13.07.2018 / Comportamento / por

Conheça Alice Galeffi e Leticia Gicovate, corações e mentes da revista erótica Nin Magazine

Alice Galeffi e Leticia Gicovate, fundadoras da Nin Magazine / Lucas Bori
Alice Galeffi e Leticia Gicovate, fundadoras da Nin Magazine / Lucas Bori

Letícia e Alice não se bicaram da primeira vez que se conheceram em um show no Rio de Janeiro. Mal sabiam então que um tempo mais tarde, seriam grandes amigas e parceiras.

Alice Galeffi e Leticia Gicovate estão à frente da Nin Magazine (naked for no reason), uma publicação anual de arte erótica.

Alice, 30, é formada em História da Arte e Comunicação, é designer gráfica autodidata e sócia da editora Guarda-Chuva, que publica livros sobre questões contemporâneas. Letícia, 37, estudou moda e publicidade, trabalhou como figurinista no Rio e foi editora de conteúdo do blog da Farm. Hoje, ela vive em Nottingham, na Inglaterra, acompanhando o marido em um doutorado e continua a escrever e editar conteúdo para marcas de moda. E juntas, escrevem para o site Hysteria, a plataforma de conteúdo feminino da Conspiração Filmes.

Elas se uniram pelo desejo de criar um projeto independente que abrangesse as muitas questões em torno da nudez feminina e do sexo. Desconstruir mitos e tabus, expor belos trabalhos de jovens artistas, provocar e aprofundar discussões que levam em conta as diversas facetas da mulher, a maternidade entre elas. “É engraçado porque depois que você vira mãe, as pessoas te colocam em outra caixa. A gente é mãe, não deixou de ser um ser sexual, então é muito divertido desconstruir isso”, diz Alice. “Existe um gap no mercado de ter uma revista erótica guiada pelo olhar feminino sem excluir o homem como artista, profissional, pensador ou muso, mas sempre com uma curadoria feminina. Queremos falar do assunto com naturalidade e profundidade, provocar novas ideias e tirar o assunto da obscuridade com leveza, beleza, levando questões interessantes e guiadas sempre pelo olha feminino”, completa Letícia.

Leia abaixo os principais trechos da nossa conversa:

A atriz Debora Nascimento, capa da terceira edição da revista Nin / Larissa Lax / Cortesia
A atriz Débora Nascimento, capa da terceira edição da revista Nin / Larissa Lax / Cortesia

Como vocês se conheceram?

Alice: Nos conhecemos porque lancei o livro da Paula Gicovate, irmã da Letícia, pela minha editora.

Leticia: Logo depois eu lancei um zine sobre moda, o I love the way you look, que tinha uma pegada filosófica. A Alice curtiu, me chamou pra uma conversa e eu apresentei a ela uma proposta de a gente fazer uma revista, uma coisa que eu já sonhava há alguns anos, desde 2009, quando tirei um período sabático em Berlim e conheci bem o mercado editorial independente que estava despertando lá. E na Alice encontrei a parceira perfeita pra fazer um projeto como o da Nin.

Alice: Quando a gente se viu pela primeira vez num show, a gente não foi uma com a cara da outra. Mas quando fomos pro âmbito do trabalho, resultou num encontro muito legal.

Qual foi a primeira ideia que deu origem ao projeto?

Alice: A Nin surgiu de uma necessidade nossa, de ver uma revista com temas que a gente tivesse interesse. Ela se define como uma revista impressa de arte erótica para homens e mulheres de todos os gêneros.

A gente quer falar de sexo, sexualidade, corpo, desejo, entender as coisas como elas estão sendo mostradas e vistas. O subtítulo naked for no reason surgiu muito espontaneamente. Por que precisa ter um motivo pra gente falar sobre corpo e sexualidade?

Quando vocês lançaram a primeira edição?

Alice: Maio 2015 com a Cicciolina na capa. A segunda veio em 2016 daí pulamos 2017 porque a Leticia foi morar na Inglaterra e eu tive bebê e quis cuidar da minha filha. E foi bom dar esse tempo porque a terceira já veio com outra pegada, com mulheres mais conectadas com a nossa feminilidade, com outro entendimento de corpo e sexualidade.

Quais os conceitos sobre os quais a Nin foi construída? O que era importante vocês passarem como ideia central?

Leticia: A nossa ideia sempre foi: a Nin é uma revista pra pensar em sexo e para pensar o sexo. Com isso acabamos tendo um approach cultural abrangente, com colaboradores como antropólogos, sociólogos, filósofos, escritores, poetas, trazendo muitos aspectos e possibilidades para o assunto.

Como vocês abordam esse assunto?

Existe um gap no mercado de ter uma revista erótica guiada pelo olhar feminino sem excluir o homem como artista, profissional, pensador ou muso, mas sempre com uma curadoria feminina. E falar do assunto com naturalidade e com profundidade, provocado novas ideias, tirando o assunto da obscuridade com leveza, beleza, levando questões interessantes e guiadas sempre pelo olha feminino.

Foto de Aaron Baltimore / Cortesia
Foto de Aaron Baltimore / Cortesia

Por que a nudez feminina ainda é tabu?

Alice: O corpo feminino ainda não pertence a mulher totalmente. Ele representa pureza e profanidade. Vai desde não poder postar um peito no Instagram a ter vários homens que decidem sobre o aborto ou vetam a prostituição, mesmo sendo eles os contratantes das prostitutas. Eles tentam desde sempre domar a nudez e a sexualidade feminina. Só a gente se mostrando dona do nosso corpo é que podemos romper com esses padrões.

Como vocês vêem o mercado de revistas independentes?

Alice: O mercado como um todo é muito complexo, mas especialmente o das independentes ainda não foi totalmente aceito, criado e divulgado no Brasil, ao contrário da Europa, que tem muitos números independentes na ativa. Lá existe um mercado que consome esse tipo de conteúdo. No Brasil, uma revista atemporal com periodicidade anual ainda é uma confusão, as pessoas não sabem se é livro ou revista. Até encontrar um lugar na livraria é complicado.

Aqui nós estamos nas melhores livrarias e também estamos expandindo e abrindo umas frentes na Europa. A revista já é vendida em Londres, Berlim e Lisboa. Nosso conteúdo já veio bilíngue nessa terceira edição justamente porque lá eles têm um mercado muito receptivo, entendido e consumidor dessas publicações.

Leticia: Mas é legal dizer o quanto a gente acredita no mercado nacional.

Como vocês viabilizam o projeto? Ou ele já é sustentável?

Alice: A gente investiu mesmo na revista, nunca tivemos nenhum tipo de parceria ou apoio. Só nesta terceira edição que fizemos uma parceria com o Hysteria, a plataforma de conteúdo feminino da Conspiração. Foi muito legal; a gente escreve no site deles e eles apoiaram com metade da impressão da revista. Então ainda não é sustentável economicamente, mas a gente tá construindo esse projeto e investindo nosso tempo, nosso dinheiro e acreditando nele. E sempre em busca de parceiros. É muito difícil uma marca grande e consolidada apoiar um projeto de arte erótica. O Brasil tá sofrendo esse retrocesso enorme, voltando à idade das trevas, mas a gente vê também a Nin como um ato de resistência, uma luta e uma realização pessoal.

Qual é o papel de cada uma na estrutura da revista? 

Leticia: A Nin somos só nós duas. Eu faço a curadoria e edição e Alice curadoria e direção de arte. Nós somos mães e dividimos nosso tempo entre a maternidade e nosso projeto autoral. A mulher que nós somos é um retrato de uma nova feminilidade, da mulher que se divide entre tudo isso e tem seus interesses pessoais e a sua sexualidade e é cada vez mais dona do seu corpo. A revista reflete isso. A gente mostra a mulher com muita potência, como curadora, como editora, como artista, como pensadora e também como musa, por que não?

Como é feita a curadoria de conteúdo e artistas?

Letícia: A gente não procura artistas especificamente vinculados ao erotismo. Desde o início convidamos artistas e pensadores e pedimos que nos mostrassem o que é erotismo pra eles. A primeira edição foi muito pensada em beleza, questionando padrões estéticos e o por que da sexualidade ser um tabu. A segunda foi voltada para o gênero, uma edição mais política; e a terceira fala sobre feminilidade, sua potência seja como mãe, na juventude ou na terceira idade. Mostramos as diferentes faces da mulher e quão sagrada ou profana é nossa imagem e o que isso tudo quer dizer.

A Nin Magazine é anual e a terceira edição está à venda por R$ 50. Compre o seu exemplar aqui


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