FFW entrevista: Lucas Nascimento e sua nova marca An-Na London pensada para os novos tempos

Trancado em sua casa por causa da pandemia e do lockdown imposto pelo governo britânico, o estilista brasileiro radicado em Londres Lucas Nascimento tem dedicado seu tempo e sua energia para colocar em pé seu novo projeto – a marca An-Na.

Em 2015 ele parou a grife que levava seu nome após aclamados desfiles no Fashion Rio e na London Fashion Week e decidiu que não queria mais ter meu nome vinculado a uma marca cujo modelo de negócio já não parecia mais fazer sentido. Seus anos dedicados à primeira marca e a consultorias para outras empresas foram de grande aprendizado e amadurecimento para o designer que agora quer poder fazer tudo com mais liberdade, no seu tempo e sem seguir o ritmo frenético do calendário tradicional de lançamentos. Tudo isso foi aplicado na construção e formatação da An-Na lançada oficialmente no final do ano passado. No momento desta entrevista feita por Whatsapp, Lucas se preparava para o segundo drop de peças da marca que acontecerá no próximo mês via o Instagram. Segundo ele, a nova mini coleção será uma sequência da primeira, mas diferente.

Abaixo nosso papo sobre a nova marca, seu propósito e sua visão sobre o futuro da criação de moda.

Qual é a proposta da An-Na, sua recém lançada marca?

É de uma marca com um processo de criação e produção pequenos, onde a gente tenha controle total. A ideia é termos quatro drops por ano e cada drop eu chamo de ‘mini historia’, que terá entre quatro a seis estilos somente, que tenham acabamento perfeito e o tempo necessário de desenvolvimento, pois malharia é um processo longo e mais complexo. Eu queria poder ter esse tempo e também menos pressão de criar muitas peças, toda uma coleção enorme com centenas de ítens. Quero também que seja um produto que tenha longevidade, na vida e nos guarda-roupa das pessoas. Queria também resgatar esse lado mais humano da moda e dos processos e esse é o momento de fazer isso. Com a An-Na eu estou conseguindo colocar isso em prática.

‘Eu acho que a pandemia abriu o olho de todo mundo para outras coisas, para o quão frágil somos, nós e o sistema.’

A marca nasceu durante a pandemia. De que forma o cenário em vivemos influiu na criação da marca e no plano de negócios?

Eu já vinha desenhando esse projeto há algum tempo e só conseguimos lançá-la nesse momento, que foi quando eu encontrei um partner para isso. Eu acho que a pandemia abriu o olho de todo mundo para outras coisas, para o quão frágil somos, nós e o sistema. E a necessidade de se resgatar o lado humano no processo da moda, necessidade da diversidade…e isso era algo que eu já vinha pensando, então ela acabou nascendo no momento certo se olharmos para todas as mudanças que estão acontecendo no mundo.

Quanto ao modelo de negócio nós queremos ter esse controle de toda venda que é online, não estou fazendo atacado, o que possibilita que o produto seja mais acessível para o consumidor final, o que nem sempre é possível no sistema antigo com todos os custos envolvidos que recaem sobre o preço final.

Você vive em Londres e trabalha com moda há 20 anos. Quais foram as maiores mudanças que você pode observar no mercado de moda internacional de lá pra cá?

Eu moro desde 2006 eu já trabalho com moda há quase 20 e a velocidade de tudo foi o que mais mudou. Agora já se discute a necessidade de desaceleração. E a atitude da moda também. Acho que tudo está ficando mais humano, mais realista e mais pé no chão. Eu vejo como mudanças positivas. Logicamente marcas e pessoas que já estavam no mercado há muito mais tempo sentem as mudanças de forma mais radical. Já pra mim o processo parece estar mais leve.

Como você pretende realizar desfiles digitais? Acredita nesse formato dos desfiles pensados exclusivamente para as mídias sociais?

Cada marca tem sua forma de mostrar suas coleções. O desfile está beneficiando mais as marcas que tem poder para fazer um grande show. Para os pequenos fica mais difícil, então tem que ter sentido para seu negócio. Nós não temos budget para desfiles, então vamos fazer tudo mais pequenininho, trabalhar imagem nas redes sociais. Resgatei o trabalho com o Daniel Ueda (stylist) e foi muito gostoso o jeito que fizemos. Queremos crescer organicamente, de forma lenta, sem pressão para atingir um tamanho grande rapidamente.

‘Tem muitas marcas se dizendo sustentável e não são de verdade. Também não dá mais para ter aquela atitude antiga e arrogante, chata da alta moda. ‘

Como você vê o futuro da criação de moda diante de tantos desafios que essa indústria tem pela frente?

(O futuro) já começou né…por causa das consequências da pandemia estão repensando o processo, o tempo e a questão da sustentabilidade e transparência. Tem muitas marcas se dizendo sustentável e não são de verdade. Também não dá mais para ter aquela atitude antiga e arrogante, chata da alta moda. Precisamos de uma atitude mais real, mais positiva. Para as marcas que faço consultoria e já tem uma cultura e processos mais antigos, vai ser muito mais desafiador pois tem muita coisa para se readequar e isso poderá ser um problema. Já não é o caso na minha marca que nasceu dentro dessa nova forma de criar e produzir que se discute tanto hoje.

O que você diria para um novo estilista que está começando agora?

Quando você é jovem designer você tem que puxar pra fantasia, tem que acreditar no que você faz, não deve fazer coisas boring, tem que a coragem de fazer aquilo porque é aquilo que tá te puxando. E eu também não acredito em designers que não sabem cortar, costurar, tem que saber como se faz uma roupa.

@an_nalondon


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