Designers de moda têm apostado na Impressão 3D para criar peças únicas

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A moda e a tecnologia tem cruzado caminhos com frequência nos últimos tempos. Em especial, a moda digital, o metaverso e os NFTs têm estado no centro dessas discussões, mas uma tecnologia mais útil e realista tem começado a ganhar espaço na moda: a impressão 3D.

Nas primeiras décadas dos anos 2000, muito se especulava sobre o que ela seria capaz de proporcionar. Aos poucos, as impressoras 3D ganharam espaço e se popularizar, principalmente nas indústrias para criar peças, e hoje tem sido utilizadas até em estudos para a criação de órgãos do corpo.

A impressão 3D se dá em algumas etapas: primeiro, o desenhos da peça é criado em softwares de design tridimensional, esse design é então passado para um scanner que envia as medidas e coordenadas matemáticas para a impressora 3D imprimir o desenho em três dimensões.

O material mais usado nas impressoras 3D são pequenas fibras sintéticas de plástico, chamadas de filamentos, produzidas a partir de petróleo e com limitadas variações de cores, espessuras e texturas. Mas impressoras mais avançadas já conseguem trabalhar com outros tipos de materiais, como resinas, borrachas e materiais metálicos como o alumínio.

Na temporada de Inverno 2022/23, desfilada no início desse ano, Jonathan Anderson apresentou peças criadas a partir de impressão 3D na Loewe, que pareciam roupas em movimento, mas eram, na verdade de material rígido. As peças foram criadas com filamentos sintéticos, através de uma impressora 3D, como a foto abaixo.

Impressão 3D de camisa na Loewe
Impressão 3D de camisa na Loewe

Outro grande nome da moda que usa a Impressão 3D é a designer holandesa Iris Van Herpen. Grande adepta das interseções entre moda e tecnologia, ela utiliza a técnica há mais de uma década, quando criou o Crystallization Top, sua primeira peça em Impressão 3D, ainda em 2010. Ao contrário de Jonathan Anderson na Loewe, Iris Van Herpen usa a impressão 3D para dar vida a verdadeiras esculturas que são interligadas às suas peças e conectadas com tecidos para criar as verdadeiras esculturas corporais da marca.

Top em impressão 3D por Iris Van Herpen, em 2010
Top em impressão 3D por Iris Van Herpen, em 2010

De origem alemã, a Zellerfeld é uma startup que cria tênis com impressão 3D como propósito de reduzir o impacto socioambiental de sua produção. O próprio cliente pode criar o seu design e ele é produzido através da impressão 3D em questão de poucos dias. A startup já tem chamado atenção e apresentou inclusive uma colaboração com Heron Preston, utilizando o tradicional tom de laranja.

A marca se apresenta como uma opção mais sustentável, devido à redução de lixo causado em detrimento à superprodução, a não usar mão de obra pouco qualificada ou em questões análogas à escravidão e pela redução do custo com envios, já que os calçados podem ser feitos online e impressos em qualquer impressora 3D do mundo. Apesar disso, a Zellerfeld ainda cria suas peças com os tóxicos filamentos plásticos muito usados nessas impressoras.

Sapatos em Impressão 3D da Zellerfeld em colaboração com a Heron Preston
Sapatos em Impressão 3D da Zellerfeld em colaboração com a Heron Preston

Aqui no Brasil, Mateos Quadros é um dos principais nomes da atualidade a experimentar a Impressão 3D aplicada à moda. O designer começou a usar a tecnologia ainda em sua graduação, para criar sua coleção de TCC, inspirada no álbum Biophilia de Bjork. Desde então suas criações tem ganhado novos seguidores e clientes que consomem seus corsets feitos através da Impressão 3D.

Em conversa com o FFW, o designer conta que durante a produção de sua coleção de graduação alugava a impressora, mas conseguiu juntar dinheiro e comprar a sua própria máquina, onde hoje faz suas criações. Mateos também usa filamentos plásticos de variadas cores, impressos em três etapas (devido ao tamanho limitado da placa de impressão de impressoras 3D caseiras) e emendados posteriormente. Segundo ele, os filamentos plásticos são mais funcionais, já que busca criar peças mais resistentes, mas que possuam certa flexibilidade ao vestir.

Corset em Impressão 3D de Mateos Quadros em nosso editorial, foto por Anthenor Neto
Corset em Impressão 3D de Mateos Quadros em nosso editorial, foto por Anthenor Neto

Já a designer de joias Regina Dabdab, usou a técnica ainda em 2016, quando produziu peças para um desfile de Lenny Niemeyer. A princípio, a ideia era criar joias a partir de corais marítimos, ou que simulassem suas formas e cores. Mas com toda a questão da preservação dos corais e impacto ambiental, a impressão 3D veio como uma boa solução, utilizando gesso para imprimir formas muito similares aos dos recifes de corais. Para essa criação, Regina trabalhou em conjunto com a pesquisadora Olivia Merquior e do grupo Texprima que trabalha com máquinas 3D.

Peças em Impressão 3D por Regina DabDab no desfile de Lenny Niemeyer na SPFW N45
Peças em Impressão 3D por Regina DabDab no desfile de Lenny Niemeyer na SPFW N45

Para a moda, a Impressão 3D pode ser uma forma de solucionar problemas: seja para criar estruturas complexas, intrincadas e rígidas que não seriam possíveis de ser atingidas com tecidos, como no caso de Iris Van Herpen, ou mesmo como uma solução prática para simular outros materiais, como no caso de Regina DabDab. Ou mesmo, como uma forma de experimentação criativa, como na Loewe e Mateos Quadros.

AS LIMITAÇÕES DA TECNOLOGIA

Mas nem tudo são flores. Apesar de apresentar uma série de soluções para a moda (e resultados belíssimos, diga-se de passagem) a impressão 3D ainda tem muitas limitações quanto a seu uso no vestuário. Para Regina, apesar de oferecer inúmeras possibilidades, a principal limitação é a acessibilidade.

“Cada vez temos mais acessos a diferentes materiais dentro da Impressão 3D. Acho que a impressão 3D pode ajudar a moda a fazer absolutamente tudo, até um botão de última hora que faltou em um desfile. Mas ainda é um processo muito caro, acho que esse é o maior problema” conta Regina DabDab

Mateos Quadros concorda e ainda afirma que o acesso aos materiais também pode ser bastante complicado no Brasil, que não tem grande variedade de cores para os filamentos plásticos. Já os outros materiais são ainda mais caros e de mais difícil manuseio, sendo usados quase essencialmente nas indústrias.

“Tenho muito desejo de produzir itens como camisetas em Impressão 3D, com uma gramatura menor, para o cotidiano. Apesar de todas as limitações, acredito muito no futuro da impressão 3D nesse contexto da moda” afirma Mateos.

Ele completa que a impressão 3D tem sido muito útil como uma tecnologia complementar, mas ainda existe um grande desafio em criar peças únicas completamente feitas por impressoras 3D. Isto se dá principalmente pela rigidez dos materiais, o que impede que ele seja usado para criar roupas que tem articulações ou que exijam muitos movimentos. Apesar de esteticamente muito interessante, podemos assumir que a peça de Impressão 3D da Loewe não deve ser das mais confortáveis.

Além disso, é impossível não mencionar que o uso dos filamentos plásticos não é lá das melhores ideias para a sustentabilidade tão almejada pela indústria da moda. Materiais sintéticos oriundos do petróleo tem um longo e difícil processo de decomposição na natureza, além do grande impacto ambiental e social de sua extração.

Mas, com a evolução do uso da tecnologia de impressão 3D, o mercado também tem trazido avanços. “Os estudiosos da engenharia de materiais já tem desenvolvidos novos filamentos a partir de materiais naturais, como a beterraba, batatas e outros tubérculos, Já tive contato também com os filamentos feitos a partir de garrafa PET, mas eles não têm a flexibilidade que eu preciso” finaliza Mateos Quadros.


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