Esculturas Corporais: por que estamos obcecados com a silhueta humana?

Exploramos a tendência do culto ao corpo e à sexualidade, que têm levado diversos designers a criarem esculturas corporais vestíveis

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Nas últimas temporadas de moda, a promessa de um retorno ao ‘normal’ – o que quer que isso queira dizer – foi responsável por uma onda de looks espalhafatosos, cheios de brilho e otimismo. Estudiosos também sugeriam que nos próximos anos, com o atenuamento da pandemia, viveríamos uma explosão sexual, que também refletiu em roupas mais sensuais, com recortes, pele à mostra e uma obsessão com o corpo. 

Quantas pessoas não decidiram aderir a um lifestyle mais saudável do meio da pandemia para cá, ou entraram de cabeça na busca da sua própria definição ‘corpo perfeito’, aprenderam a valorizar suas curvas naturais ou as esculpiram com suor e pesos na academia – ou malhando em casa. 

A máxima de que nosso corpo é nosso templo nunca foi tão real e assim como os gregos, estamos obcecados na escultura dos corpos humanos. 

Schiaparelli Spring Summer 21 Couture
Schiaparelli Spring Summer 21 Couture

Uma das primeiras evidências disso na moda, foram os abdomes e breastplates da Schiaparelli, de Daniel Roseberry. A peça, que imitava o corpo humano com um abdômen trincado, foi primeiro utilizada por Kim Kardashian em verde e logo “quebrou a internet”, no final do ano passado. O modelo, em seguida, foi apresentado na Couture de verão 21 da Maison, em diferentes cores e juntamente a um vestido rosa, que também simulava a silhueta humana anabolizada. Como um mimetismo da forma humana, Daniel Roseberry seguiu nessa linha, criando diversas variações de peças que simulavam seios femininos, peitorais e abdomens trincados. 

Kim Kardashian com Breastplate Schiaparelli
Kim Kardashian com Breastplate Schiaparelli

A ORIGEM DAS ESCULTURAS CORPORAIS

O sucesso estrondoso dessas peças da Schiaparelli tornou Daniel Roseberry um dos principais representantes desse movimento das esculturas corporais, mas ele não foi, nem de longe, o primeiro! 

Na temporada de Verão 2020, a designer britânica Sinead O’Dwyer apresentou alguns modelos de esculturas corporais, de forma bastante artesanal e com sua própria identidade alternativa, que agradou dezenas de fãs, inclusive Bella Hadid. Em uma versão mais polida, Tom Ford também apresentou o breastplate na mesma temporada, em looks que iriam cair nas graças de Zendaya e Kate Hudson. 

Zendaya de Tom Ford Spring Summer 2020
Zendaya de Tom Ford Spring Summer 2020

Se viajarmos ainda mais para trás na história para descobrir sua origem, vemos modelos similares de esculturas corporais nas coleções de Thierry Mugler, em 1979, Issey Miyake, nos anos 80 – e usado por Grace Jones – por Alexander Mcqueen em  1999, na Givenchy, e por Yves Saint Laurent, em 2001 e 2002.

Na ordem (da ésq. pra dir.): Thierry Mugler, Issey Miyake, Alexander McQueen para Givenchy, Saint Laurent 2001 e Saint Laurent 2002
Na ordem (da ésq. pra dir.): Thierry Mugler, Issey Miyake, Alexander McQueen para Givenchy, Saint Laurent 2001 e Saint Laurent 2002

OS NOVOS NOMES POR TRÁS DA TENDÊNCIA

Mas esse novo movimento tem sido popularizado e capilarizado principalmente por designers autorais e novos nomes da moda internacional. A designer Paquistanesa Misha Japanwala (25) é um desses nomes, criando breastplates que buscam valorizar a figura feminina, a criadora já vestiu celebridades como Cardi B para seu anúncio de gravidez e o clipe de Rumours, e mais recentemente, Normani no VMAs. 

Cardi B de Misha Japanwala
Cardi B de Misha Japanwala

A designer canadense Nusi Quero também cria peças que formam reais esculturas ao redor do corpo humano, principalmente corsets, a partir de impressão 3D, como o look utilizado por SZA, também o VMAs, no último domingo (12/09).

SZA de Nusi Quero no VMAs | Reprodução Twitter
SZA de Nusi Quero no VMAs | Reprodução Twitter

Os designers brasileiros também não ficam para trás. Victor Puglielli, de São Paulo, começou a criar suas peças que envolviam e simulavam o corpo humano ainda neste ano, e logo evoluiu para os breastplates, com criações feitas a partir da modelagem do couro. “ É como moldar um corpo que não é real, com a tentativa de sair da realidade, da mesmice e, talvez, ir para um lugar melhor, como nos super heróis. Isso reflete nas roupas, nos designers, na arquitetura etc.” aponta Victor. 

Peças de Victor Puglielli (à esq.) e Mateos Quadros (à dir.)
Peças de Victor Puglielli (à esq.) e Mateos Quadros (à dir.)

Mateos Quadros (24) é um designer emergente que faz esculturas corporais através de impressão 3D. Ele começou em seu trabalho de conclusão de curso onde criou esculturas corporais impressas em polímero sintético e uma espécie de aparelho mecânico, similar a uma caixa de som, capaz de manifestar imagens a partir da reprodução/vibração de samplers

“Apesar de entender a relação humana com o corpo como algo historicamente exibicionista, a pandemia do Covid-19 é uma situação evidente de vivência íntima sob e sobre todas as camadas da pele. Vejo nesse convívio, quase compulsório, um grande indicador para a adoração das esculturas corporais.” Mateos Quadros

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“Com essa maior aproximação condicionada à circunstância atual da pandemia, inevitavelmente há uma possibilidade de encontrar, desencontrar e resgatar sentimentos. Como por exemplo, a autoestima, associada criticamente às estéticas ainda vigentes. Trazendo, assim, na camada externa – roupa – uma ampliação afirmativa da interna –  pele.” finaliza.

Mas nem só de breastplates e esculturas vive essa tendência. A ideia de esculturas corporais também busca inspiração nas esculturas gregas e encontra refúgio em outras telas, como no caso da designer, também grega, Di Petsa, que tomou o mundo fashion de assalto com suas peças que simulam tecido molhado, em sua maioria, em tons crus e de branco, à semelhança cuspida de uma estátua grega, de onde a designer afirma tirar sua inspiração. 

Vestido molhado da designer grega Di Petsa | Reprodução Vogue
Vestido molhado da designer grega Di Petsa | Reprodução Vogue

Na última coleção de Thom Browne, recentemente apresentada na New York Fashion Week, também podemos ver essa ideia. O designer utilizou técnicas de sobreposição de tecidos em tule para criar a forma humana esculpida nas peças, como em reais esculturas e até, com uma alusão direta às estátuas gregas.

Thom Browne Spring 22 | Cortesia
Thom Browne Spring 22 | Cortesia

A marca argentina Alfin Varon, por sua vez, utiliza a estamparia para simular o formato de um corpo trincado, com um jogo de luz e sombra, em um novo modelo de segunda pele recentemente lançado. 

Alfin Varon | Reprodução alfinvaron.com
Alfin Varon | Reprodução alfinvaron.com

Em níveis mais extremos, o trabalho do joalheiro Michael Schmidt, que cria reais armaduras, também é um exemplo disso. Foi ele o responsável, em colaboração com a Versace, pela armadura dourada de Lil Nas X no MET Gala. 

Quando falamos de uma obsessão por corpos esculturais, sempre arriscamos esbarrar na ditadura da beleza e dos corpos perfeitos. Por um lado, a ideia de esculturas corporais não é diretamente associada a isso. Designers como Sinead O’Dwyer e Masha Japanwala criam peças que buscam empoderar a figura feminina em diferentes tamanhos e formatos, porém a obsessão de outros designers com os abdomens trincados e peitorais malhados pode arriscar cair em um território problemático. Por enquanto, é fascinante observar como diversos designers têm se apropriado de diferentes técnicas, do 3D à sobreposição de tecidos, para simular a forma humana e criar peças que são reais esculturas sobre o corpo.

Esculturas Corporais de Sinead O'Dwyer | Reprodução
Esculturas Corporais de Sinead O’Dwyer | Reprodução

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