15.10.2018 / Moda / por

Em nova carta, Martin Margiela fala sobre pressão e excesso de conteúdo

Desfile de Verão 1996 de Margiela / Reprodução
Desfile de Verão 1996 de Margiela / Reprodução

O designer Martin Margiela recebeu na sexta (12.10) o principal prêmio do Belgian Fashion Awards, o Prêmio do Juri, por toda a sua carreira e o impacto óbvio na história da moda e em coleções que continuam se inspirando em sua estética e conceito de trabalho.

Margiela não compareceu ao evento – ninguém esperava por isso – mas escreveu uma carta de agradecimento em que explica por que se retirou da moda há 10 anos e chama a atenção para a overdose de informações transmitidas pelas mídias sociais, destruindo a “emoção da espera”.

Abaixo, leia a carta na íntegra com a tradução em seguida:

I am very touched and indeed honoured to receive this award, here in my native country.

Especially because I stepped down from fashion already ten years ago.

This evening, my memory goes back to 1983 when I received, here in Brussels, my very first recognition: the second prize of the ‘Golden Spindle’ contest, handed to me by the then only foreign jury member, Jean Paul Gaultier.

Many say that fashion has a short memory as it is obsessed by actuality and novelty. But some recent exhibitions about my work exemplified the opposite. Again, my homeland Belgium was the first to honour my work at the MOMU Antwerp, and then my adoptive city Paris followed with two more, at Palais Galliera and Musée des Arts Décoratifs.

A beautiful tribute to a period of hard work and dedication starting at early age and lasting for more than 30 years, until 2008 – the very year I felt that I could not cope any more with the worldwide increasing pressure and the overgrowing demands of trade. I also regretted the overdose of information carried by social media, destroying the ‘thrill of wait’ and cancelling every effect of surprise, so fundamental for me.

But today, I am happy to notice again a growing interest for creativity in fashion, by some upcoming designers.

This evening, I feel proud and fulfilled and I wish to thank wholeheartedly all of you for your precious support back then and today’s recognition.”

Tradução

Estou muito emocionado e honrado de receber este prêmio aqui no meu país natal. Especialmente porque deixei a moda há dez anos. Esta noite, a minha memória volta a 1983, quando recebi, aqui em Bruxelas, o meu primeiro reconhecimento: o segundo prêmio do concurso Golden Spindle, entregue a mim pelo então único membro estrangeiro do júri, Jean Paul Gaultier.

Muitos dizem que a moda tem uma memória curta, pois é obcecada pela atualidade e pela novidade. Mas algumas exposições recentes sobre o meu trabalho mostraram o contrário. Mais uma vez, a minha terra natal, a Bélgica, foi a primeira a honrar o meu trabalho no MOMU Antuérpia, e depois a minha cidade adotiva, Paris, seguiu com mais duas, no Palais Galliera e no Musée des Arts Décoratifs.

Um belo tributo a um período de trabalho duro e dedicação desde cedo e com duração de mais de 30 anos, até 2008 – o mesmo ano em que senti que não aguentava mais a pressão mundial crescente e as exigências crescentes do comércio.

Também sinto pela overdose de informações transmitidas pelas mídias sociais, destruindo a “emoção da espera” e arruinando todos os efeitos da surpresa, tão fundamentais para mim. Mas hoje, estou feliz em notar novamente um crescente interesse pela criatividade na moda, por parte de alguns novos designers.

Esta noite, sinto-me orgulhoso e realizado e quero agradecer sinceramente a todos vocês pelo seu precioso apoio na época e pelo reconhecimento de hoje. ”


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