27.05.2019 / Moda / por

Bethany Williams: finalista do Prêmio Louis Vuitton desafia a moda e mostra como ela poderia ser

Foto de backstage do mais recente desfile de Bethany Williams na semana de moda de Londres / Reprodução
Foto de backstage do mais recente desfile de Bethany Williams na semana de moda de Londres / Reprodução

Em poucos dias, o Prêmio LVMH irá revelar seu vencedor entre os oito finalistas. Entre elas, vale destacar a irlandesa Bethany Williams, que tem conquistado cada vez mais seu espaço na moda com seu trabalho que insere o design em um processo ético e sustentável. Bethany acredita que questões sociais e ambientais andam juntas e usa design e inovação para transformar.

Como isso funciona na prática: no âmbito social, a designer é muito envolvida com trabalho voluntário e conhece diversas instituições. Ela então trabalha dentro desses espaços sociais, usando mão de obra de grupos como mulheres em reabilitação de drogas, pessoas que vivem em abrigos, detentas e ex-detentas em processo de reinserção na sociedade. As pessoas recebem pelo trabalho e ainda 20% do lucro com a venda das peças.

Já a parte ambiental é uma grande pesquisa não só de materiais sustentáveis, mas de entender toda a sua composição e pegada no ambiente. Cada uma de suas peças de vestuário é 100% sustentável, até os botões que são feitos à mão por colaboradores através de seu plantio de árvores. “A moda engloba todas as indústrias – da agricultura à comunicação – por isso tem um enorme impacto no planeta, produzindo 80 bilhões de novas peças de roupa por ano e empregando uma em cada seis pessoas no planeta. Ao fornecer um sistema alternativo para as estruturas e serviços sociais de hoje, essa indústria enorme poderia ser usada para criar uma mudança social em vez de causar a exploração que causa”, disse ao site da Vogue americana.

Coleção Breadline, em parte feita com resíduos / Reprodução
Coleção Breadline, em parte feita com resíduos / Reprodução

Neste ano, ela foi a segunda designer a receber o Queen Elizabeth II Award for British Design, uma honraria que reconhece talento, valores comunitários e práticas sustentáveis.

Sua coleção de graduação, Breadline, já veio com esse ideal incorporado e ganhou muitas matérias em sites e revistas de moda. Era 2016 e Bethany trabalhou com a questão da “fome oculta” no Reino Unido, fazendo parcerias com o supermercado Tesco e com um banco de alimentos Vauxhall, que faz doações de comida para pessoas em situação de emergência. Ela criou uma coleção usando materiais de desperdício, além de papelão reciclado do Tesco. Através de técnicas artesanais tradicionais e trabalho com artesãos locais, a marca desenvolveu a superfície desses materiais para criar novos tecidos, tricôs e bordados manuais. E 30% dos lucros foi para o banco de alimentos, continuando o ciclo de troca. “Amo transformar lixo em uma peça bacana”, disse ao The Guardian.

Na coleção Women of Change (Verão 2018), ela fez peças de jersey com mulheres detentas e dependentes químicas em reabilitação na Itália. “Perguntei o que a palavra e o conceito de “mudança” significam para elas e suas respostas escritas tornaram-se as estampas nas roupas”, conta ao site da Metal Magazine. Ela produziu a coleção com o apoio do London College of Fashion e da Fundação Zegna para trabalhar com grupos marginalizados da sociedade, promover mudanças positivas e encorajar empreendimentos sociais. E para fazer o loobook, ela usou modelos da TIH Models (There is Hope), uma nova agência de modelos que apoia jovens em Londres afetados pela falta de moradia, lançando Kris McAllister e Mustapha, ambos sem teto e desempregados. 

Coleção Women of Change / Reprodução
Coleção Women of Change / Reprodução

O resultado visual e em termos de produto é um roupa com pegada streetwear, jovem, vibrante, só que mais elevada e consciente. E o mundo da moda percebeu e abraçou. Em pouco tempo, Bethany já estava vendendo em multimarcas em Londres, Nova York, Tóquio e na Galeries Lafayette, em Paris.

A diferença no trabalho de Bethany é que ela não apenas faz um comentário sobre uma comunidade; mas sim, chama essa comunidade para fazer parte do processo para, aí sim, tentar criar uma mudança. E compartilhar seu lucro com essas instituições em todas as coleções também é algo que não vemos as marcas fazendo.”Eu não quero apenas falar sobre uma comunidade. Quero ajudar a transformar, trabalhando juntos para criar lucro. Quero criar coleções com pessoas reais e espero causar um efeito real no espaço social com o qual nos envolvemos”. O projeto Ponto Firme, de Gustavo Silvestre, também funciona dessa maneira.

Mas para trabalhar com cada coleção dessa forma, ela precisa ser bem específica e colocar alguns parâmetros. “Para a Breadline decidi que iria trabalhar com tricô e jeans – eu tenho que especificar senão acabo me perdendo no meio das possibilidades”.  40% do material veio da parceria com os mercados e os 60% restantes de uma fábrica de triagem em Kent. Bethany muitas vezes tem que desenvolver suas próprias técnicas de costura e costura invisível na hora de manusear materiais como o papelão. Muitas vezes isso causa uma lentidão no processo, como uma jaqueta que levava quatro semanas para ser feita.

Ela faz uma crítica forte ao fast fashion e ao ciclo atual do vestuário que acaba sendo incinerado em aterros. “Essa coisa de fast fashion é relativamente nova, de uns 40 anos pra cá. Minha mãe não cresceu com isso, minha avó também não. É apenas a nossa geração que compra um top novo pra usar na sexta-feira a noite. Esse desperdício e a exploração de trabalhadores através do fast fashion é algo recente. E as pessoas já estão se dando conta de que não vale a pena”.

Os economistas decidiram há dois séculos que as economias se baseiam em três funções: produção, consumo e troca. A economia da troca pode ser aplicada à moda. Em vez disso, os designers se afastam da discussão deixam de representar questões políticas e sociais. Ela dá como exemplo de um estilista que transforma através de seu trabalho o ucraniano  Frolov que, durante a semana de moda da Ucrânia, ele parou a produção de sua coleção etérea para fazer coletes à prova de bala para os protestantes.

Formação

Bethany Williams / Reprodução
Bethany Williams / Reprodução

Bethany, 30, vem de uma pequena ilha na Irlanda chamada Isle of Man. A mãe era estilista  de uma fábrica e também tinha um ateliê em casa. “Minha família é muito criativa e preocupada com as pessoas e o meio ambiente, o que influenciou enormemente a maneira como vejo o mundo”.

Ela estudou Crítica de Arte, o que a fez se interessar por teoria crítica, que acabou virando a espinha dorsal de seu trabalho. “Introduziu-me a maneira como as práticas de arte fornecem sistemas alternativos para combater a globalização e a homogeneização”. Porém, desde adolescente queria trabalhar com sustentabilidade e chegou a se inscrever na faculdade St. Andrews, na Escócia, para fazer Gestão Sustentável, que basicamente seria como gerenciar os recursos de um país. Mas acabou indo para o London College of Fashion, onde se formou em 2016 como a aluna mais brilhante da turma. Sua coleção de formatura já mostrou a que veio.

Paralelo ao seu trabalho como designer, Bethany trabalhava na revista Garage e também era voluntária em um abrigo. “Ia de organizar um shooting com budget ao abrigo ficar com pessoas não podiam comprar nem algo para comer”, diz à i-D. “Queria poder trabalhar na indústria da moda para me infiltrar e usar o sistema para ajudar os outros”.


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