Publicação Metal Mental é resultado da primeira residência artística da Fenda

Projeto multidisciplinar do fotógrafo Hick Duarte quer servir de estímulo a jovens artistas brasileiros

A pandemia e o cenário de distanciamento social mexeu com o fotógrafo Hick Duarte. Não é novidade que a cultura e a moda foram duramente afetadas pela pandemia do Covid-19 e diante dessa situação o fotógrafo resolveu colocar de pé um projeto que pudesse dar suporte a novos criativos. Nasceu assim em 2020 a Fenda, uma residência artística e espaço multidisciplinar de estímulo a jovens artistas que já tem seu primeiro fruto: a publicação “METAL MENTAL”, resultado da residência artística de João Novello, fundador da marca DVA Deluxe.

O artista também conhecido por Juicy, tem 23 anos e nasceu no Rio de Janeiro. Pintar, desenhar e andar de skate são habilidades que fazem sentido juntas para ele desde a infância. Cresceu perseguindo a intersecção entre essas práticas e seus desdobramentos no campo criativo. Depois de estudar pintura e desenho industrial no Brasil ele foi para Londres estudar na renomada Central Saint Martins. Sua marca/coletivo DVA Deluxe nasceu justamente nesse tempo em Londres, em 2017. Voltando ao Rio, João integrou o ateliê Baba Seca, espaço que compartilhava com amigos que além do skate também tatuavam, ilustravam, filmavam e produziam roupas.

Hick conheceu João durante gravações do clipe de “Baby”, para a banda carioca Ovo ou Bicho. Depois disso, trabalharam juntos na exposição “Limbo”, em que João colaborou. Desde então, fizeram uma série de ensaios para a DVA Deluxe e projetos envolvendo outras marcas e iniciativas criativas do Rio.

Em sua residência de dois meses na Fenda, em São Paulo, João criou e desenvolveu uma nova coleção da DVA Deluxe do zero. A ideia central era criar peças que explorassem o vocabulário estético da marca tendo as ruas e suas paranóias cotidianas como matéria-prima, a experimentação como método e a interdisciplinaridade como pensamento guia.

Chamei Juicy e Hick para um papo no Whatsapp onde falamos sobre esses dois meses de produção e o resultado que virou a publicação.

Hick, como surgiu a ideia de criar uma residência artística?

Hick Duarte: Surgiu em meio a uma avalanche de pensamentos no lockdown no ano passado. Me peguei pensando muito sobre como poderia apoiar melhor a comunidade criativa ao meu redor. Mais do que documentar, poder oferecer ferramentas para que artistas que estão vindo e eu já tivesse alguma relação pudessem ter autonomia para produzir. E como eu poderia projetar ou alavancar essas produções dentro da minha rede

E como foi transportar a ideia de residência, que normalmente depende de uma presença física em um local num cenário de isolamento e pandemia?

Hick: Nós tivemos um mês e meio de residência presencial no ano passado, quando a situação da pandemia se flexibilizou em São Paulo. O resto foi tudo conduzido online. Nesse tempo de residência física, o Juicy ocupou uma sala que ficava logo acima do meu escritório. Então estávamos sempre em contato para eu acompanhar o que ele estava produzindo. E para discutirmos formas de como apresentaríamos esse resultado final.

A ideia de residência nasceu do seu encontro com o João, ou ela já existia?

Hick: Nasceu antes, mas por ser um amigo próximo seria a situação perfeita para testar, entender melhor o formato, experimentar essa relação e também sacar a viabilidade no sentido da agenda com os outros projetos que conduzo ao mesmo tempo.

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Juicy, porque a moda foi a sua escolha como suporte para esse trabalho?

Juicy: Por vir já desenvolvendo o trabalho com a DVA DELUXE desde 2017, considerei importante incluir a moda nesse projeto pela sua interação com o nosso universo comportamental. Nós andamos de skate e nos importamos em como estamos vestidos.

Você define seu trabalho como sendo o resultado de um reflexo das ruas, do caos e de paranóias. De que forma esse caos que estamos atravessando impactou esse trabalho em particular?

Juicy: Bem no começo da pandemia invadiram o espaço onde eu trabalhava junto aos meus amigos, no centro do Rio, e tive tempo pra repensar muitas coisas além de ter sido momento que coincidiu com o convite para fazer parte da residência. A pandemia dificultou a fluidez dos processos para a DVA, mas sentimos como uma ocasião importante para refletirmos nossas práticas e continuar criando mesmo em tempos de completo caos.

A arte e a cultura foram as aéreas das mais afetadas. Não há muito incentivo para a produção artística e cultural. O que a FENDA significa nesse sentido, Hick Duarte?

Hick: É uma forma de tentar estimular novos artistas que ainda estão tentando encontrar uma forma de tornar sua carreira sustentável dentro desse mercado. Quando falo de artistas, estou pensando em toda modalidade possível. De fotografia a música. Quando vim para São Paulo, de Uberlândia, eu pude contar com o apoio de alguns amigos e pessoas mais experientes para encontrar um caminho profissional.
Queria poder ser essa pessoa para os que estão vindo, retribuir esse aconselhamento e mentoria tão importante quando você ainda está tentando se encontrar profissionalmente

A residência resultou na publicação especial Metal Mental. Como foi o processo de juntar essas visões criativas diferentes e transformá-las em imagens que viraram essa zine?

Hick: No tempo que o Juicy passou lá na residência, ele estava o tempo todo criando roupas, mas não só isso. O Juicy meio que faz um monte de coisa ao mesmo tempo e isso é uma das coisas que mais acho foda nele. Não só pela multidisciplinaridade em si, mas pela forma como todas essas práticas conversam num universo estético particular.
.Então numa mesma tarde em que ele está criando estampas ou costurando, ele também está pintando, filmando skate, às vezes tatuando… essa questão da interdisciplinaridade e do cruzamento de mídias foi algo que quisemos traduzir na publicação também.

Juicy: Durante todo o processo percebi que o Hick estava na mesma disposição que eu de entender qual seria o melhor jeito de colaborarmos e achar a estética que gostaríamos de propor para esse resultado. Foi muito importante, me sinto honrado de poder colaborar com o Hick. Durante esse tempo conheci novas pessoas importantes para a minha caminhada, além do aprendizado e amadurecimento. Ter um incentivo genuíno é algo indescritível

Como serão as próximas residências? teremos mais algum artista esse ano ainda? Como eles serão escolhidos e que tipo de suporte eles recebem?

Hick: Teremos mais artistas esse ano sim, já estou examinando alguns perfis. Sigo pensando em pessoas mais próximas porque esse aspecto da residência da Fenda ainda está em testes, principalmente porque mudei de casa e espaço de trabalho no ano passado e ainda estou me adaptando a esse novo lugar. A ideia é abrir um edital no futuro, mas não acho que ainda estamos preparados para isso, tudo precisa estar mais redondo para assumirmos essa responsabilidade. Em relação ao suporte, os artistas recebem uma ajuda financeira mensal (cada um passa dois meses), um ateliê independente de trabalho e todo o fornecimento de equipamento necessário para a produção.

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“METAL MENTAL” é uma pôster-mag que compila em 84 páginas uma serie de colagens manuais e dípticos criados a partir das fotografias deste ensaio. Com lâminas em 24,5x34cm que também podem ser usadas como pôsteres, a publicação tem tiragem limitada de 100 exemplares e está à venda no site da DVA Deluxe.

A coleção, que você vê acima, foi fotografada em novembro de 2020 por Hick Duarte, com beleza de Jake Falchi, styling do próprio João Novello e casting de Jorge Barros. Colaboraram no shooting e na produção das peças a label Fussy Friends, também do Rio.

70% DO VALOR ARRECADADO COM AS VENDAS SERÃO DIRECIONADOS PARA A DVA DELUXE. OS OUTROS 30% RETROALIMENTAM A FENDA E OS PRÓXIMOS ARTISTAS QUE PASSARÃO PELA RESIDÊNCIA.

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