08.08.2016 / Moda / por

Felipe Oliveira Baptista, diretor criativo da Lacoste, fala sobre inovação e estilo na moda esportiva

Felipe Oliveira Baptista, diretor criativo da Lacoste ©Reprodução
Felipe Oliveira Baptista, diretor criativo da Lacoste ©Reprodução

O designer português Felipe Oliveira Baptista, diretor criativo da Lacoste, sentou com o FFW na véspera da abertura dos Jogos para uma conversa que aborda seu trabalho para a marca francesa, que apoia oficialmente a equipe olímpica da França na edição do Rio.

Três linhas foram criadas tanto para o time quanto para os torcedores. A Nouvel Olympique, usada pelos atletas e pela comissão, está sendo vendida somente na França e na loja pop da Lacoste no Club France, na Sociedade Hípica Brasileira do Rio (taxa de entrada no clube é de R$ 20). A French Sporting Spirit, uma versão da Nouvel, está à venda no mundo até 30 de agosto, e a Supporter Collection, com foco na torcida, também vendida até 30 de agosto.

+ Veja quem foi ao lançamento da Lacoste no Rio

Menino prodígio da moda, Felipe venceu diversos prêmios, como o do festival de Hyères e o da Andam/Louis Vuitton. Ele desfilava em Paris com sua marca própria nas semanas de prêt-à-porter e Alta Costura até que, em 2010, participou – e venceu – uma concorrência para o cargo na Lacoste. Sua visão atemporal e minimalista e seu gosto por inovação casaram perfeitamente com a necessidade da grife em se renovar sem perder a legitimidade do que construiu ao longo de mais de 80 anos de existência.

Felipe chegou antes do PR de comunicação da Lacoste, nos apresentamos e, sem muita cerimônia, começamos a conversar. Após a abertura dos Jogos, ele viajou de férias aqui pelo Brasil com a mulher e suas duas crianças. Aos 40 anos, ele é simples e doce, porém bem objetivo em suas respostas. Conheça abaixo o que está por trás da proposta de Felipe Oliveira Baptista para a Lacoste:

A Lacoste é uma marca que sempre esteve à frente quando o assunto é esporte, tanto no apoio aos jogadores quanto na criação e evolução de peças e acessórios esportivos. Como foi criar para uma seleção olímpica?

O processo todo durou dois anos e foi uma honra, pois tem um peso simbólico vestir uma delegação olímpica. É uma cerimônia que a gente vê desde que somos pequenos. Temos que vestir atletas com corpos e necessidades completamente diferentes e, ao mesmo tempo, as peças têm que ser práticas e elegantes. Nós fomos muito bem recebidos pelos atletas, o que é bom, né? Imagina que são quatro anos de trabalho duro pra eles, vão passar duas semanas sob uma grande pressão, então a minha função é faze-los sentir o melhor possível.

O fato dos Jogos serem no Brasil influenciou em algo na criação?

Não para os uniformes da Equipe França, mas nossa coleção de passarela do Verão 16 foi toda inspirada nos Jogos e aí tinha muito de Rio, foi um exercício mais de moda. Para os atletas, fiz mais uma mistura do DNA da Lacoste com a França.

Você desfilava com sua marca própria no prêt-à-porter e na Alta Costura. O que você tem que interessou a Lacoste, uma marca de esporte com grande alcance?

À princípio pode parecer um caso de dois mundos diferentes, mas com pontos comuns. Um trabalho sobre o escultural, o minimal, as formas, a função… Tem um lado mais atemporal presente no meu trabalho pessoal e que é muito Lacoste. É isso o que acho interessante, porque vou olhar para o esporte de uma maneira diferente e isso também dá oxigênio à marca. Se eu tivesse vindo somente de um concorrente, não teria essa visão.

E como você aplica o seu gosto e o seu olhar sobre a moda no trabalho com a Lacoste?

Faço de uma maneira orgânica. Antes de aceitar um trabalho desse, há de ser muito honesto e ver se tem a ver, se pode rolar uma simbiose artística e estética entre os dois universos. Depois tudo acontece de uma maneira natural e fluída. Claro que há sempre um pensamento em torno do que tem valor para a Lacoste, como o esporte, a funcionalidade.

Para entrar na marca, tive que fazer um grande projeto sobre como eu a enxergava em termos de evolução, heritage, o homem e a mulher Lacoste, as campanhas, que tipo de fotógrafos eu gostaria de trabalhar… E quando fui escolhido, disseram que tudo o que estava no projeto estava de acordo com o que eles imaginavam.

Num vídeo sobre o tênis em 2083, a Lacoste recria a modalidade: a raquete parece uma espada de ficção científica e os movimentos do corpo mostram uma roupa com outras necessidades. Esse futuro mais distante aparece no seu trabalho? Com que profundidade você realmente pensa no que ele pode trazer de mudanças práticas na forma como nos vestimos?

Não penso muito na verdade. O que acho mais interessante é tentar fazer coisas que melhorem a vida imediatamente das pessoas. Meu trabalho é tentar fazer a roupa de uma maneira mais prática, funcional e, ao mesmo, tempo com estilo. Tento sempre propor coisas novas e empurrar um pouco as fronteiras do que a gente conhece, mas de uma maneira step by step, não apenas um gesto futurista. Sempre me interessei por inovação e ficção científica, mas acho que a questão da roupa parece que foi mais lenta do que a evolução tecnológica que estamos vivenciando.

Você considera de ponta o acesso que você tem a tecnologia através de uma empresa como a Lacoste alto? Você vê muitas coisas que ainda não existem no mercado?

Sim, vemos algumas coisas novas sim, como roupas conectadas, algumas coisas que daqui a 10, 15 anos vão ser banais. Mas não posso falar muito disso… (risos)

 Mas qual é a sua previsão de quando o público terá acesso a isso? Em quanto tempo estaremos consumindo? Uns cinco anos?

Sim. Vai chegar antes, mas de uma maneira mais sutil. Em cinco anos já estará bem presente. Em 10 anos, banal. A gente também precisa saber o que queremos que as roupas façam por nós. Vamos definir o que a roupa faz ou não.

 Em 2011, a marca tinha duas peças vendidas por segundo no mundo. Como equilibra criação, inovação e o lado comercial?

Temos um departamento de marketing muito forte que se ocupa dessas vendas a cada dois segundos. O meu trabalho é mais da parte de insuflar e colocar as coisas pra frente. Há certas peças que eu gostaria de ver mais nas lojas, que não chegam, mas é um business. Eu tenho a sorte de não sentir a pressão dessa parte das vendas. Olho para tudo o que fazemos, mas trabalhamos não só olhando pra trás, ver o que vendeu pra fazer de novo. Mas, claro, há um diálogo constante entre todas os lados.

O que, além das camisetas polo, pode ser mundialmente reconhecido como Lacoste?

Não há muitas marcas que tenham uma peça icônica famosa no mundo inteiro. Além da gente, tem a Burberry com o trench coat, o casaco de tweed da Chanel. Um ícone já é uma grande conquista. Nosso estilo é reconhecido, mas peça icônica mesmo é a polo.

Lembro que quando fui morar em Londres em 96, um amigo falou: você tem que comprar essa bolsa da Lacoste porque será recebida bem qualquer aeroporto do mundo!

(Risos). É, todo mundo tem uma lembrança afetiva com a Lacoste. A minha primeira polo eu ganhei quando tinha sete anos. Ainda me lembro dela, da cor…

Você vê diferença entre ela ser uma marca visionária pro esporte e pra moda?

Sim, imensas inovações têxteis vêm dos esportes. A maneira como se cola os tecidos, as reações à transpiração, a maior parte da inovação vem através do esporte e isso ainda vai continuar. São essas pesquisas que irão colocar no mercado roupas reagem ao calor e ao frio, coisas que serão mais comuns daqui uns anos.

Qual a sua visão sobre herança? Você olha para o passado, para os arquivos para criar?

Olho muito pros arquivos. Acho importante olhar pra trás pra escrever o futuro. Não faria sentido fazer uma coisa sem olhar para a história da Lacoste. O objetivo principal é que as pessoas sejam surpreendidas com algo novo, mas que faça sentido que seja Lacoste. E às vezes é engraçado pegar uma coisa do passado e volta-la do avesso. A herança é importante, é bom respeita-la, mas ela também tem que estar sempre em movimento.

Quais as regras para criar boas peças de roupas funcionais? Como é a tecnologia hoje?

É uma matemática. Idealmente tem que ter conforto, estilo e funcionalidade. Quando só tem conforto e funcionalidade e não tem estilo, não há sedução e não há magia e é aí que entra o meu lado, meu background mais de moda para trabalhar no corte, nas proporções. E não há nada melhor do que uma peça de roupa que te dê confiança. Todo mundo tem uma roupa fetiche. E elas são fetiche porque te dão uma sensação de confiança.

Sua página pessoal no Instagram é super bonita. O que você quer comunicar com ela?

Eu gosto muito das redes sociais, mas gosto mais ainda de fotografia. Sempre tirei muita foto, fazia álbuns. Hoje é interessante como essas redes abrem portas. Fui chamado por uma editora portuguesa para fazer um livro sobre Lisboa porque eles viram minhas fotos no Instagram. Isso é interessante, porque temos abertura pro mundo de uma forma muito mais democrática.

Você já fotografou algo oficialmente?

Fiz uma campanha quando trabalhava com Christophe Lemaire, fotografei para um amigo meu também… Fotografo desde os 12 anos e hesitei muito antes de fazer moda porque sempre gostei de fotografar. É uma das razões pela qual parei com minha marca, para poder fazer outras coisas criativas que não fosse moda.


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