Economia Circular: Por trás do guarda-roupa compartilhado da Roupateca

Alugar em vez de comprar: os benefícios de consumir de um guarda-roupa compartilhado

Uma das salas da Roupateca / Foto: Cortesia
Uma das salas da Roupateca / Foto: Cortesia

Esta é o primeiro artigo de uma série que o FFW está fazendo sobre Economia Circular e o que ela signfica para a indústria da moda (e para o planeta). Hoje, cerca de 8% da economia do mundo é circular e, segundo analistas, este modelo de economia é uma oportunidade de US$ 4,5 trilhões por apresentar um enorme potencial para o crescimento econômico global e também como acelerador da sociedade em direção a um futuro sustentável. Vamos trazer iniciativas de negócios cuja missão é prolongar o tempo de uso de uma roupa e ressignificar o que é novo, de guarda-roupas compartilhados, resale, brechós e aluguel. Neste primeiro capítulo, contamos a história da Roupateca.

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Há sete anos, uma consultora de moda teve a ideia de fazer uma biblioteca de roupas. Um lugar em que as pessoas poderiam pegar uma peça, usar por alguns dias e devolver depois. Mal sabia ela que essa prática viraria um grande negócio dentro da indústria da moda e um turning point na mudança de cultura relacionada ao consumo.

Esse negócio é a Roupateca, o mais legal guarda-roupa compartilhado de São Paulo, fundado em 2015 por Daniela Ribeiro – desde 2018 ela tem como sócia a comunicadora Flavia Nestrovski. A ideia surgiu quando Daniela trabalhava como consultora de estilo e via muita coisa acumulada nos armários de suas clientes – e mesmo com tantas peças, elas ainda não estavam satisfeitas com o que tinham. A Roupateca surgiu de um impulso intuitivo, algo como um Airbnb de roupas, mas em pouco tempo de existência, o projeto provou que poderia ser uma ferramenta de mudança de cultura.

Na época, já existia o Rent the Runway, que foi fundado em 2009 e virou unicórnio em 2019 quando atingiu a avaliação de US$ 1 bilhão. Mas aqui no Brasil o cenário era outro: o mindset de consumo consciente já existia, os brechós estavam sendo redescobertos, mas ainda não havia muita conversa em torno de aluguel de roupa que não fosse para ocasiões especiais, como casamentos e festas. “A gente ainda não conseguiu no Brasil aplicar o modelo escalável, mas vemos cada vez mais, em conversas com parceiros, concorrentes e clientes, que esse é um caminho numa vertente crescente”, diz Daniela, numa conversa pelo Zoom.

O principal modelo de negócios da Roupateca é a assinatura. Você seleciona um dos planos disponíveis (pode alugar 1, 3 ou 5 peças por mês) e mergulha no acervo da loja, que tem peças de tamanhos e estilos variados e para diversas ocasiões. Há também vale-presente e a opção de fazer sua mala de viagem lá. Nas araras, você encontra desde marcas grandes, como Farm e Hering, às de nicho, como Paula Raia, Catarina Mina e Myfots. É possível que você também esbarre com coleções inteiras de Adriana Barra e Flavia Aranha, o que mostra que há muitas marcas antenadas e de olho na Roupateca como uma maneira de prolongar as peças que saem de loja. Hoje, elas têm uma base com mais de 35 mil mulheres que estão questionando o consumo e sua relação com a possessão de bens de consumo.

Daniela Ribeiro e Flavia Nestrovski, sócias da Roupateca / Foto: Cortesia
Daniela Ribeiro e Flavia Nestrovski, sócias da Roupateca / Foto: Cortesia

A construção do acervo se dá através das marcas parceiras e das próprias assinantes, que levam peças que não usam mais. “E uma vez por mês a gente faz uma limpeza do acervo porque chegam muitas coisas novas e nosso espaço físico é limitado”. A casa que abriga a Roupateca foi, em outros tempos, sede da galeria Choque Cultural.

Itens que saem das araras por falta de circulação vão para bazares, projetos de upcycling ou para a ONG Gerando Falcões. “Estamos sempre buscando formas deles não terminarem nos aterros”, diz Flavia.

Além das assinaturas, a Roupateca também cria recursos através de parcerias com marcas consolidadas, como é o caso da LYCRA, que está presente na loja com uma coleção feita com tecnologias que proporcionam conforto e durabilidade. “Conhecemos a proposta da Roupateca e nos identificamos de imediato com o conceito de guarda-roupa compartilhado, que estende a vida útil das roupas e proporciona acesso a uma comunidade de assinantes comprometida com valores mais sustentáveis e sintonizada com inovação”, conta Alexandre Grilo, Gerente de Comunicação da The LYCRA Company para América do Sul.

São muitas as vantagens de participar deste grande guarda roupa compartilhado. Os benefícios ambientais de um modelo de aluguel são, obviamente, o fator determinante por trás de muitas marcas e consumidores que buscam o mercado de aluguel. De acordo com o Greenpeace, a produção global de roupas dobrou nos últimos 15 anos – para se ter uma ideia, apenas no Reino Unido 140 milhões de libras em roupas são enviadas para aterros sanitários todos os anos.

A seleção da Roupateca passa por uma curadoria cuidadosa e que promove marcas locais e independentes. Assim, ao alugar uma roupa, temos aquela sensação de recompensa quando ganhamos ou compramos algo novo, mas de uma maneira mais responsável.

Casa da Roupateca, no bairro de Pinheiros, em São Paulo / Foto: Cortesia
Casa da Roupateca, no bairro de Pinheiros, em São Paulo / Foto: Cortesia

“Em vez de negar o desejo humano inato por novidade, que associamos a prazer e recompensa, o aluguel de moda pode nos dar a liberação de dopamina de que precisamos”, diz Carolyn Mair, psicóloga comportamental e autora de The Psychology of Fashion.

O fato de que, através da mudança de hábito (alugar em vez de comprar), a gente  renegocia com o conceito de “novo” e consegue virar a chave de uma vez, trazendo outras mudanças sustentáveis que impactam o nosso consumo do dia a dia.

Está nos planos das meninas desenvolver um aplicativo e uma plataforma online mais estruturada. “Os últimos dois ano foram desafiadores, fomos obrigada a nos reinventar e várias coisas que a gente tinha planejado não aconteceram”, conta Daniela. Mas a casa no bairro de Pinheiros vai se manter como o coração da Roupateca. “A casa é um ponto importante, porque as pessoas não entendem o conceito tão fácil e a experiência do provador ainda é muito conveniente. Lá é um lugar de diálogo, de conforto e acolhimento”.

“O consumidor ainda não faz a relação das blusinhas de fast fashion com as mudanças climáticas. Esperamos que daqui uns anos, as pessoas tenham vergonha de comprar no fast fashion”, finaliza Flavia.

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Onde: Rua João Moura, 977, Pinheiros, São Paulo

De terça a sexta-feira das 11h às 20h; sábados das 10h às 16h

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