Alexander McQueen e Cordel: Investigamos a suposta apropriação cultural da marca

Acusações sobre suposta apropriação cultural do cordel nordestino surgiram nas redes sociais. Mas foi o caso?

Roupas: Alexander McQueen, Arte: J.Borges | Créditos: Memorial J.Borges | Reprodução
Roupas: Alexander McQueen, Arte: J.Borges | Créditos: Memorial J.Borges | Reprodução

Matéria atualizada em 31.05.2021

Na última semana, a coleção de Pre-Fall/Fall 2021 da Alexander McQueen causou a ira dos brasileiros devido a um suposto plágio ou apropriação da cultura nordestina, mais especificamente da xilogravura e da estética do cordel. Diversos comentários na publicação da coleção no Instagram da marca a acusavam de se apropriar da xilogravura e do cordel nordestino e pediam algum tipo de crédito e retratação. 

A marca recebeu centenas de críticas nas redes sociais e milhares de curtidas nos comentários que a acusavam da apropriação, além de posts denunciando o suposto incidente, sobre os quais a marca não se manifestou (até a data dessa matéria).

comentários no instagram da marca acusando a suposta apropriação. reprodução
comentários no instagram da marca acusando a suposta apropriação. reprodução

Em uma série de peças da coleção foram utilizadas técnicas de estamparia que lembram a estética do Cordel, gerando comparações com o trabalho de J.Borges e outros artistas brasileiros. As semelhanças entre a estética usada nas peças e os trabalhos da xilogravura de cordel realmente saltam aos olhos. Afim de tentar encontrar respostas concretas se foi ou não plágio e apropriação, entramos em contato com o Memorial J.Borges (que guarda a obra do mestre J. Borges) bem como outros artistas de Cordel, que não comentaram, mas mesmo assim, decidimos continuar em busca de respostas.

Na mídia e nas redes sociais, a marca descreve as estampas como Papercut (técnica artística de corte em papel) de Hidden London Seals, o que seriam “Selos de Londres”, espécies de emblemas historicamente utilizados na cultura britânica.

No Instagram, o criador de conteúdo Igor Frossard apontou que a marca historicamente já havia feito estampas com esses grafismos e o a técnica do papercut: “Parecia difícil que aquelas formas fossem de xilogravura, alguns desenhos a gente já tinha visto em coleções anteriores. Inclusive esse estilo de arte papercut é utilizado em estampas, rendas e aplicações desde que a marca ainda estava sob a direção do próprio McQueen”.

Em ordem: Alexander Mc Queen, Arte mexicana de Papel Picado e Rob Ryan
Em ordem: Alexander Mc Queen, Arte mexicana de Papel Picado e Rob Ryan

É verdade: a marca tem uma longa história de trabalhos com impressão de tecidos, rendas e técnicas semelhantes ao papel picado. Os pássaros, bem como o coração e outros elementos, já apareceram em coleções anteriores com os mesmos grafismos, provenientes da impressão sobre o tecido.

As duas primeiras: Vintage Alexander McQueen e a última Fall 2021 Alexander McQueen
As duas primeiras: Alexander McQueen Circa 2009 e a última Fall 2021 Alexander McQueen

Para somar à discussão, conversamos com o gravador, xilógrafo e professor Francisco Maringelli, especialista em xilogravura sobre a existência ou não da apropriação e do plágio nesse caso. Maringelli aponta que apesar de existir uma similaridade com a fatura gráfica do cordel e da xilogravura, os elementos não parecem tipicamente da xilogravura de Cordel brasileira. Além disso, Francisco também afirma que os traços não parecem ter a força expressiva do trabalho habitual de J.Borges ou outros artistas de Cordel.

A prática da xilogravura e do Papercut são difundidas em diversas culturas. Por exemplo, quando falamos de xilogravura, é importante considerar a que técnica não é exclusiva do Brasil, apesar do nosso trabalho ser internacionalmente reconhecido. A técnica milenar de pintura em madeira tem uma forte história no Japão, bem como na Europa, principalmente na Alemanha e na França. Essa é uma história que muitas vezes se confunde com a da comercialização do papel e da impressão.

Munakata Shiko, xilógrafo japonês.
Munakata Shiko, xilógrafo japonês.

A cultura brasileira é extremamente rica e apropriações e cópias de fato acontecem, mas esse não parece ter sido o caso da coleção de Sarah Burton para a Alexander McQueen. Enquanto as similaridades com a xilogravura de cordel existem, a compreensão da técnica da arte em papel, os formatos dos elementos e o entendimento que a xilogravura é uma técnica presente em muitas outras culturas nos levam a outras conclusões.

Após publicarmos essa matéria, a família de J. Borges se manifestou, em matéria do jornal Diário do Nordeste. Paulo Borges, filho do artista, comentou: “Eu dei uma olhada bem detalhada e vi que não tem nada dele. Ainda arrisco em dizer que é a mesma técnica da xilogravura, porém não é da gente”.

Também na mesma matéria, outra especialista opina, Renata Santiago, estilista a professora universitária “Alexander McQueen, o enfant terrible criador da marca, era um defensor ferrenho de suas origens escocesas e inglesas. Suas referências sempre beberam no passado europeu medieval apresentando formas híbridas que contrapõem o formal e o informal, a simplicidade e a opulência das formas e a união contrastante de tradições culturais”.


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