artistas de naturezas também distintas. Durante a semana, nos encontramos separadamente com cada núcleo do musical, para pensar e construir cada bloco junto com os artistas. Desse jeito, imprimimos não só a visão geral da performance, mas também a singularidade de cada artista. Essa divisão por dia possibilitou nos concentrarmos em exprimir o mood de cada núcleo ainda impactados pela produção do dia anterior.

    Foi um desafio pensar escrever, produzir, mixar e pensar essas faixas, principalmente para o ao vivo. Estou acostumado a ter uma grande demanda de produção em estúdio com prazo curto, mas ter uma grande demanda e a preocupação de termos essas faixas para o ao vivo foi algo novo.

    à dir. matheus gremory

    Hick Duarte: Foda. Acompanhando todos os ensaios, posso dizer que esse balanço entre a singularidade de cada artista e a atmosfera geral foi algo lindo de ver sendo construído. É inacreditável pensar que a maioria das músicas que apresentaremos são inéditas e foram criadas para A Loja de Atrocidades.

    Mas agora queria falar da nossa pesquisa e dos estudos durante a residência. Me fascina a característica transdisciplinar do que estamos fazendo. Som, aromas, visuais, performance, tudo isso esteve num caldeirão por três meses. Vai ser difícil chegar a uma lista resumida, mas, se vocês pudessem citar algumas referências conceituais primordiais, quais seriam?

    EPX: Quando eu estava planejando vir para a residência, fiz uma lista enorme de livros e filmes, que nem cheguei a ver, no final. Mas tive algumas surpresas, como A Hora do Lobo, da Christiane Jatahy. É uma peça inspirada no filme Dogville, mas adaptada para um cenário brasileiro pós-Bolsonaro, e que explora trazer o cinema para o teatro. Tinha uma tela com vídeos pré-gravados, intercalados com captura ao vivo. Isso me fascinou, pois já era uma ideia central desde o começo da construção da Loja de Atrocidades. No mesmo dia em que vi a peça, a diretora realizou um ensaio aberto e revelou um pouco dos artifícios imagéticos, do processo de construção do roteiro, das intenções com as linguagens e do processo de criação da peça na pandemia. Foi muito inspirador para lidar com questões de construção da narrativa musical. Outras obras que me inspiraram também exploram a metalinguagem do que é documental ou ficção, a série O Ensaio, do Nathan Fielder, e  SYMBIOPSYCHOTAXIPLASM, espécie de documentário ficcional do William Greaves, uma obra icônica dos anos 70 que está recebendo um reconhecimento tardio como pioneiro dos fakementários.

    O nome A Loja de Atrocidades é inspirado no livro A Exibição de Atrocidades, do J. G. Ballard, de obras como Crash. Em Exibição, Ballard explora uma técnica surrealista de cut-n-paste de palavras, ideias, imagens e narrativas, que foi uma inspiração no roteiro não-linear da Loja.

    Tentamos explorar percepções mais fragmentadas de como vivemos a vida realmente, e de como isso se daria num musical, com várias coisas acontecendo ao mesmo tempo, em uma experiência onde podemos levar a atenção do público para além do palco, além de fazê-lo ser uma parte ativa da performance.

    Musicalmente, a maior inspiração na Fenda foi o radinho da dona Erô. Ela trabalha aqui todas as segundas e sextas e é uma presença na hora do almoço ou quando estamos conversando pela cozinha, um ponto central da convivência na casa.

    Caue: Durante a residência fizemos um curso do Lorenzo Senni sobre a sua produção. Ele me instigou a buscar adicionar uma “aleatoriedade controlada” no processo criativo, para encontrar sonoridades e estímulos sonoros que não encontraria propositalmente. Ler o livro O Ato Criativo, do Rick Rubin, também foi importante para manter o processo criativo fluido. Por conta dos diferentes momentos do musical, consigo pensar em referências que foram guiando ou corroborando cada cena da apresentação. Para o momento mais calmo da peça, foi importante ouvir Blonde do Frank Ocean e Lahai, do Sampha. Para os mais agitados, busquei replicar a sensação que tinha ao ouvir bandas de hardcore e trash metal na adolescência, como Chuva Negra e Sepultura, misturando com o peso do digital e a busca por uma certa definição e clareza do trap, como na faixa de Lil Uzi Vert com Babymetal.

    Hick Duarte: Absurdo pensar em todos esses encontros criativos e seus impactos. Para mim, essa é uma das coisas mais valiosas das residências na Fenda, entender como cada artista os incorpora e os reprocessa o seu repertório para criar uma coisa totalmente nova para ele.

    EPX, acho que vale falarmos sobre a experiência aromática da performance. Quando vi o seu live com o Caue na Mamba Negra (o momento que me fez pensar em convidá-los para a residência), esse foi um dos pontos da performance que mais me tocou. A defumação e o trabalho com os incensos conduzido pela Anelena Toku realmente elevou a experiência sonora. Fala um pouco sobre isso? Como você enxerga essa dimensão dos aromas na performance da Loja de Atrocidades e a importância de também ativar o sentido olfativo das pessoas ali presentes?

    EPX: Toda a jornada com os aromas e o perfume começou quando fui convidado pela Mamba Negra a desenvolver um EP pelo selo delas, o MAMBArec. Foi a minha primeira vez construindo a narrativa de um EP, pois a produção musical foi algo que veio muito depois do DJing para mim. Este já era um desafio enorme. Para mim, o processo de composição e produção é algo íntimo e avassalador —e eu sinto a necessidade de compor todo esse universo, tanto narrativa como imageticamente. Então comecei a pensar em como eu poderia expressar essa experiência tão pessoal para além do som. Quando me perguntei “que outras formas temos de expressar ou sentir a essência ou identidade única de alguém?”, logo pensei em perfumes e cheiros. Caí em uma pesquisa sobre aroma jockeys, artistas que experimentam mixar fragrâncias e resinas ao vivo com acompanhamento musical, e fui atrás de fazer isso aqui no Brasil ou de alguém que tivesse uma pesquisa com isso. Perguntei para a Cashu e ela logo me falou o nome da Anelena, que eu conhecia apenas pelo trabalho musical, principalmente com o Fronte Violeta, com a Carla Boregas.

    Quando nos encontramos, tivemos uma conexão genuína. Começamos a desenvolver o perfume e a pensar em como poderíamos transformar isso em performances ao vivo. Tem sido uma jornada no escuro, pois não é um trabalho com muitos precedentes ou coisa documentada. Está sendo incrível poder imprimir nossas próprias ideias de como ambientar os aromas e criar essas situações musicais que estão recebendo uma resposta incrível do público —fascinado pela proposta, mas também por experienciar outras sensações no contexto de clubes e raves, que podem ser complementares ao som ou te levar para longe dali.

    Um desafio da Loja tem sido criar estruturas narrativas e físicas que deem conta do tamanho do lugar e da não-linearidade da história, adaptando cheiros, técnicas e materiais para cada ato musical. Estamos curiosos para saber como o público vai receber como os aromas vão ser trabalhados.

    Para além dos cheiros da Loja, a Anelena também é responsável pelo desenvolvimento dos objetos cenográficos que constroem o universo das resinas e essências da performance.

    luiza de alexandre e jovem blues

    Hick Duarte: Demais. O diálogo som x aromas é o que coloca a performance nesse lugar de experiência sensorial e imersiva —palavra tão mal utilizada pelo mercado de eventos e publicidade nos últimos anos, inclusive.

    Essa história de brincar com códigos de publicidade, o “adpocalypse”, de falar da relação arte x produto de uma forma que toque as pessoas, tudo isso pela ótica de um produto tão clássico na indústria de beleza, o perfume. Esse pensamento esteve presente, ainda que subjetivamente, em todas as partes do nosso processo criativo. E isso foi algo que eu amei desde que você trouxe pela primeira vez para a residência. 

    Falando em perfume, queria direcionar mais uma pergunta para o Caue, que assina a produção musical com o EPX. As composições, tanto líricas quanto sonoras, todas passam, de alguma forma, pelo imaginário do que é um “perfume”. Como você relaciona isso com as músicas? O que de mais interessante você viu de interpretação nesse contexto de perfume x som?

    Caue: O EPX trouxe a ideia de dividir o musical em quatro famílias olfativas —cítrica, floral, âmbar e amadeirado—, e cada momento como uma representação de cada uma delas. Ao longo do processo fomos misturando estas famílias, como se estivéssemos fazendo um perfume para cada cena, sempre fazendo uma das famílias se sobressair em cada ato. Usamos as mesmas matérias-primas para produzir sensações diferentes. Mas, diferentemente dos perfumes comerciais, não queremos agradar. Buscamos criar sensações leves e bonitas, intensas e difíceis, e até sensações que remetem ao feio, ruidoso, fedido. Nos inspiramos no processo de criação de um perfume para A Loja, balanceando os elementos de acordo com a sensação que gostaríamos de criar com o som/aroma de cada cena.

    Hick Duarte: Alquimia! 

    Para terminar, queria especular sobre o futuro. Ainda nem nos apresentamos e já fica claro que o projeto teve um impacto profundo em nós, principalmente no sentido de subverter os nossos processos artísticos. Como vocês imaginam os desdobramentos da Loja? Existe futuro pós-Loja? Perguntando porque eu também não sei hahaha

    Pininga: Imaginamos um álbum e também editar o filme da performance. Vamos ter bastante material. Estou animado para essa parte do projeto: ver como algo performado ao vivo se transforma depois de editado. Desejo muito que consigamos fazer performances menores e isoladas dos atos musicais, assim como continuar a explorar cenografias e outras propostas de narrativas, continuar a investigar até onde a linguagem dos sons continua a ressoar com os cheiros e aromas mundo afora.

    Caue: Sem dúvida existe futuro. Esse processo de residência e criação de uma obra tão complexa e multidisciplinar expandiu os limites para nossos trabalhos. Para além de uma continuidade da Loja, fica a continuidade também dos projetos artísticos individuais, embebidos por todo o processo.

    As duas apresentações do musical realizado pela residência artística Fenda junto à FLAGCX ocorrem nos dias 30 de novembro e 1º de dezembro. Os ingressos custam a partir de R$ 40, e podem ser comprados aqui.

    Não deixe de ver
    Gabriel Massan: o artista brasileiro que saiu da Baixada Fluminense para os palcos de Madonna
    Musical ‘A Loja de Atrocidades’ reúne Som, aromas, visuais e performances
    Maxwell Alexandre assina colaboração com a estilista Angela Brito
    Artista brasileiro cria estampas para a Balenciaga
    Gucci e a Editora Contrasto comemoram primeiro livro
    Fernando Mendes lança livro fotográfico ‘‘Alguma Coisa Sobre Nós’’
    Gucci e Instituto Inhotim apresentam festa anual de fundraising
    Exposição Rebojo promove artistas do Pará em Londres
    Matthieu Blazy vem ao Brasil para evento da Bottega Veneta
    FFW Insider entrevista Nick Knight